O professor do futuro

Formação e requalificação dos docentes serão fundamentais para que haja mudança de mentalidade no processo de ensino-Aprendizagem

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A boa aplicação das novas tecnologias à educação depende do que o professor pode fazer com elas, diz o consultor Jarbas Barato, do Senac-SP, fazendo uma analogia com o cinema. Os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo em 1895 e o mundo ficou boquiaberto. Mas a sétima arte ficou restrita a uma curiosidade de engenharia até 1902, quando o mágico e diretor de teatro George Méliès deu origem à primeira ficção científica do cinema: o filme Viagem à Lua. "Como no cinema, a tecnologia só ganha vida e expressão na educação se houver imaginação", afirma Barato.


Essa imaginação depende de estímulo. O problema é que os novos educadores saem da maioria dos cursos normais superiores e de pedagogia com pouca ou nenhuma vivência no ambiente tecnológico ou no ensino a distância. "Os currículos continuam os mesmos e a tecnologia é só um adendo", assinala Sonia Nikitiuk, da Feuff.


Para que o professor possa realmente chegar às salas de aula com propostas atraentes aos nativos digitais, o presidente do Ipae, João Roberto Alves, sugere um recall na educação – como na indústria. "Não adianta um programa emergencial de capacitação do MEC – isso é com as universidades", entende. Para Alves, as instituições que os formaram no modo antigo precisam requalificar esses mestres, contemplando a educação a distância e presencial e o conhecimento das tecnologias e sua aplicação ao processo de ensino-aprendizagem. Só o recall, porém, não basta. "É preciso consertar o modelo com um programa para melhorar os educadores que estão formando os novos professores", prossegue.



Parte da estrutura


Os especialistas estão preocupados não apenas com a necessidade de o professor adquirir domínio técnico, mas com sua capacitação para aplicar esse instrumental de forma criativa num ambiente em que, como define Silvia Fichmann, da Escola do Futuro da USP, ele será um gerenciador de novas aprendizagens. "Se não houver essa mentalidade, veremos as novas tecnologias sendo usadas como o quadro e o giz – e a aula vai continuar expositiva", observa Sonia, da Feuff.


Maria Helena, da UFBA, concorda com as colegas e vai mais longe. Na sua opinião, o mais importante é formar os mestres para que possam empreender uma educação que atenda às necessidades do jovem e da sociedade no futuro, de acordo com o contexto. "Tanto que, na UFBA, não falamos em novas tecnologias, mas em novas educações, pois os recursos tecnológicos não são ferramenta, e sim parte da estrutura", frisa.


Fala-se tanto na emergência da qualificação do educador porque, na escola de um futuro muito próximo, caberá a ele desenvolver a autonomia dos alunos, de maneira que esses jovens cidadãos possam resolver problemas e propor soluções. "O papel do professor deverá ser o de um aprendiz especialista, que organiza e guia outros aprendizes numa comunidade de aprendizagem", conceitua Anna Christina Nascimento, do projeto Rived, do MEC.



Revolução de usos e costumes


Apesar de tanta expectativa em torno dos docentes, essa é só a ponta do iceberg. No entender de Barato, do Senac-SP, o xis da questão está em terreno mais profundo, com uma estrutura de ensino secular, distribuída em séries, em salas de aula, com tantas horas por dia, entra-e-sai de mestres e dezenas de outras características comuns a tantas gerações de estudantes. "Há um conforto administrativo para quem gere o sistema, que assim, não quer mudar", observa o consultor.
 
Ainda que os gestores da nova educação estejam prontos, onde encaixar, no esquema tradicional, um grupo empolgado com um tema, que extrapole o tempo determinado para uma atividade? Em um laboratório, os estudantes têm de guardar a motivação na mochila e seguir para a próxima aula. E os pais, preocupados com segurança, vão entender que seus filhos podem não ter horário para sair da escola, dependendo dessa empolgação? "É preciso um trabalho intenso para modificar o papel dos professores, dos alunos, dos pais e dos administradores para começar a construir novos relacionamentos e novas estruturas", resume Anna Christina.



A LIÇÃO DE CASA DO PROFESSOR


– Superar a exclusão digital e ousar incluir a tecnologia em seu dia-a-dia;
– Manter-se aberto para o novo, desapegado das coisas tradicionais;
– Ter coragem de dar um passo adiante;
– Abrir mão de seu poder de cátedra, pois, num ensino dominado pela tecnologia, sua autoridade sofre uma releitura;
– Ter disposição para o diálogo e para a interação;
– Aprender a aprender – sem competir com a tecnologia.



 
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