O professor no inferno

A educação infernizadora nega tudo o que desejamos ter de melhor: conhecimento, criatividade, esperança, beleza, encontro, solidariedade, crescimento, alegria, paz

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Ilustração de Catarina Bessel para o livro “O alfabeto dos pássaros”, de Nuria Barros, Cosac Naify, 2014

 A letra de Quero que vá tudo pro inferno (1965), do cantor Roberto Carlos, provocou certo incômodo nas almas puras há 50 anos. Era uma época em que a palavra “inferno” soava forte aos ouvidos brasileiros, associada a tantos sermões e leituras religiosas. Mandar alguém para o inferno não parecia ser uma metáfora qualquer.

Na década anterior, os bares de Copacabana (na cidade que ainda era capital do país) começaram a ser chamados de “inferninhos” pelas figuras da classe média que ali praticavam a boemia. Inferninhos eram também as boates e locais de prostituição. Em seu livro de memórias, Eu, aos pedaços (2010), Carlos Heitor Cony conta que, na juventude, para sobreviver, tocava piano nas noites cariocas:

Encontrei um irresponsável que me pagou para tocar num inferninho, frequentado por cavalheiros de grosso trato.

Foi para não cair na sarjeta, driblando assim a profecia que um professor fizera sobre ele, Cony, quando o escritor era estudante:

Nunca precisei rolar pelas sarjetas – profecia de um professor que perdeu a paciência diante de minha ignorância em aprender as equações de segundo grau.

Em sua peça Entre quatro paredes (1945), Jean-Paul Sartre escreveu que “o inferno são os outros”. Os outros me infernizam. Tornam-me mero objeto com o seu olhar petrificador. Aplicando essa ideia sartriana ao mundo da escola, entre as quatro paredes da sala de aula corremos o risco de perder a liberdade e a felicidade possíveis. Olhares de desconfiança, de preconceito ou de recriminação dificultam, e muito, a concretização de um projeto pedagógico.

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Um teólogo explicava que o inferno é a negatividade: o lugar do não. A educação infernizadora nega tudo o que desejamos ter de melhor: conhecimento, criatividade, esperança, beleza, encontro, solidariedade, crescimento, alegria, paz. O que resta da escola se não houver espaço para a positividade? Apenas burocracia, tortura e tédio.

O escritor inglês Cyril Connolly, com aquele típico humor britânico, disse certa vez que sua ideia de inferno era um lugar em que a pessoa seria forçada a ouvir, pela eternidade, todas as opiniões que durante a vida deu aos outros. Algo semelhante acontecerá se reprisarmos as mesmas aulas de sempre.

O mestre e o tesouro
Na Divina comédia, Dante Alighieri distribuiu quem quis entre o inferno, o céu e o purgatório. Como se fosse ele próprio o Justo Juiz, decidiu quem estava salvo ou condenado. Ao inferno destinou personalidades conhecidas e ilustres nomes da história. E com a liberdade que só os poetas têm não hesitou em mandar para as chamas eternas o papa Anastácio II (século V) e mais três sumos pontífices do século XIII: Nicolau III, Bonifácio VIII e Clemente V.

Lá pelo Canto XV do poema, caminhando pelos círculos do inferno, Dante vê uma fila de almas torturadas. E do meio daquele grupo em movimento sai de repente um homem cujo rosto lhe parece familiar. É o seu professor Bruneto Latino, que exclama: “Milagre!”.

O professor se surpreende ao ver seu ex-aluno andando por ali, e este responde, com não menor espanto: “Sois vós aqui, senhor Bruneto?”. É grande o respeito do aluno pelo professor. No breve diá­logo entre os dois, Bruneto o chama de “filho meu”.

Mestre Bruneto era 40 anos mais velho do que Dante. Nascido em Florença, atuou como diplomata, escritor, tradutor e especialista na arte de falar. É de sua autoria uma enciclopédia chamada Os livros do tesouro, em que reúne e registra ensinamentos da época sobre política, religião, moral e retórica.

Neste encontro no fundo do inferno, o professor pergunta ao aluno como conseguiu descer até ali. O professor está admirado com o talento poético de Dante. E lhe dá um conselho: “siga a sua estrela e chegará ao glorioso porto”. Um conselho valioso para todo aluno: siga a sua vocação, persiga as suas metas, procure alcançar os seus ideais. Um conselho que o próprio Bruneto não soube seguir em vida, talvez, e por isso perdeu o céu.

Dante se entristece ao ver seu mestre preferido naquela situação infernal. E promete que honrará a memória do professor. Bruneto agradece e pede que cuide de modo especial daquela sua obra, Os livros do tesouro, com a qual procurou dar ao mundo a sua melhor contribuição. Bruneto diz que naquelas páginas ele, como autor, continua a existir: “Cuide para mim do meu Tesouro, no qual eu ainda vivo”.

Numa edição de 1863 patrocinada pela Bibliothèque Impériale francesa, na época de Napoleão III, o Tesouro pode ser lido integralmente em francês arcaico1, idioma em que o italiano Bruneto Latino adorava escrever. Entre centenas de recomendações, ensina ele que precisamos evitar a pressa, a cobiça e a cólera, se quisermos nos comunicar com beleza e eficácia. Eis aí um bom conselho que poderemos colocar em prática em nossa próxima aula.

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade – www.perisse.com.br

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