O preço do descaso

Sem material e profissionais especializados, bibliotecas brasileiras encontram dificuldades em formar leitores e se tornar ambiente de aprendizagem.

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A Biblioteca de Alexandria, no Egito, é o primeiro registro de local que foi além da mera armazenagem de papel e se caracterizou como centro de cultura. Mais de 200 anos antes de Cristo, sábios se reuniam ali não só para desvendar e registrar papiros, mas também para discutir e produzir mais conhecimento. No século XIII, o surgimento das universidades européias romperia o dogma criado em torno da informação nos mosteiros da Idade Média. A história das bibliotecas se entrelaça ao desenvolvimento daquilo que hoje se denomina cultura. No Brasil, foi somente em 1811, por obra da iniciativa privada, que se instalou no Recife (PE) a primeira biblioteca pública. Desapareceu poucos anos depois, sem apoio do governo.

Tem sido assim: faltam políticas públicas que priorizem a produção e a circulação do conhecimento. Com isso, as bibliotecas ou centros culturais não são incorporados à vida do cidadão, e deixam de exercer papel crucial no desenvolvimento de jovens. A tese é defendida por Luís Milanesi, diretor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Segundo ele, privilegia-se a distribuição de livros e relegam-se os espaços a um segundo plano. O Ministério da Educação (MEC) reconhece o equívoco e dá sinais de mudança, mesmo sem ter ainda políticas específicas sobre bibliotecas escolares.

“A biblioteca escolar é o patinho feio do sistema educacional brasileiro”, resume Ottaviano De Fiore, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e consultor do Instituto Brasil Leitor. Na sua avaliação, houve uma “explosão educacional” no país que não foi acompanhada pelo aumento no hábito de leitura. As bibliotecas deveriam ser a “âncora institucional” do processo.

De Fiore já esteve envolvido em programas de leitura e ações envolvendo bibliotecas, como secretário do Livro e Leitura do Ministério da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso. Para ele, a questão central para o funcionamento da biblioteca é o material humano. Já haveria, acredita, uma elite de professores com a consciência da importância do tema — agentes difundindo experiências e ações que envolvem o espaço privilegiado da biblioteca, não só para a leitura, mas como uma porta de entrada para a cultura de modo geral.

“A formação de
infoeducadores

situa-se além da biblioteconomia, bem como da ciência da informação ou da educação”, observa Edmir Perrotti, professor de pós-graduação da ECA-USP. “A repartição tradicional dos saberes não contempla necessidades científicas e profissionais surgidas com os novos contextos contemporâneos.” Para ele, existe a necessidade de formação de uma nova categoria de educadores, preparados para lidar com o exagero da informação no mundo atual.

De Fiore considera indispensável a formação de pólos de excelência em bibliotecas. Experiências bem-sucedidas ganham força e acabam se difundindo, argumenta. Atualmente, ele critica diretores que “agem como se fossem donos de uma ONG” e trabalham à margem. “É preciso ‘capturar’ os diretores ‘de vanguarda'”, recomenda. “A biblioteca é a alma do sistema escolar nos países civilizados.” A melhor maneira de atuação governamental seria o incentivo e a premiação de ações inovadoras. O intuito seria fazer dessas ações uma “vitrine”.

A Secretaria de Educação de Belo Horizonte (MG) tem privilegiado a lógica defendida por De Fiore. Em 1994, uma pesquisa deu início ao processo de reflexão que resultaria em mudanças nas bibliotecas da rede. A maioria das instalações tinha o acervo desatualizado, muitos livros didáticos e poucos de literatura, além da falta de pessoal capacitado. Desde 1997, a criação do Núcleo de Coordenação de Bibliotecas vem alterando o cenário. O trabalho começou com a escolha de 35 bibliotecas-pólo. Todas têm de ser abertas à comunidade, explica Maria Célia Pessoa Ayres Dias, coordenadora desse núcleo. Um bibliotecário se divide entre seu pólo e até seis outras bibliotecas de escolas públicas no entorno. Em visitas semanais, ele orienta os colegas, que precisam ter pelo menos o nível médio.

Outros exemplos mostram que a falta de formação específica é um empecilho tão grande quanto a escassez de livros na montagem de bibliotecas escolares, mas é possível contorná-lo. Foi o caso de Rita de Cássia Carraro Guimarães, diretora da Escola Estadual Professora Nail Franco de Mello Boni, na Vila Esperança, bairro de São Bernardo do Campo (SP) onde predominam famílias de baixa renda e favelas. A escola possuía livros encaixotados e espaço físico para manter uma biblioteca. Faltava fazê-la funcionar.

