O professor faz a diferença

Mais do que qualquer outra coisa, a boa educação se traduz por meio de docentes cujo conhecimento possa servir como um elemento de sedução dos estudantes, defende psicanalista italiano radicado no Brasil

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Colunista do jornal Folha de S.Paulo desde 1999, no qual escreve todas as quintas-feiras na Ilustrada , o psicanalista e doutor em psicologia clínica Contardo Calligaris nasceu na Itália e vive hoje entre São Paulo e Nova York. Foi professor de estudos culturais da New School, em Nova York, e professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Atento aos fenômenos relativos à cultura e com uma formação universalista, Calligaris faz um contraponto a idéias correntes no mundo educacional, como a cultuada parceria escola-família e a valorização da tecnologia. Leia, a seguir, na entrevista concedida ao editor Rubem Barros, como o autor de Adolescência (Publifolha, 1999) e Cartas a um jovem terapeuta (Campus, 2007) analisa algumas das questões centrais da educação e das relações entre a sociedade e os jovens.


Em coluna recente sobre as restrições aos viajantes mundo afora, o senhor diz que "a mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência". Isso vale para a educação?


Não necessariamente a mentira, mas a possibilidade de manter áreas de segredo é crucial para qualquer jovem, adolescente ou criança. Não significa que isso tenha de ser criado ou facilitado pelos pais, mas essa possibilidade é crucial. Às vezes, implica também mentiras. Isso se afasta muito de ideais, em especial norte-americanos, em que a questão da transparência e da sinceridade é um valor central há mais de dois séculos, e mentir é um pecado capital.


O senhor concorda com isso?


Salvo nas situações em que a mentira obedece a um julgamento moral, no foro íntimo de um sujeito, com o qual podemos ou não concordar. Esse julgamento moral é mais importante do que as regras estabelecidas. Há uma série de situações em que faz parte da nossa autonomia poder achar que algo pode ser ilegal e justo, ou ilegal e injusto. Normalmente se presume que o que nos parece justo é mais importante do que aquilo que é legal. Isso faz com que, numa série de situações, condutas que podem parecer imorais sejam perfeitamente morais.


Da metade do século passado para cá, a escola deixou de ser tão controladora, ou apenas desenvolveu novos meios de controle?


Uma das coisas opressivas, e hoje mais valorizadas em pedagogia, é a aliança constante entre pais e mestres que, em princípio, e no melhor dos casos, estariam numa espécie de aliança constante, com troca de orientações, encontros regulares, criando uma espécie de time que se ocupa global e coletivamente do devir da criança e do adolescente. Isso é bastante opressivo. Uma separação mais clara entre a casa e a escola deixava margens maiores de liberdade a esses sujeitos.


Por quê?


A possibilidade de poder ser uma pessoa diferente em casa e na escola, de poder estar deprimido em casa e ótimo na escola, ou vice-versa, é suprimida com isso. Acaba sendo uma preocupação que surge em casa e chega aos ouvidos da escola, ou vice-versa. Em um monte de casos essa comunicação é ótima, mas cria a sensação para o adolescente de que ele está vivendo num só mundo. E os adultos não vivem num mundo só. Nossos filhos não são chamados ao nosso trabalho para conversar com nosso chefe. São dois mundos.


Congelado em sua moratória – a adolescência, como o senhor a classifica -, o jovem enfrenta no ensino médio um período conturbado de sua vida escolar e pessoal. Para muitos, o que se estuda não faz sentido. Como se enfrenta esse problema?

Há um lado relativo ao programa, sobre o qual não tenho muito a dizer, pois não conheço bem o programa escolar brasileiro. Mas não me convenço de que essa seja a questão central, nem mesmo a adaptação do programa escolar às mudanças [do mundo contemporâneo], que é de uma lentidão extraordinária. Mas tenho uma opinião quanto ao interesse dos alunos: sempre achei que a única coisa que realmente importa na sala de aula é a qualidade do professor. O resto é balela. Que tenha computador, vídeo, que esteja chovendo, que tenha ar-condicionado, 20 alunos ou 35… Quando penso na minha história escolar, os lugares e os momentos em que aprendi são momentos em que encontrei como professores pessoas fora do comum.


A idéia do mestre…


Não do mestre como alguém que vai me administrar a verdade em partículas, mas de uma figura que seduz, que leva consigo, esse é o sentido etimológico de seduzir. Eu não tinha nenhuma disposição especial para as exatas, fiz maturidade clássica na Itália. No colegial, tive um professor de física muito bom. Quando fui fazer o exame oral de física da maturidade clássica – um exame pesadíssimo, que avalia o programa integral de três anos em todas as disciplinas – o examinador, que nunca tinha me visto, pediu que eu descrevesse uma máquina para medir a transformação de pressão e volume com gases. Não me lembrava do que ele estava falando, e era algo que existia. Tive a cara de pau, graças àquele professor, de falar para o examinador: "Não me lembro, mas, se você ajudar, tento inventar essa máquina". Ficamos meia hora, e inventei algo que "funcionava". Tive nota máxima. E sorte, porque o cara poderia ter dito "dane-se". Mas tive essa cara de pau graças àquele professor, porque era o estado de espírito com o qual a gente falava de física.


Como outros campos, o educacional também tem assistido a uma supervalorização das habilidades e competências, muitas vezes em detrimento do conhecimento, confundido com "conteudismo".


