O professor no Ministério

Os desafios do novo ministro da Educação, o filósofo e educador Renato Janine Ribeiro, vão exigir a habilidade de diálogo de um “intelectual público”, que também vai precisar lidar com um cenário desfavorável e altas expectativas

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© Divulgação/Mariana Leal/MEC
O ministro em sua posse: colegas acreditam que ele deve trazer a ética para a Educação Básica

Em junho de 2013, o filósofo Renato Janine Ribeiro publicou um post no seu perfil no Facebook a respeito do filme Universidade Monstros, uma animação da Pixar. Ele comentava uma cena em que a ação dos personagens bagunçava a biblioteca, ambiente vigiado por uma bibliotecária monstro. “O que me chama a atenção é quantas vezes, em filmes populares, sempre como brincadeira, professores, aulas e bibliotecas são alvo de zombaria. No mínimo, são chatos”, escreveu. Em seguida, concluiu: “Tenho certeza de que essa representação (…) dos educadores como gente chata só leva as pessoas a gostarem ainda MENOS da educação”.

Pouco menos de dois anos depois, em abril de 2015, o professor de ética e filosofia política da USP tomou posse como ministro da Educação em substituição a Cid Gomes, demitido depois de dizer que há “400 achacadores” no Congresso Nacional. Diante das alternativas à pasta e da criticada composição do ministério do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o nome de Janine Ribeiro foi recebido com alívio entre educadores e festejado por simpatizantes do PT, do governo federal e mesmo de opositores. Afinal, desde a saída de Fernando Haddad, hoje prefeito de São Paulo, seria a primeira vez que um educador ocuparia a pasta. “Quem poderia ser mais indicado para comandar toda a transformação na educação do que um professor?”, declarou a presidente em sua fala na posse do novo ministro da chamada “Pátria Educadora”.

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“A escolha do professor Janine é muito promissora. As tarefas que a educação tem pela frente exigem o perfil de um educador”, diz Carlos Roberto Jamil Cury, ex-presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e hoje membro do conselho superior da entidade, onde, de 2004 a 2008, Janine foi diretor de avaliação. De acordo com Cury, a passagem do novo ministro da Educação pela Capes foi marcada pela habilidade em estabelecer diálogos.

Essa habilidade deverá ser fundamental para a gestão de Janine. O Brasil está diante de um cenário de crise econômica que não se viu na última década, a aprovação de Dilma Rousseff é a mais baixa de um presidente desde a véspera da votação do impeachment de Fernando Collor, em setembro de 1992, e o Congresso impõe sucessivas derrotas ao governo federal. É nesse cenário que Janine precisa consolidar as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado e sancionado no ano passado, e tentar estabelecer uma marca de longo prazo para sua gestão.

“Temos de retomar a pauta da educação, passamos por um grande período de aguardo”, afirma Maria Margarida Machado, professora da Universidade Federal de Goiás e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped). Ela conversou com o novo ministro no dia de sua posse em Brasília. “Disse a ele que esse ministério tem uma trajetória, e que ele não pode desconsiderar tudo o que foi feito”, conta. Para Maria Margarida, a nomeação dos secretários é um capítulo fundamental.

As dificuldades de Janine começam justamente nessa composição. De acordo com um assessor com trânsito no Ministério da Educação, o cenário atual na pasta é de “terra arrasada” depois de experiências “traumáticas” desde a saída de Haddad no início de 2012. Encontrar nomes dispostos a fazer parte do ministério nesse momento é uma grande dificuldade. Mesmo assim, diz esse interlocutor, o ministério não vai se deixar contaminar pelo clima político. “Ele corre sozinho”, afirma. Isso, claro, desde que o titular da pasta não esteja lá por indicação puramente política – Janine não é filiado a nenhum partido, embora seja fortemente identificado com o PT.

Intelectual público

Janine, 65 anos, é conhecido por sua participação constante em discussões públicas sobre temas correntes da política e da sociedade. Se não está nas páginas dos jornais ou participando de programas de TV (ele apresentou um programa sobre ética na TV Futura), costuma fazer comentários diários – sobre o noticiário, sobre política, sobre cultura – em sua página no Facebook, onde tem quase 5 mil amigos e é seguido por mais de 50 mil pessoas. Numa publicação no dia 15 de março, data do primeiro grande protesto contra o governo, criticou a condução da política econômica e a postura da presidente Dilma. “Desde a eleição, cobro constantemente Dilma Rousseff porque ela não deu satisfações à sociedade quanto ao ministério ruim que nomeou, nem quanto às medidas econômicas que adotou. É quem eu mais cobro”, publicou.

Suas críticas mais contundentes, no entanto, foram direcionadas aos chefes do Legislativo. No início de março, Janine deu uma palestra em São Paulo. Ao comentar sobre os líderes do PMDB Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados), Renan Calheiros (presidente do Senado) e o vice-presidente da República Michel Temer, declarou: “Deles, o único que está na esfera civilizada é o Michel Temer”. O vídeo está disponível no YouTube.

Mas o momento em que a posição de Janine Ribeiro provocou mais polêmica foi em fevereiro de 2007, quando escreveu um texto para o extinto caderno Mais!, da Folha de S.Paulo, a respeito da morte brutal do estudante João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos. O menino estava no carro da família, roubado por bandidos. Ele não conseguiu se desvencilhar do cinto de segurança e foi arrastado até a morte pelas ruas do Rio de Janeiro. Janine publicou um texto em que colocava em xeque suas posições sobre a pena de morte. “Não paro de pensar que (os assassinos) deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte”, escreveu. O texto motivou uma série de reações, algumas acusando o filósofo de defender a tortura.