A ponte foi construída com a ajuda do Instituto Fernand Braudel, que capacitou monitores entre crianças e adultos de 5ª à 8ª séries – a escola oferece Educação de Jovens e Adultos (EJA). Alguns dos alunos saíram da escola para cursar o ensino médio. Mesmo assim, eles continuam a freqüentar a biblioteca e oferecer assistência. Por enquanto, foi utilizado um só computador, para catalogação do acervo. A instituição está pleiteando a obtenção de um leitor ótico. Atualmente, a instituição cede seu espaço para alunos de escolas públicas da região que não têm bibliotecas.

Os monitores trabalham de maneira profissionalizada, com direito a livro-ponto, além de receber acompanhamento social e pedagógico. A iniciativa ajudou a quebrar tabus na escola, afirma Rita de Cássia. Muitos pais de alunos também são estudantes no período noturno. Pesquisa iniciada em sala de aula, e que também teve auxílio da biblioteca, trabalhou a literatura de cordel. Isso deu aos pais a oportunidade de interagir e transpor barreiras em relação aos demais estudantes e aos próprios filhos, o que também se reflete na auto-estima dos estudantes. O resultado do projeto foi exposto na biblioteca.

A autonomia de gastos é muito importante para a qualidade, explica a bibliotecária Marilucia Bernardi, coordenadora do Grupo de Bibliotecas Escolares de Instituições Particulares, que surgiu, em 1997, da união entre grupos de bibliotecários em universidades. Trata-se de um núcleo voluntário que realiza encontros e fóruns para discutir problemas em comum. Marilucia é responsável pela biblioteca do Colégio Santa Maria há quase nove anos. Lá, gerencia orçamento próprio e apresenta relatórios à direção da escola. Esse modelo de atuação contribui para tornar mais ágil a atualização do acervo.

Marilucia defende também que os colégios particulares abram seus acervos ao público. A experiência no Santa Maria, segundo ela, mostra que vale a pena. O público freqüentador da comunidade é formado por 60% de alunos da rede pública e 40% de adultos moradores das redondezas. Esse último grupo vai pelo prazer de ler, principalmente romances, mas também livros de auto-ajuda e psicologia. É preciso, entretanto, administrar outros problemas, como o tamanho da biblioteca, insuficiente em relação ao crescimento da escola. Quando o espaço está lotado, a prioridade é dos alunos do colégio – que, para otimizar o aproveitamento, têm aulas sobre como utilizar o acervo.

A preservação do silêncio na biblioteca do Santa Maria conta somente com o bom senso dos visitantes. Não há placas de advertência. Seis terminais de computadores permitem acessar a internet. Outros recursos são fundamentais na composição de uma biblioteca escolar hoje, destaca Marilucia: folhetos, catálogos, fitas de videocassete, DVDs, slides, artigos de jornais digitalizados, revistas e mapas. “Isso tudo faz do espaço um centro cultural”, define. Exposições temáticas aumentam os atrativos — a biblioteca já abrigou mostras sobre Monteiro Lobato e folclore, por exemplo.

O espanhol Juan Ramos Ballester, 84 anos, um dos freqüentadores casuais da biblioteca do Santa Maria, chegou ao Brasil aos 32. Nascido em Barcelona, ele se acostumou a freqüentar bibliotecas públicas e teve sua educação interrompida, aos 17 anos, pela Guerra Civil Espanhola. Ele lutou contra o general Franco, ao lado dos republicanos. Fez cursos por correspondência e conseguiu trabalho em uma multinacional como eletricista.

Aos 21 anos, durante a II Guerra, ele foi convocado e passou três anos e meio no Norte da África. De volta, teve a chance de retomar sua função na empresa onde trabalhara, mas em 1949, casado e com um filho, passava necessidades. Na América Latina, vislumbrou a possibilidade de viver melhor. Trabalhou em várias empresas brasileiras e estudou engenharia, de novo por correspondência. Ele também é escritor de livros didáticos sobre as línguas espanhola, portuguesa e inglesa. Não os publicou ainda por dificuldades com editoras.

Na biblioteca do Santa Maria, encontrou livros de apoio, como dicionários e gramática. Ele também aprecia a leitura de romances, inclusive em inglês. Ballester garante que a leitura, para ele, é mais prazerosa do que a TV. E diverte-se com o título de “leitor do bairro” que o colégio deu a ele. Em retribuição, ele costuma doar livros. E diz que conversa casualmente com os alunos do colégio.

