O professor que jogava xadrez

Lições do jogo que podem ser apreendidas pelo universo pedagógico

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Livros nos trazem inspirações. Se fizermos leituras educadoras. Li recentemente Petite philosophie du joueur d’échecs, de René Alladaye, que trata de uma breve filosofia do enxadrista. O livro mostra que no tabuleiro do xadrez há intenso aprendizado.

Uma das lições mais importantes refere-se aos primeiros lances. A fase da abertura é decisiva. As primeiras horas de vida, os primeiros passos na escola, os primeiros dias do ano letivo são fundamentais.

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Os lances iniciais podem definir (ou direcionam fortemente) o futuro da partida.

No começo, é assim:

 

 

As 32 peças em suas respectivas posições, aguardando o início do jogo. Neste momento, tudo é possível. Mas existem regras a serem conhecidas e obedecidas. E esta é uma importantíssima segunda lição: podemos fazer qualquer coisa, contanto que todos respeitemos todas as regras.

Não se pode jogar fora dos limites do tabuleiro, por exemplo. Não podemos fazer o bispo mover-se como se move o cavalo. Os cavalos são os únicos que podem saltar outras peças. Os movimentos das torres são ortogonais. São muito “certinhas”. Os peões avançam devagar. Mas se um peão atinge a oitava casa, tem direito a ser promovido. Será transformado num bispo, num cavalo, até mesmo numa rainha, que é a mais poderosa das peças. No entanto, um peão jamais será rei. Rei só tem um. E se perdermos o rei, estará tudo perdido.

Valores e estratégias

Uma terceira lição: as peças têm valor. E este valor pode aumentar, dependendo da posição que ocupem no tabuleiro. Um cavalo bem posicionado ganha autoridade. Um bispo em liberdade pode atuar a grandes distâncias. O valor do rei, no entanto, é absoluto. Defendê-lo é defender o valor da vida. Num projeto pedagógico, o valor inegociável é o “rei”. Temos de identificar aquilo do qual não vamos abrir mão, sob pena de sofrermos um xeque-mate desastroso.

As estratégias são pensadas e avaliadas continuamente. Os peões abrem espaço para os demais protagonistas. Todos têm seu papel no desenvolvimento do jogo. E nunca devemos descuidar do rei. Protegê-lo com o roque é indispensável: o rei anda duas casas para o lado de uma das torres, e a torre se posiciona ao lado do rei. Os peões criam uma barreira e defenderão o monarca com sua própria vida. Feito o roque,  vamos à luta!

Depois da abertura, é preciso enfrentar os problemas. Prever as ameaças. Atuar com energia. A guerra do ensino consiste em desejar o melhor. Sem desperdiçar tempo em discussões inúteis. Lances fracos costumam ser fatais a longo prazo. Deve haver uma sintonia e uma sincronia entre todos.

Derrotas e vitórias

Nenhum xeque-mate acontece por acaso. analisemos a imagem a seguir:

 

 

As pretas encurralaram o rei adversário. Abandonado por seus peões, e sem a sua rainha, o rei branco ficou especialmente indefeso. Seus bispos estão longe demais, distraídos. As torres, inertes, sem saber o que fazer. Os poucos peões brancos sobreviventes já foram detidos. O corajoso cavalo branco não conseguiu, sozinho, deter a rainha e as torres pretas.

A derrota faz parte do jogo. Não é algo totalmente inevitável. Nossos alunos podem perder no jogo da educação. A vantagem do tabuleiro está em não perdermos a esperança de um próximo jogo. Vamos recolocar as peças em suas posições de origem e reiniciar um tempo de novas batalhas. De certo modo, a vida também é assim. Uma derrota pode ser apenas uma etapa a superar.

A vitória depende de colocarmos todos nossos recursos em ação. Um jogador que ficasse “passeando” com seus cavalos e não movesse as demais peças, estaria deixando o campo livre para o adversário.

Para vencer, o jogador cuidará dos seus pontos fracos e ao mesmo tempo descobrirá e abrirá caminhos promissores. Por isso cada estudante deve conhecer-se melhor e traçar um projeto de vida que o ajude a ganhar espaço e potenciar talentos.

O tabuleiro da aula

Cada aula pode ser encarada como uma partida. Olhemos com certo distanciamento o que está acontecendo. Façamos lances pensados, com objetivos claros. E valorizemos os lances do outro. Jogar xadrez sozinho é desmotivante. Uma aula monológica é causa de confusão e tédio.

 

 

Vejamos neste último tabuleiro as cinco peças restantes. A vitória das pretas é inevitável. Um peão na quinta casa, longe do alcance do rei adversário, chegará ao final de sua carreira, e ganhará uma promoção. Em que se transformará ele? Seu futuro é uma pergunta.

Um único peão de vantagem pode garantir a vitória. Mas que o rei esteja ao seu lado. O professor que jogava xadrez se projeta neste tabuleiro. Ele se vê naquela torre, guardião de valores. Ele se vê também naquele rei, comandando o seu pequeno exército. Ele se vê naquele peão, avançando lenta mas corajosamente.

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