O professor visto de fora

Diversidade de competências exige avaliação multidimensional, dizem especialistas de outras áreas

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Gustavo Morita
O que define um bom professor? A réplica a essa pergunta depende, claro, de quem vai respondê-la. Para um pedagogo, os atributos ligados à didática são os mais importantes. Cada vez mais, porém, outras vozes enriquecem esse debate. A perspectiva de consultores em gestão, sociólogos e psicólogos mostra como é complexo definir o conjunto de características essenciais ao bom educador.


Para o sociólogo Luiz Octávio de Lima Camargo, a evolução do acesso à informação faz com que haja um novo equilíbrio entre o que se sabe e o que se ensina. Ou seja, tão importante quanto encontrar alguém que domina um tema é ter profissionais capazes de alimentar um bom debate.  “Hoje, eu preferiria contratar alguém com o segundo perfil, um especialista em dialogar com os alunos, mesmo em grandes turmas”, diz o sociólogo.


Na busca do bom professor, há quem exija competências mais específicas. Para o psicoterapeuta e consultor em gestão José Ernesto Bologna, a escola se caracteriza por ser um “coletivo de desempenhos”, ou seja, uma espécie de rede de relações humanas onde não basta ter talentos isolados. Esse time, para o consultor, deve saber que educar bem requer mais do que ter na ponta da língua a matéria a ser dada. “É preciso saber como esse conhecimento foi obtido, ou seja, o método”, avalia. Isso é o que permitiria ao professor conferir sentido à informação trabalhada. Mas também isso não bastaria. Bologna defende ser a necessidade de saber conduzir os jovens até esse conhecimento, o que inclui o domínio das mídias tecnológicas atuais.


Diferenças individuais
Além dessas competências básicas, Bologna acredita que o professor contemporâneo deve ser capaz de adaptar-se às diferenças individuais dos alunos e ao ritmo de distintos grupos da mesma turma. “O professor precisa deixar de ter classes, para ter alunos”, afirma. Além disso, no seu entender, os mestres devem saber estimular os estudantes a ter uma visão interdisciplinar, e, por fim, a capacidade de se fazer admirado, legitimando-se para conseguir desenvolver valores éticos.


A questão é como avaliar tamanha diversidade de competências. Para o consultor Renato Casagrande, que já passou pela gestão educacional, a única saída é a avaliação multidimensional, com aspectos quantitativos – medidos em provas – e qualitativos, avaliados durante o exercício profissional. Uma boa avaliação, diz, deve ter entrevistas, aulas-teste, dinâmicas e até mesmo análises de perfil profissional.  “Uma boa seleção não garante que o professor contratado atinja boa performance”, complementa. Tudo porque, segundo o consultor, há diferentes grupos de atributos em jogo, quando se fala do professor, entre elas as competências ligadas ao que chama de domínio de palco (como a capacidade de criar empatia, envolver os alunos), as ligadas à metodologia e didática, e a competência de organizar, planejar, avaliar e controlar as rotinas pedagógicas.


Multitarefa
As competências desejáveis ao docente , segundo Philippe Perrenoud


Antes de avaliar, é preciso saber o que avaliar. Mas quais são as competências básicas que um docente deve ter? Com essa pergunta em mente, o sociólogo suíço Philippe Perrenoud – professor na Universidade de Genebra e referência nas áreas de formação e avaliação – propõe dez grandes grupos de aptidões profissionais desejáveis nos tempos atuais em seu livro Dez novas competências para ensinar (Artmed, 2000). Veja seis exemplos no quadro abaixo. 








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