O perigo da depressão

Consumismo, vida virtual e fragilidade nas relações sociais e familiares: marcas da contemporaneidade potencializam a sensação de vazio existencial da atual juventude brasileira

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Gustavo Morita
A paulistana Thais Bohn, que teve depressão na pré-adolescência: após uma excursão, quando passou muito tempo sozinha, o medo da solidão aumentou

Quando crianças, os maiores problemas com os quais Laura e Antônio (nomes fictícios) se deparavam eram os eventuais dilemas: brincar ou dormir? Passear ou tomar sorvete? A puerilidade da vida parecia tão inquebrantável que gerava neles a ilusão de que aquele estado de coisas seria para sempre. Dificuldades, se é que existiam, eram assunto para os adultos resolverem. Tempos depois, quem visse Laura na pré-adolescência de seus 13 anos de idade não mais reconheceria a menina saudável de outrora. Tornou-se um arremedo, desde que os pais decidiram mudá-la de escola, tirando-a do lugar onde estudara ao longo de toda a infância. Ela não conseguia elaborar a ideia de mudar de professores, de amigos. Tanto que, na nova escola, Laura passou a isolar-se. Com isso, passou a ser tratada como um ser à parte naquele ambiente. Ninguém lhe dirigia a palavra. Ou então era ridicularizada: a maldade coletiva não perdoava o fato de ela ser gordinha e tímida. Enquanto isso, os pais ignoravam o sofrimento dela. A mudança fora motivada pelo fato de o novo colégio ser o mesmo em que o pai de Laura estudara. Se ele se formara lá sem problemas, assim devia ser com a filha. Os problemas emocionais a levaram a engordar ainda mais. Em casa, Laura só dormia ou assistia à TV. Retraiu-se de forma radical. Tornou-se monossilábica. No primeiro ano do tratamento psi-quiátrico, mal falava com a médica.


No caso de Antônio, 16 anos – jovem inteligente, de boas notas – não foi ele que mudou de escola, mas sim os amigos de sua turma, incluindo uma amiga de quem era especialmente próximo. Antônio não demorou a perceber que o distanciamento físico o faria perder contato com ela, e a tranquilidade com que ela fez novos amigos na nova escola, conforme ele descobriu, só acentuou a sensação dele de ter sido abandonado. Tornou-se irritadiço em casa, brigando por qualquer motivo – ou por motivo nenhum. Sucumbiu a uma apatia tão profunda que não tinha energias sequer para levantar da cama. Parou de ir à escola, onde frequentava o primeiro ano do ensino médio. Mais do que perder o ano letivo, perdeu o ânimo pela vida, chegando a flertar perigosamente com a ideação suicida. Felizmente, não chegou a levá-la a cabo. Mas fato é que os suicídios de adolescentes no país não são casos de exceção. Em 2011, segundo dados do Ministério da Saúde, 552 jovens entre 10 e 19 anos de idade abreviaram a própria vida.


Os casos de depressão e de outros transtornos psicológicos entre jovens só crescem, espelhando a própria evolução dos novos diagnósticos. Se há décadas muitos dos distúrbios de ordem mental eram pouco conhecidos, hoje as classificações são cada vez mais detalhadas. Termos clínicos – bipolaridade, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), estresse, ansiedade, déficit de atenção, crise do pânico, fobias – já integram o repertório vocabular comum. Mas compreender a depressão na adolescência é uma tarefa complexa porque, além de características como mau humor e tristeza serem inatas à idade, o que dificulta o diagnóstico diferencial, o jovem deprimido não necessariamente é apático: pode apresentar o comportamento contrário, de agitação psicomotora. Os casos de Laura e Antônio só evidenciam o fato de que a atual juventude está muito mais vulnerável a problemas emocionais diante de dificuldades aparentemente banais, se comparada a gerações anteriores: eles não foram, nem serão, os únicos jovens a ter de trocar de escola ou de colegas. Então, o que mudou?