“Cada livro que eu abro parece que estou entrando em outro mundo”, afirma Isabelle Simões de Campos, 13 anos, estudante da 7ª série do Santa Maria, que vai à biblioteca do colégio “quase todos os dias”, mas não sabia que era aberta à comunidade. Ela afirma dedicar mais tempo à leitura do que a filmes; às vezes, lê um livro inteiro em um só dia. O hábito, segundo ela, ajuda em outras matérias.

Nas férias, além das sugestões dadas pela professora de Português, Isabelle pede outras dicas. Mas a biblioteca não é o único lugar de leitura para ela: em casa, também dispõe de acervo pessoal que inclui as coleções
Harry Potter

(de J. K. Rowling) e
Desventuras em Série

(Lemony Snicket) e o romance
Anjos e Demônios

(de Dan Brown, autor de
O Código Da Vinci

).

Aluna do 2º ano do ensino médio na Escola Estadual Ibraim Nobre, Eliane Costa dos Anjos, 17 anos, freqüenta a biblioteca do Santa Maria por indicação de uma professora de português que lecionava em ambos os colégios. Embora a Ibraim Nobre tenha biblioteca, são poucos os títulos disponíveis e nenhum funcionário para auxiliar na busca. Assim, ela costuma retirar livros no Santa Maria — chega com o título pedido por seus professores, sabe localizar no computador onde está o volume e pronto. Não faz pesquisa no acervo, não usa a Internet. E tem algum receio em pedir ajuda aos monitores.

Em algumas circunstâncias, até mesmo um carrinho de supermercado pode substituir uma biblioteca, como ocorreu na Escola Municipal Alice Bernardes Silva, em Oswaldo Cruz (SP). Ao participar de um curso de gestão oferecido pela Fundação Lemann e pelo Instituto Protagonistés, a diretora Maurícia Simões dos Santos Palácio ouviu essa idéia e, na hora, imaginou que poderia aplicá-la. As professoras da 4ª série aderiram imediatamente ao projeto, mas avaliaram que, além de livros, os alunos tinham carência de CDs, gibis e revistas.

A iniciativa deu certo: a escola tem sala de leitura e recebe livros por meio do programa
Biblioteca na Escola

, enquanto o acervo itinerante é obtido em caixas de doação na cidade. O próprio carrinho foi obtido em regime de empréstimo com um supermercado, mas a fome de comida (e de lucros) falou mais alto do que a de cultura. Em 2004, o carrinho circulou somente de agosto a outubro, pois teve de ser devolvido ao supermercado para reforçar o atendimento aos clientes no final de ano – a justificativa foi que um carrinho novo custaria R$ 350.

“Cidade pequena é complicada”, observa Maurícia. Em junho, porém, a escola conseguiu novamente o carrinho emprestado. Desta vez, as professoras esperam mantê-lo até o fim do ano letivo, em novembro. São os próprios alunos da 4ª série que controlam os empréstimos do carrinho. E, como incentivo, o acervo itinerante recebeu doação de 100 gibis da Maurício de Souza Produções.



VITRINE DIVERSIFICADA


Uma das principais necessidades da biblioteca escolar é fazer com que esteja sintonizada com a proposta da escola, acredita Maria Célia Pessoa Ayres Dias, coordenadora do Núcleo de Coordenação de Bibliotecas da Prefeitura de Belo Horizonte (MG). Cada uma das bibliotecas-pólo da rede possui um multiplicador.

A capacitação dos profissionais envolvidos no trabalho inclui professores aposentados, que costumam ser designados para as bibliotecas quando, por motivos como problemas de voz, são afastados das salas de aula. Maria Célia diz que diversas idéias foram propostas por esses profissionais — a criação, por exemplo, da estante
Vale a Pena Ler de Novo

, com os livros mais interessantes na opinião dos alunos.

Hoje, as bibliotecas escolares de Belo Horizonte têm uma Comissão de Seleção de Acervo, formada por alunos, educadores, bibliotecários, auxiliares e representantes da comunidade. Para Maria Célia, um dos motivos que afasta leitores é a falta de escolha. Por isso, a variedade é fundamental. Sua experiência demonstra que não se deve comprar mais do que quatro exemplares de um mesmo livro. “A biblioteca tem de ser uma ‘vitrine’ de obras literárias, incluindo histórias em quadrinhos, revistas de variedades e o que mais a comissão escolher”, diz Maria Célia.

Os estudantes recebem dois livros da prefeitura por ano, para uso pessoal. A próxima escolha de títulos será feita pelos próprios alunos. Também está em gestação a multiplicação de outras experiências, como a desenvolvida na favela Vila Fátima, cuja biblioteca escolar permanece aberta inclusive durante as férias, por demanda da própria comunidade.




Reportagem: Faoze Chibli


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