O preconceito é uma doença

Alunos e professores homossexuais falam sobre suas escolhas, comentam discriminação entre colegas de classe e apontam como escolas podem respeitar diferenças

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Kristhian Kaminski e Cristina Charão*

“Mas tu é tão bonitinha.” A frase, dita em tom de lamentação por uma professora, deixou a estudante Mariane da Silva Carvalho, de 16 anos, desconcertada. Ela, que cursa o 2
o

ano do ensino médio no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre (RS), acabara de contar à mãe que é homossexual, e a reação não foi nada boa. A professora tomou então a iniciativa de conversar com Mariane, que decidiu desabafar. O comentário da docente, porém, deixou a jovem ainda mais decepcionada: “Como se eu não pudesse ser bonitinha e gostar de menina”, comenta.

Se é consenso que a educação é a melhor forma para combater o preconceito e a discriminação, o que acontece quando a própria escola não sabe como – ou não quer – lidar com a questão? A escola avançou nos últimos anos na discussão de temas como discriminação racial, gravidez na adolescência e respeito a portadores do vírus HIV. Mas, quando se trata de homossexualidade no ambiente escolar, fica evidente que professores, orientadores e pais não estão preparados para lidar com o tema.

Conversando com os envolvidos na discussão, em particular os próprios homossexuais, observa-se que a vida real está ainda distante da realidade retratada pela recente novela
Mulheres Apaixonadas

, da Rede Globo, na qual duas adolescentes viviam uma história de amor perfeitamente aceita no colégio em que estudavam.

Cerca de um quarto dos estudantes ouvidos não gostaria de ter um colega de classe homossexual, constatou a mais recente e completa pesquisa sobre juventude e sexualidade, divulgada em março pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Entre os professores, a rejeição explícita à homossexualidade é bem menor, chegando a somente 2% em Porto Alegre. A rejeição dos pais, porém, caminha no sentido inverso: em Fortaleza, 48% dos entrevistados afirmaram que não gostariam que seus filhos tivessem colegas homossexuais. O levantamento da Unesco foi feito com mais de 20 mil estudantes, pais e professores (
leia mais à pág. 52

).


Em classe –

O estudante Hamilton Jorge Nessin Menezes Júnior, 16 anos, da Escola Estadual Gustavo Barroso, em São Paulo, conta que a reação de alguns colegas e da maioria dos professores à sua condição de homossexual assumido foi positiva. A diretora da escola chegou a repreender publicamente alunos que estavam fazendo piadas sobre ele e outro colega homossexual. “Ela foi muito legal, disse que não admitia nenhum tipo de discriminação em função da orientação sexual dos alunos”, lembra ele.

A reação dos pais dos colegas, porém, não foi constrangedora. “Nunca tive muito contato com os outros pais, mas, pelo que me falaram, a maioria reagiu mal quando soube. Em alguns casos, os colegas ajudaram a fazer os pais olharem pra mim de modo diferente.” Também não foi fácil para os próprios pais de Hamilton, evangélicos, aceitar a opção do filho. “Eles foram acostumando”, afirma o jovem.


Discriminação –

Hoje com 19 anos, o ator Maicon Moreira, de Minas Gerais, sofreu com a reação dos professores. Ele lembra que chegou a ser impedido de conviver com o melhor amigo porque os professores temiam que os dois estivessem tendo algum envolvimento sexual: “Não deixavam a gente estudar junto. Sempre achavam que estávamos fazendo alguma coisa errada, mas éramos apenas amigos.”

As pressões para que ele mudasse seu comportamento não pararam por aí: Moreira conta que foi encaminhado ao psicólogo do colégio apenas porque teria pintado um quadro com flores e rosas numa aula de educação artística. “Sempre tentei ser o melhor aluno da classe, para me contrapor à imagem que tinham de mim. O homossexual é sempre apontado como o ‘ruim’ na escola”, lamenta. Não adiantou, e ele acabou abandonando o colégio.

O médico e professor de biologia Alberto Elias Lopes Cançado, que está desenvolvendo uma dissertação de mestrado sobre homossexualidade, na Universidade Vale do Rio Verde (MG), diz que a falta de acolhimento, os preconceitos e a violência levaram muitos homossexuais a abandonar as escolas. Segundo ele, não é possível ter um levantamento sobre esse número, que ele acredita ser bem expressivo.

A evasão nem é a pior conseqüência da discriminação. Algumas pesquisas mostram que nem sempre o jovem consegue suportar a pressão, como fez o ator mineiro. Segundo o estudo
O Jovem e a Morte,

realizado, em 2001, pelo Instituto Paulista de Adolescência (IPA), com estudantes de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, 7% dos suicídios cometidos por jovens e adolescentes estão relacionados a conflitos com a identidade sexual.

Se o preconceito ainda predomina, há pelo menos uma boa notícia: muita gente no Brasil está empenhada em quebrar o silêncio sobre a questão da homossexualidade na escola. ONGs de várias regiões têm conseguido, por meio de parcerias com o poder público e a iniciativa privada, levar o tema para a sala de aula. A maioria dessas iniciativas parte do princípio de que é preciso preparar o professor para lidar com o tema – não de forma impositiva, mas como um conteúdo transversal a ser abordado em qualquer disciplina, conforme previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

Muitas pessoas têm dificuldade em tratar a homossexualidade sem preconceitos. No caso do professor, essa dificuldade tem de ser ainda mais trabalhada. “[
O professor

] pode vir de um ambiente de mais ou menos informação, mas vem de uma mesma matriz social, ainda muito preconceituosa”, avalia a psicóloga Maria Alves de Toledo Brum, que ministra cursos e presta consultoria sobre sexualidade para escolas públicas e privadas.