Pais & filhos
Historicamente, lembra o psicanalista Rinaldo Voltolini, há um marco importante desse processo, na passagem dos anos 70 para 80, quando surge uma forte crítica social e que impacta a educação (institucional e familiar): a crítica ao autoritarismo, que impediria o ser humano de se desenvolver plenamente. A origem desse movimento é política, de cunho marxista, como reação à ditadura militar vigente. “A educação compra essa ideia e faz uma crítica de tudo que é prática ditatorial no interior das escolas e, por tabela, no interior dos lares. Politicamente, cresce uma série de direitos à proteção da criança e do adolescente”, diz Voltolini. Assim, aquela cultura que se tinha de aplicar a “palmadinha” como punição corretiva na criança passou a ser vista socialmente como condenável. Nessa esteira, foram se atenuando as atitudes repreensivas e a imposição de limites por parte dos pais.


Fala-se muito, hoje, em uma maior ausência da participação deles na vida dos filhos, como decorrência das exigências profissionais que suas carreiras demandam – sintomaticamente, fora uma babá a principal responsável pela criação de Laura. “Muitas vezes isso gera culpa. Para lidar com essa culpa, eles acabam sendo mais permissivos, oferecendo coisas que, em outras circunstâncias, talvez não oferecessem”, diz a psicoterapeuta familiar Natércia Tiba. Também há o aspecto de que a sociedade atual, na comparação com sociedades anteriores, é muito mais “ofertadora”. Se antes uma criança ganhava um presente no aniversário e outro no Natal, hoje ganha vários a cada final de semana. “Se você tem tudo, nada mais te apaixona. A paixão depende da falta. Para a psicanálise, o que organiza o ser humano é que algo falte”, explica Voltolini. Sintomático da nocividade dessa hiperoferta seria o fato de a depressão ser muito mais recorrente em adolescentes de classes socioeconômicas mais altas do que em baixas.


Outra característica da cultura ocidental contemporânea seria a busca dos adultos em manterem-se jovens, evocando o lema da eterna juventude. Isso instauraria um problema retroativo: é a figura do adulto que pressiona o jovem a sair da adolescência em direção à maturidade. Se esse adulto está buscando a juventude, essa pressão perde o sentido. O reflexo disso é a tentativa, muitas vezes frustrada, de tentar apagar as distâncias geracionais, como a atitude liberal de certos adultos em fazer com que os adolescentes mantenham relações sexuais em casa. Esse esforço em se apresentar aos filhos no nível da amizade acaba se revelando uma perda de referência, fazendo com que o jovem compreenda isso como desamparo, não como liberdade.






Bel Pedrosa
Johanna Beringer, de Niterói (RJ), hoje com 19 anos: diagnósticos de TDA e hiperatividade acompanharam o da depressão


Onipotência em fuga
Com tudo isso, o instinto de sobrevivência juvenil, no sentido de se adaptar às novas circunstâncias e às dificuldades que cruzam o seu caminho, parece ficar cada vez mais frágil. Daí o comportamento – ainda que talvez inconsciente – de se vitimizar. A origem está atrelada à noção de onipotência que o jovem traz da infância: a criança consegue facilmente com que suas vontades sejam atendidas. Quando essa blindagem some na adolescência, há o choque de realidade de que a “vida real” é bem diferente. A necessidade de um comprometimento em algum tipo de atividade pode levar os jovens à apatia, como se a expectativa depositada neles por um desempenho, por resultados, ao contrário de estimulá-los, os intimidasse. A própria banalização no uso de psicotrópicos – não só na faixa etária dos jovens, mas das pessoas em geral – tem a ver com essa comodidade. Por que permanecer em um estado depressivo, se um remédio pode (supostamente) resolver o problema? Opta-se pelo caminho mais fácil, sem se investigar o problema em uma perspectiva mais ampla.


Os especialistas se dividem quanto ao uso de antidepressivos na faixa etária dos jovens porque, na adolescência, na maioria das vezes não são casos de depressão endógena (a depressão inata, ocasionada por disfunções da tireoide), mas reativa a algum episódio (desentendimento com pais, fim de namoro, bullying, etc.). Neste caso, é preciso aguardar um certo tempo para que o adolescente faça a digestão emocional do que aconteceu e, assim, concluir se haverá a necessidade de se medicar, porque a diferenciação de uma fase “normal” de tristeza para um quadro patológico é bastante tênue. Vale registrar que, guardadas as devidas especificidades de cada receita, os antidepressivos em geral legam a apatia como um efeito colateral significativo, além da baixa da libido.