Essa separação entre conhecimento e pensamento é artificial. É verdade que talvez não seja essencial saber quantos ingleses e quantos franceses morreram na Batalha de Azincourt, mas a significação da Batalha de Azincourt é importante. Se você acha que a Batalha de Azincourt aconteceu na Rússia durante a Revolução de Outubro, vai ser complicado pensar na sua significação. Por outro lado, o esforço de memória para se lembrar de quando foi Azincourt é facilitado caso você se apaixone pelo que aconteceu naquele momento. Essas duas coisas andam juntas. O conhecimento é muito mais facilmente assimilado quando está ligado à sua significação o tempo inteiro. E também a significação sem conhecimento, o que seria?


Em alguns países, o ensino superior tem passado a oferecer uma formação mais aberta, com disciplinas de diversas áreas nos primeiros anos, e especializações mais à frente. A universidade está absorvendo as funções que antes eram do ensino médio?


Sim, é o modelo americano que está se difundindo. É a idéia de que, no fundo, você vai para a universidade e faz no mínimo dois anos que são uma continua­ção do colegial, só que num contexto diferente. No caso brasileiro, isso seria bem-vindo, pois o colegial é muito curto em duração e em número de horas, se comparado com o resto do mundo. Um aluno muito bom pode entrar na faculdade aos 17 anos. Além de ser meio absurdo que alguém nessa idade faça uma escolha profissional – tudo bem, pode-se mudar de faculdade depois, o que não é nenhuma perda de tempo -, a idéia de que primeiro você faz o college e depois entra em medicina ou direito é interessante. Mas também poderíamos aumentar o tempo do colegial e o tempo de permanência na escola, que é curto no Brasil. Costumo pensar que, na universidade, os alunos de 1os e 2os anos poderiam ser ensinados pelos de 3os e 4os anos, e que a grande concentração de doutores deveria estar no colegial, com salários adequados.


Como seria isso para os alunos que têm necessidade de entrar logo no mercado de trabalho? Não iria afastá-los do ensino médio?

Mas você produz pessoas mais qualificadas. Quarenta anos atrás, quando me formei, ter terminado o ensino médio era um valor, até no mercado de trabalho. Hoje não é mais, não só porque se multiplicou o número de pessoas que terminam, mas também porque não tem mais a mesma qualidade. Um bom ensino médio melhora a qualidade de experiência de uma vida inteira. Que a pessoa possa ir para a universidade ou que se dedique a uma carreira técnica de qualquer tipo, tanto faz. É uma bagagem que fica com ela. Também é uma grande injustiça social ter um ensino que dura cinco horas. O que isso significa? Que os alunos de classe média e alta à tarde vão para o inglês, à natação, ao balé, à pintura japonesa, carregados para cima e para baixo por avós e motoristas. Os outros estão em casa, com a tia, esperando que a mãe volte do trabalho. Seria muito diferente se o ensino durasse até as 15h30, 16h. A aula de inglês e a de pintura têm de estar dentro do ensino, isso seria muito mais igualitário. Esse igualitário não significa um valor em si, mas sim dar essa possibilidade a todos.


Os casos de depressão e suicídio juvenis hoje são mais visíveis e falados. Por quê?


Segundo os dados, o suicídio de jovens e adolescentes aumentou relativamente pouco, 2%, o que pode ser acidental.


Mas começaram a pipocar casos em colégios de classe média. Isso está relacionado a esse congelamento a que constrangemos os jovens, impedindo-os de assumir sua vida adulta?


É verdade. Mas há um problema importante que tem de ser dito: começamos a medicar os jovens por depressão. Os antidepressivos apresentam um risco de condutas impulsivas, inclusive suicidas, que é real. É pequeno, mas quando acontece com você é muito grande. O manuseio desses remédios é complicado, a interrupção pode ser extremamente problemática, e isso, por certo, entra nessas estatísticas. Essa não é uma medicação com a qual se pode brincar. O uso da medicação na infância e na adolescência deveria ser muito cauteloso, limitado. É óbvio que é preciso saber se a criança poderia ser ajudada de outras maneiras antes de receitá-la. Mas, sobretudo, deve-se saber se a medicação não responde mais à intolerância dos pais em relação à eventual infelicidade ou fracasso dos filhos do que a uma real necessidade deles. O filho pode ser infeliz por muitas razões. Porque não gosta de ser adolescente, o que é compreensível, porque ninguém gosta. Ou porque está gordo e tem vergonha de tirar a camisa, ou porque tem camaradas que o estão tratando mal ou uma menina mandou-o se enxergar. Isso faz parte da vida.


As regras e convenções – lingüísticas, pedagógicas ou históricas – vêm sendo cada vez mais relativizadas. Como a escola, uma instituição que, em princípio, deveria tornar comuns os valores de uma sociedade, pode aliar a existência da norma à necessidade de uma pluralização do olhar?


É possível construir uma vida inteira contra as normas, mas para isso é preciso que haja normas. Caso contrário, não há contra o que se opor. O texto de iletrados, sem conhecimentos da ortografia, não vai ser nunca um Finnegans wake [de James Joyce]. Para escrever Finnegans wake, é preciso conhecer a ortografia e a língua perfeitamente. A partir disso, você faz um texto de vanguarda e tortura a ortografia, a gramática e a sintaxe inglesa. A relação com a norma é absolutamente constitutiva. Isso vale para tudo, para criar, para o conhecimento normativo, para as normas de conduta. A experiência contrária foi feita no fim dos anos 60 e nos anos 70 e se viu que crescer num ambiente totalmente permissivo curiosamente não cria sujeitos dotados de um espírito crítico muito vivo. Só cria sujeitos perdidos.

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