A própria instituição de ensino recebe influências da comunidade na qual está inserida. “A questão religiosa tem um peso importante e acaba se refletindo na escola. Muitos professores têm dificuldade em abordar o tema sexualidade – imagine então a homossexualidade – porque estão inseridos numa comunidade muito dogmática”, afirma Toni Reis, coordenador do projeto
Aprendendo a Viver

, de Curitiba (PR).

A falta de preparo atinge os próprios professores homossexuais. “O fato de eu ser
gay

não facilita abordar a questão na escola. Tenho um monte de amigos homossexuais que não estão preparados para falar disso”, afirma Tiago Duque, que lecionou educação religiosa durante três anos em uma escola católica de Campinas (SP). Júlia Mendes, professora em Florianópolis (SC), conta que teve problemas com uma turma que monitorava no Sesc e que tratava o tempo todo um colega homossexual com termos pejorativos: “Não consegui lidar da maneira correta com a situação.”

Júlia ministra hoje aulas para crianças de 7 a 14 anos em uma escola dentro de uma favela de Florianópolis. Ela se declarou homossexual para a família e os colegas de trabalho, mas não fala disso abertamente com os alunos, “para não ter problemas com os pais”. “É uma situação delicada. Alguns podem não gostar e procurar a escola, reclamando que estamos influenciando as crianças.”

Curiosamente, as boas iniciativas para inserir o tema homossexualidade nos currículos escolares têm sido apoiadas mais por órgãos como o Ministério da Saúde – e até mesmo o da Justiça – do que pelo próprio Ministério da Educação. “Em Curitiba, temos uma parceria com o Ministério da Saúde e isso faz sentido, dado o enfoque do programa. Mas percebo que alguns ministérios, em especial o da Saúde, vêm cobrindo lacunas deixadas pelo MEC”, afirma Toni Reis.

O próprio MEC reconhece que não possui programas específicos nessa área. “O ministério não tem um programa próprio que fale da questão da sexualidade, mas há uma orientação dentro dos Parâmetros Curriculares Nacionais para que ela seja abordada dentro das escolas”, afirma Conceição Viegas, sexóloga do Instituto de Ciências Sexológicas e Orientação Familiar, consultora do MEC para o tema. “Mas isso não acontece se os professores não têm formação para isso. Às vezes, uma pequena curiosidade do aluno torna-se um problema enorme dentro da escola.”

Para Conceição, a capacitação do professor é a única forma de “impermeabilizar” a escola ao preconceito que vem da educação familiar. “Não se pode cobrar das famílias que tenham uma postura não preconceituosa. Mas da escola sim, é preciso cobrar”, defende a especialista.

São poucas as instituições de ensino públicas que possuem algum projeto estruturado como o
Aprendendo a Viver

, de Curitiba. Ou como o projeto
Educando para a Diversidade

, desenvolvido na rede municipal de São Paulo. Ou ainda como o programa
Todo Preconceito Deve Ser Combatido

, de capacitação para coordenadores de redes municipais de Rondônia.

“O maior problema são os professores, é muito mais difícil acessá-los do que os alunos”, afirma Maria Cecília Carlini Macedo, coordenadora do projeto de orientação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “Há escolas em que apenas um ou dois [
professores

] fazem parte do projeto.”


Escolas privadas –

Entre as instituições particulares, poucas também têm projetos estruturados, como o desenvolvido pelo Colégio Bandeirantes, de São Paulo (SP). Desde 1992, os professores são capacitados por meio de uma parceria com o Instituto Kaplan – um centro de estudos sobre sexualidade. Treinados, eles ministram aulas para os alunos do colégio sobre temas variados. O site do colégio tem um
link

dedicado a tirar dúvidas dos alunos sobre sexualidade.

Maria Estela Zanini, coordenadora do projeto, aponta que “existe um preconceito muito forte, principalmente dos meninos”. Ela conta que, nos raros casos de homossexualidade revelados entre os alunos, a escola age para evitar que o jovem seja excluído do grupo.

Em relação aos professores homossexuais, Maria Estela garante que o procedimento é o mesmo. “Não podemos confundir a orientação sexual do professor com seu lado profissional”, afirma. Ela reconhece que há uma “implicância inicial dos alunos”, mas afirma que, se o professor “ganhar a sala, se for um bom profissional, logo eles deixam as brincadeiras para trás”.

Para a psicóloga Maria Alves de Toledo Brum, o problema não é apenas a falta de capacidade da escola em lidar com a homossexualidade. “Muitas escolas não têm qualquer programa de educação sexual”, afirma. “A escola entra no jogo do ‘deixa que eu deixo’, não assume, não compartilha um momento que os jovens vivem em relação à sexualidade.”

Beto de Jesus, consultor em educação sexual que coordenou a implantação do programa
Educando para a Diversidade

na rede municipal de ensino de São Paulo, resume em poucas palavras a importância de a escola estar atenta à questão: “A escola precisa ensinar, antes de tudo, o respeito à diversidade.”





*Da Agência Repórter Social, com reportagem de Lígia Ligabue, em São Paulo (SP), Eliana Raffaelli, em Porto Alegre (RS), e Márcia Maria, em Belo Horizonte (MG)



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