Também o efeito pode ser “de rebote”, ou seja, se mostrar ao contrário do esperado, em função de uma não assimilação pelo organismo. Voltolini lembra que há vários processos nos Estados Unidos contra o produtor do Prozac (mais famoso psicotrópico de mercado), porque houve pessoas que tomaram, aprofundaram a depressão e se suicidaram. O psiquiatra e psicoterapeuta Tito Paes de Barros Filho, por sua vez, diz que não deixaria de medicar só por causa da juventude de um eventual paciente. “Um primeiro episódio depressivo não tratado geralmente emite sintomas residuais”, justifica. O principal deles seria a anedonia, caracterizada pela perda de prazer em coisas que normalmente entusiasmam a pessoa. Seja como for, o consenso é de que, como primeiro passo em um caso de desvio comportamental acentuado, busque-se auxílio na psicoterapia – a partir dali, define-se o encaminhamento ou não a um tratamento medicamentoso.


Sombras virtuais
Outro elemento da modernidade que não pode ser ignorado quando se analisa o processo de transformação do jovem é o impacto da internet na vida cotidiana. Voltolini considera que, para um tímido, a web pode ser uma via para iniciar um contato que, de outro modo, ele não conseguiria. Para ele, o que a era das redes sociais mais estimula seria uma “espetacularização de si mesmo”. A psicanálise já discute o que tem sido batizado como Transtorno de Personalidade Narcisista. Como apontou o psicanalista Contardo Calligaris em uma coluna no jornal Folha de S.Paulo, o “neonarcisista”, no caso, não seria o sujeito apaixonado pela própria imagem, mas que a usa para obter a aprovação do outro. A pessoa atribui a si uma importância despropositada, em busca da admiração alheia. O transtorno pode se dar como uma reação de quem teve a autoestima abalada (uma rejeição amorosa, por exemplo), de modo que a pessoa passa a projetar uma imagem idealizada de si mesma. Seria uma máscara que, no fundo, camufla o verdadeiro sentimento de não se gostar.


O anonimato com que o jovem pode acessar na internet determinados tipos de conteúdos e informações também é potencialmente perigoso para o desenvolvimento de quadros de fobia social ou de comportamentos inadequados. Houve o caso de um adolescente gaúcho, em 2006, Vinicius Gageiro Marques, que se suicidou em casa, tendo planejado em detalhes o passo a passo de como realizaria o intento. Para tal, escorou-se em sites anônimos que falam no tema – muitos dos quais evocam ideias românticas sobre a morte. Vinicius, que na internet usava o pseudônimo Yoñlu, chegou a anunciar nos fóruns dos quais participava a data e a hora em que se mataria – sem ser dissuadido a isso – enquanto, na “vida real”, simulava para os pais uma normalidade que não existia.


A dor da existência
Antecedentes de depressão ou suicídio na árvore genealógica também precisam ser observados, em função da perspectiva de uma herança hereditária do problema. Além disso, o fato de a adolescência ser um período de grandes transformações no corpo, com impactos hormonais e neurológicos, acentua a possibilidade de a depressão aparecer associada a quadros de ansiedade – as chamadas comorbidades – que tornam os comportamentos imprevisíveis. Pode ser o caso da depressão bipolar, que em uma pessoa é precedida por uma fase de aceleração do psiquismo – ela mostra um comportamento de alta agitação – até tornar-se apática e sem energia. Por isso, os sintomas para os mesmos problemas podem ser opostos em casos similares: ganho ou perda de peso/apetite, insônia ou sono excessivo, etc.


