O poder criador da linguagem

Ela permite criar as realidades que quisermos, pois não está submetida, como nos diz Manoel de Barros, aos limites da ordem natural das coisas

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O poeta Manoel de Barros fala do tempo em que as coisas não tinham limites. Nele, tudo podia acontecer: urubus conversavam sobre auroras, pessoas viravam árvores, pedras tornavam-se rouxinóis e assim por diante. O poeta mostra acontecimentos impossíveis, como a mãe dizer à filha que ela iria parir uma árvore para que comessem goiaba nela e isso acontecer (e comeram goiaba) ou alguém desejar ser ave e ganhar o poder de alçar vôo, para revelar que não havia limites para os acontecimentos. Depois veio a ordem natural das coisas e as pedras têm que rolar seu destino de pedra para o resto dos tempos, isto é, cada coisa tem uma função no mundo e tem que exercê-la. No entanto, as palavras não foram castigadas com essa ordem natural, elas continuam, segundo o poe­ta, com seus deslimites. Nesse belo poema, o que o autor dá a conhecer é que as palavras, ou seja, a linguagem, não são um decalque do mundo, não se limitam a reproduzir a ordem natural das coisas, mas são um instrumento com que os homens podem criar realidades, imaginar universos, conceber ambientes e situações. Esse poder criador da linguagem está presente nas narrativas religiosas. Na Bíblia, conta-se que Deus cria o mundo pela linguagem: Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita (Gênese, 1,3).


No filme A Rosa Púrpura do Cairo, a protagonista, uma garçonete interpretada por Mia Farrow (à dir.), refugia-se da vida sofrida indo ao cinema: a arte mostra que outras maneiras de ser são possíveis

A linguagem não fala apenas daquilo que existe, fala do que nunca existiu. Com ela, damos existência a novos mundos, a outras realidades. Essa é a grande função da arte, que é um modo de organização da linguagem: mostrar que outras maneiras de ser são possíveis, que outros universos podem existir. O filme de Woody Allen A Rosa Púrpura do Cairo indica isso de maneira bem expressiva. Nele, conta-se a história de uma mulher que tinha um cotidiano muito sofrido e que era maltratada pelo marido. Por isso, refugia-se no cinema, para assistir a filmes de amor, onde a vida é atraente, sedutora. Um dia, o galã sai da tela e eles vão viver juntos uma série de aventuras. Nessa outra realidade, os homens são gentis, convivência não é monótona, a paixão é sempre intensa e assim por diante.


Produção de sentidos

A linguagem é a faculdade humana de produzir sentidos que servem para o homem expressar-se, interagir com os outros, armazenar informações, etc. Esses sentidos podem manifestar-se de diversas maneiras: por meio de sons, como no caso da linguagem verbal, por meio de imagens, como na pintura, por meio de gestos, como nas línguas de sinais utilizadas pelos surdos. Temos linguagens não-mistas cujos significados se expressam apenas de um modo: a escrita, a pintura, a escultura, a linguagem de sinais; temos linguagens mistas cujos sentidos se apresentam de diferentes maneiras, como o cinema, em que os sentidos são revelados pelos sons da linguagem verbal e da música, pelas imagens da linguagem visual, etc.


Início e fim

Os homens são cercados de linguagem: desde o nascer, quando as palavras carinhosas da mãe são ouvidas pelo bebê, até o morrer, quando palavras de conforto são dirigidas ao doente terminal. Do raiar do dia até o momento em que adormece, os cartazes, as conversas, o rádio, a televisão, o cinema, a internet, tudo produz sentidos, em que o homem está imerso. A linguagem tem muitas funções.

Um de seus papéis centrais é o de criar realidades que evidenciam que outros estilos de vida são possíveis, que o mundo pode ser um lugar diferente e melhor do que o que é. A linguagem tem o poder de construir sonhos, de dar existência a utopias e, assim, apoderar-se das consciên­cias e pôr em marcha mudanças. A vida humana altera-se, porque os homens são dotados de linguagem. Essas realidades idealizadas revelam os anseios, os temores, as expectativas do homem da época em que foram concebidas. Pode-se forjar uma realidade futura, como em muitos filmes de ficção científica, em que a terra é um lugar sombrio, poluído, dominado por gangues, que impõem a lei do mais forte (por exemplo, o filme Duna). Isso revela a angústia contemporânea com a destruição do meio ambiente e com a quebra das normas sociais. Podem-se construir realidades em que os computadores dominem os homens (por exemplo, o filme 2001, Uma Odisséia no Espaço), o que mostra a angústia de nosso tempo diante das aceleradas mudanças produzidas pelas novas tecnologias. Pode-se também idealizar o passado, construindo um mundo aprazível, em que tudo era melhor. Podem-se imaginar novos espaços, como a Terra Média, que aparece no Senhor dos Anéis, de Tolkien.

Com a linguagem, inventam-se personagens, que nos ensinam a conhecer melhor os seres humanos: Dona Flor, do romance Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado, aponta para o desejo presente em todos nós de conciliar o trabalho e o prazer; Falcão, do conto Anedota pecuniária, de Machado de Assis, escancara a alma de um avarento; Otelo, da peça homônima de Shakespeare, expõe o que se passa no interior do ciumento… A linguagem permite criar as realidades que quisermos, pois não está submetida, como nos diz Manoel de Barros, aos limites da ordem natural das coisas. Com ela, vamos ao início ou ao final dos tempos, transpomos todos os obstáculos do espaço, não obedecemos às coerções da realidade… Ela dá ao homem o poder, considerado divino, de produzir universos.



Retrato do artista quando coisa


O poeta Manoel de Barros: a linguagem não fala apenas daquilo que existe, fala do que nunca existiu

A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: o gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente encostava em ser ave ganhava o
poder de alçar.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam sobre auroras.
Pessoas viravam árvore.
Pedras viravam rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.
(Manoel de Barros. Retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro, Record, 1998, p. 77)



José Luiz Fiorin é professor de Lingüística na USP e autor, entre outros, dos livros Introdução à Lingüística I e II

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