Paciente, mas exigente

Como professor na graduação e na pós-graduação em filosofia da USP, o novo ministro é visto por alunos como bastante culto e paciente em suas explicações, mas vaidoso e muito exigente com seminários e monografias, que lê e devolve com rapidez. Na sala de aula, ele costuma analisar situações sob diversos ângulos, para mostrar como cada escola ou autor pensa o mesmo assunto. Graduado em filosofia na USP em 1971, fez mestrado na Sorbonne e doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Especializou-se na obra do filósofo inglês Thomas Hobbes – autor de Leviatã – e publicou e traduziu diversos livros sobre ética e filosofia.

“O Renato aprecia quando discordam dele. Ele gosta que o aluno tenha pensamento próprio e percebe quando falam algo só para agradá-lo”, diz Alexey

Dodsworth Magnavita, orientando de Janine no mestrado e agora no doutorado, e que também foi convidado para assessorá-lo no ministério em Brasília. Alexey conheceu o pensamento de Janine quando fazia graduação em filosofia na Universidade São Judas, em São Paulo. Logo após a polêmica com o texto sobre João Hélio, uma professora levou o artigo para ser discutido em sala de aula. “O que ele escreve é sobre a cisão de uma pessoa entre o que diz a razão e o que diz a emoção. Eu era um dos poucos alunos com mais de 30 anos, 90% da sala eram adolescentes, e a maior parte entendeu o texto”, lembra. Alexey recorda que ficou “tão encantado com a confissão humana” no artigo que o procurou para orientação.

Posteriormente, eles trabalharam juntos em um projeto de ética na escola, idealizado por Janine. Alexey acredita que esse deve ser um dos caminhos da gestão do novo ministro: o de trazer a ética para todas as disciplinas da Educação Básica. O entendimento do ministro, explica, é que a escola deve abordar a ética não como uma disciplina à parte, mas algo que faz parte dos estudos de geografia ou de matemática. “Mesmo que o resultado final (da gestão) não seja o ideal, ele vai deixar uma marca; ele é uma figura de união”, diz.

Expectativas altas

Para o começo da gestão, as expectativas em relação a Janine são altas, mesmo diante da necessidade de cortar custos e apertar o orçamento – ele mesmo já se pronunciou sobre a necessidade de os reitores das universidades federais economizarem. Maria Margarida, da Anped, acredita que o novo ministro tem clareza de que a ampliação do acesso à educação precisa ser feita com qualidade. “É uma ampliação que exige investimento, principalmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste”, diz.

Ela lembra que, em relação à experiência de Janine na Capes, o leque de atuação no ministério é muito maior. Há, por exemplo, metas do PNE para a educação infantil e para a educação em tempo integral, por exemplo, que são muito desafiadoras. Maria Margarida também espera que o novo ministro se volte para a valorização da carreira de professores da Educação Básica e para uma retomada da qualidade da escola pública. “A regulamentação da educação a distância também teria um impacto na formação de professores”, avalia. “Não precisamos reinventar a roda, mas termos a pauta da educação é prioritário.”

Jamil Cury diz que Janine foi capaz de acolher demandas conflitantes na Capes, mas vai encontrar uma “tensão grande” no novo cargo. “Uma coisa é enfrentar a pós-graduação, uma área relativamente pequena, outra é toda a educação, desde a básica até a superior. Não se pode fugir da questão econômica, mas é preciso considerar que o PNE já está aprovado”, diz. Quem conhece o ministério por dentro, porém, faz uma aposta: o primeiro projeto da gestão de Janine será em relação à formação de professores no país.

 Biografia
> Renato Janine Ribeiro tem 65 anos e nasceu em Araçatuba (SP).

> Graduou-se em filosofia na USP em 1971, fez mestrado na Sorbonne e doutorou-se pela instituição paulista, onde dá aulas de ética e filosofia política.

> É especialista na obra do filósofo inglês Thomas Hobbes (século 17), autor de diversos livros e traduções sobre filosofia e ética. Ganhou o Prêmio Jabuti em 2001 com o livro de ensaios A sociedade contra o social – o alto custo da vida pública no Brasil.

> Foi diretor de avaliação da Capes de 2004 a 2008; antes, fez parte dos conselhos do CNPq e da SBPC.

 

 ‘Concepção autoritária’
Quase que ao mesmo tempo em que o nome de Renato Janine Ribeiro era anunciado para o Ministério da Educação, uma entrevista concedida por ele à revista Brasileiros chegava às bancas com críticas do filósofo à presidente Dilma Rousseff. A principal delas era em relação à transparência das ações de governo. “É uma concepção de governo que não precisa prestar contas à sociedade. É isso que a Dilma está mostrando. Uma concepção de governo muito inquietante, porque é, no limite, autoritária. Adota as medidas que precisam ser adotadas, mas não explica. E não explica por que prometeu fazer uma coisa e está fazendo o contrário”, disse.

Janine também criticou a forma como a presidente tratava os nomes de seu ministério. “Não há nenhuma satisfação sendo dada. E os ministros continuam tendo as orelhas puxadas cada vez que falam uma coisa de que ela não gosta. Não há autonomia dos ministros”, observou. O novo ministro disse que apenas dois de seus atuais colegas tinham mais autonomia: Joaquim Levy, da Economia (“quase uma intervenção tucana”), e Juca Ferreira, da Cultura (“maneja um orçamento pequeno, provavelmente não vai levar puxão de orelha”).

Ele afirmou, ainda, que a presidente “não gosta de política” e “não parece ter muita simpatia por um elenco de temas de esquerda”. Apesar dessas ressalvas, Janine não acreditava que havia elementos para um eventual impeachment de Dilma Rousseff. Para ele, qualquer cenário que não fosse a presidente terminar o mandato em condições razoáveis seria “dramático”.

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