Hiperatividade
A niteroiense Johanna Beringer, hoje com 19 anos, personifica bem o caso de comorbidades. Ela conta que, desde muito pequena, ia para a escola determinada a ficar quieta, a prestar atenção na aula. “Lembro direitinho de como eu ficava triste comigo mesma por não conseguir”, conta. A necessidade que sentia de se mexer era fora de controle. Acostumou-se a ver as pessoas um tanto estarrecidas diante de suas demonstrações de energia, como na ocasião em que começou a dançar dentro de um ônibus quase cheio. Mesmo em casa, sozinha, às vezes se pega pulando até cansar. Na escola, vivia sendo mandada à diretoria, porque não parava na carteira e falava demais, e alto. Quando conseguia permanecer em sala, se distraía com qualquer coisa. Em uma aula de matemática, uma colega lhe cochichou sobre o colar da professora, que parecia feito de baratas. Para Johanna, a aula acabou ali: “comecei a imaginar todas as bijuterias que teriam a ver com insetos”. No dia em que fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ao ver a vizinha de fileira comendo chocolate, divagava: “será que ela come todo dia? Por que está magra?”. Deixou quase metade da prova em branco.


Johanna sempre desconfiou ter algum tipo de problema, que se confirmou depois de ir ao neurologista: foi diagnosticada com o transtorno de déficit de atenção (TDA) e hiperatividade. A surpresa foi que no mesmo diagnóstico constatou-se também que ela tinha depressão, que seria uma comorbidade do TDA, ou seja, um distúrbio etiologicamente associado. Desde então, Johanna passou a questionar se a extroversão, que sempre a caracterizou, seria forçada pela hiperatividade e, portanto, uma máscara para tentar esconder o que realmente sente. “Será que é para tentar encobrir essa falta de alguma coisa que eu não sei o que é? Será que é para as pessoas me aceitarem? Será que é para chamar a atenção? Não sei”, ela diz, em um esforço de autoanálise. Conta que sempre sentiu a necessidade de fazer as pessoas rirem, mas com frequência também é tomada pelo sentimento paradoxal de querer evitar essas trocas sociais, “de contar meus problemas e fazer a pessoa contar os dela. Fico pensando por que tenho de fazer isso”. Mas ela mesma conclui: “se eu não fizer, vou ficar sozinha”.


Solidão inesperada
Já a paulistana Thais Bohn, hoje uma pós-adolescente de 23 anos, viu seu desempenho escolar cair quando cursava o ensino médio ao ser acometida por questões existenciais. Ela sempre fora
sociável e expansiva. Tudo começou a mudar quando viajou ao Pantanal (MT) em uma excursão do colégio, em que passou muito tempo sozinha, “no meio do nada”. O episódio agravou o medo da solidão. “Sabe aquele ditado ‘cabeça vazia, oficina do diabo’? Minha cabeça é assim: quando está vazia, é uma fonte para pensamentos ruins”, define. Apesar de ela nunca ter perdido um amigo ou parente próximo, questões sobre o sentido da vida ou o que acontece depois da morte passaram a atormentá-la. As crises de choro se tornaram frequentes. Sua personalidade mudou. Se na 8ª série Thais chegou a ser oradora da turma, ela diz que, ao se lembrar disso, não mais se reconhece. “Depois dessa fase – e hoje em dia já não enxergo como fase porque não passou – a coisa piorou, virei completamente outra pessoa”, ela diz. “Eu adorava ir a balada, a bar, a shopping, e hoje em dia não faço nada disso.”


Tolerância e encaminhamento
É natural que o papel da escola fique evidenciado diante das questões adolescentes, uma vez que grande parte da vida do jovem, especialmente o de classe média, se desenvolve dentro dela. Mas a escola parece não conseguir acompanhar essa mudança de perfil da juventude contemporânea, hoje muito mais complexa. Para Marina Nunes, professora de orientação educacional do colégio Santa Cruz, de São Paulo, está no pressuposto da docência a perspectiva da heterogeneidade em sala. Por isso, é papel do professor fazer um primeiro acolhimento de um estudante que apresente algum claro desvio comportamental. “Cabe uma compreensão do caso, para se ter uma tolerância maior, eventualmente. Mas essa tolerância também não pode fazer com que se perca a dinâmica da classe”, explica. O encaminhamento de alunos à esfera de outros profissionais, quando necessário, não tem a ver com um sentido de alheamento ou indiferença do professor, defende a pedagoga Silvana Leporace, do colégio Dante Alighieri, também em São Paulo. Não só pelo fato de não caber ao professor especular qualquer tipo de diagnóstico sobre o aluno que esteja com problemas. “Às vezes o estudante demanda um trabalho maior, uma ajuda individualizada.”


É saudável a maior aproximação dos professores com pais de alunos em situações específicas, mas com parcimônia, para que não haja uma confusão de papéis: o professor pode se sentir pressionado – e, na escola, é dele, e não dos pais, a definição de como devem se dar as relações e os procedimentos. Isso não anula a premissa de que a formação e a requalificação do docente de ensino médio precisam ser repensadas no sentido de irem além das credenciais curriculares. Se na formação do professor de educação infantil todo um embasamento referente à psicologia e ao universo da criança é contemplado, o mesmo não acontece com o professor de segundo grau que, muitas vezes, é um expert no que tange à didática e ao conhecimento técnico de sua área, mas não conhece as particularidades da cabeça adolescente. Muitas vezes esses subsídios sobre o desenvolvimento do jovem precisam ser buscados de forma autodidata, como compensação às lacunas da formação institucional. Também é papel do professor cuidar das relações em sala de aula para evitar situações de exclusão: atentar à maneira como os alunos se organizam em grupos, para que ninguém seja segregado.


Mais: se vivemos em uma sociedade consumista e hedonista, voltada para o prazer e focada no presente, também a leitura da escola como espaço de legitimação social entra em xeque. Voltolini lembra que o cerne da educação é direcionar para o futuro: a aprendizagem não é para o gozo imediato. Daí a postura comum dos jovens em reclamar do sentido somente utilitário, e não social, do conhecimento escolar. É nessa esteira que surgem os questionamentos de um aspirante a medicina, por exemplo, quanto à necessidade de estudar história ou geografia. Em entrevistas recentes, Thor Batista, 20 anos, filho do empresário Eike Batista, disse ter lido um único livro na vida – exatamente a autobiografia de Eike.


Alunos digitais, professores analógicos
Não por acaso que o ensino médio seja a etapa da educação formal no Brasil mais problemática. Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no início do ano mostrou que o índice de evasão de secundaristas nos estados mais ricos beira 50%; nos estados do Norte, ultrapassa 60%. Tanto há consenso sobre o fato de que a escola atual já não atende mais às características do jovem que há no ensino médio uma (tentativa de) reforma em curso: uma série de novas diretrizes foram homologadas no início do ano pelo Ministério da Educação (MEC), contemplando uma maior autonomia curricular e a interdisciplinaridade como formas de buscar uma escola mais atraente e motivadora. Mozart Neves Ramos, conselheiro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), que participou da elaboração da proposta, sintetiza o problema: “temos a escola do século 19, o professor do século 20 e o aluno do século 21. Essa é a trilogia que temos de resolver”.


Os especialistas, no entanto, refutam a ideia de que as eventuais inadequações do jovem na escola tenham relação direta com o modelo pedagógico. O pressuposto da educação, afinal, precisa ser preservado: de o professor transmitir um legado cultural que o estudante vai metabolizar para transformar em outra coisa no futuro. Há o temor de que a recorrência a recursos animados, aulas performáticas e outras inovações, na tentativa de se sintonizar com a realidade do jovem moderno, comprometam a profundidade do ensino. O desafio é o de achar soluções para que o estudante consiga manter um foco duradouro em aula. Sabe-se que os portadores de déficit de atenção, como Johanna, precisam se esforçar mais do que a média. Por outro lado, tendem a ter um senso criativo mais aguçado. Tanto que ela sempre se destacou nas aulas que demandavam atividades mais dinâmicas, como de vídeo, roteiro, audiovisual. Hoje, ela é universitária em faculdade de comunicação. Senta na primeira fileira e grava as aulas.


Novas diretrizes
Mais do que o modelo, a escola precisaria repensar prioridades, na opinião de Thais Bohn. Para ela, a adolescência é uma fase árdua, que demanda um tipo de acompanhamento de “como quando as pessoas voltam da guerra”. “Quantas aulas eu tive de educação sexual, em que a gente pegou a banana para pôr a camisinha!”, ironiza. Foi pela própria iniciativa que conseguiu ajuda na escola, junto a professores, orientadores, para aliviar suas crises depressivas. “Se eu fosse uma pessoa que não falava nada, não teria conseguido. Acho que esse assessoramento não deveria acontecer só em casos excepcionais.” Thais sugere que a escola disponha de canais de escuta ao jovem, talvez com uma equipe de psicólogos, para um respaldo maior. Mas acha que o problema não é tanto da educação institucional, e sim familiar. “Não entendo como tem pai e mãe que acham ok levar o filho de 7 ou 8 anos no nutricionista porque está gordinho, mas não levam em um terapeuta. Talvez o problema não esteja só na comida”, especula. Em tempo: Laura, a menina da abertura, recuperou-se. Está magra.







Cena do filme Norwegian Wood, que deu vida ao livro de Haruki Murakami
Um lugar no mundo
As representações da angústia adolescente na literatura


Muitos dos chamados “romances de formação”, que têm como premissa acompanhar o crescimento e o consequente desenvolvimento social (e emocional) de seus jovens personagens, transformaram-se em clássicos da literatura mundial. Dois deles merecem menção pela maneira com que conseguiram captar a essência da sensibilidade juvenil: O Apanhador no Campo de Centeio, do americano J. D. Salinger, e Norwegian Wood, do japonês Haruki Murakami. O segundo, lançado em 1987, chegou a ser bastante comparado ao primeiro, publicado em 1951. Em comum, as narrativas que se desenvolvem pela perspectiva de seus protagonistas, ambos estudantes secundaristas que vivem em internato. Mas as semelhanças param por aí. Se na obra de Salinger o personagem-narrador Holden Caufield é um adolescente de tendências depressivas – não à toa ele sempre ficou associado aos losers (derrotados) na cultura americana – no livro de Murakami o personagem Toru Watanabe forja sua renitência explorando a premissa de “cair e levantar”. O pessimismo de O Apanhador no Campo de Centeio espelha a situação de seu personagem: ao tomar conhecimento de sua reprovação no colégio, Caufield perambula pela cidade, adiando a volta para casa, pois teme a reação dos pais. A sensação de deslocamento é acentuada pela maneira com que ele tenta mascarar sua covardia e falta de ambição culpando os outros: aos olhos dele, todos são cretinos, à exceção da irmãzinha Phoebe. Norwegian Wood, por sua vez, testa a capacidade de Toru em não sucumbir às tragédias do entorno. Depois que o melhor amigo se mata, ele acaba se aproximando de Naoko, a ex-namorada do suicida. Com ela, faz uma espécie de “pacto velado” para superarem o luto e seguirem em frente. Entre obrigações escolares, affaires e tormentos, Toru tateia no escuro sua iniciação à vida adulta, saindo com muitas escoriações – mas que só fortalecem sua personalidade.

Manual polêmico
Especialistas recuam em definições de diagnósticos para guia da área psiquiátrica


As controvérsias no processo de reedição do mais influente livro de referência de psiquiatria no mundo continuam. No mês de maio, os médicos do painel de revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria (APA), voltaram atrás em relação a duas propostas que ajudariam a expandir o número de pessoas diagnosticadas com transtornos psicóticos ou depressivos. Os especialistas concluíram que a “síndrome de psicose atenuada”, cujo objetivo é identificar pessoas com risco de desenvolver psicose, e o “transtorno misto ansioso e depressivo”, um híbrido dos dois problemas, não são apoiados em evidências científicas. Eles também ajustaram sua proposta de definição da depressão para diminuir o temor de que a tristeza normal das pessoas – decorrente de experiências como a perda de um ente querido, emprego ou casamento – não seja confundida com um distúrbio mental. A quinta edição do DSM, que funciona como um guia para tratamento e cobertura das doenças psiquiátricas por planos de saúde, continua em revisão até o fim do ano e deve ser lançada em maio de 2013.

Leia mais: Crianças e jovens que sofrem com a ideia de afastamento da figura familiar podem desenvolver fobia escolar

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