O pequeno Nicolau e a cultura escolar

Os personagens de Goscinny e Sempé nos ensinam muito sobre psicologia da infância. Leia mais na coluna de José Sérgio Fonseca de Carvalho

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O pequeno Nicolau

Crédito: Divulgação

Foi através das aventuras de Asterix e Obelix, os gauleses insubmissos que desafiavam e sempre venciam os exércitos romanos, que Goscinny tornou-se conhecido no Brasil. Suas histórias em quadrinhos, ilustradas por Uderzo, diferiam substancialmente dos comics norte-americanos mais populares como os da Disney. Elas eram igualmente divertidas, mas com enredos bem mais desafiadores e inteligentes. Em uma época que desconhecia os limites do “politicamente correto”, a dupla – na melhor tradição do sarcasmo francês – abusava dos estereótipos europeus e ridicularizava tudo e todos, inclusive os próprios franceses. Mas a fecundidade da obra de Goscinny transcende as histórias de Asterix.

Uma década depois de sua publicação no Brasil, algumas histórias de O pequeno Nicolau – outra de suas geniais criações – também foram traduzidas, embora jamais tenham atingido a mesma popularidade dos heróis gauleses. É uma pena. Nelas, Goscinny e o ilustrador Jean-Jacques Sempé descrevem com acuidade e bom humor o universo infantil de Nicolau e de seus companheiros — suas relações sempre conflituosas com os adultos (pais, professores, comerciantes) e seus confrontos com as normas, as práticas e os valores escolares. Embora ambientado em um contexto muito específico (a escola urbana francesa dos anos 50), essas narrativas nos comovem e nos divertem ainda hoje porque evocam nossas experiências como crianças, alunos ou professores.

Pelo olhar singelo tão ingênuo quanto astuto de Nicolau, cenas e personagens característicos da cultura escolar irrompem de forma caricatural e elucidativa. Seus pequenos amigos vivem em um conflito sem fim com os adultos — a professora, o diretor ou o inspetor de alunos —, cujas ordens e instruções são sempre interpretadas a partir de uma lógica lúdica que desencadeia brincadeiras que viram brigas e que se resolvem no instante seguinte. Entre seus colegas reconhecemos alguns tipos escolares comuns a vários tempos e espaços, como personagens recorrentes à espera de um ator que os encarne: o queridinho da professora odiado e invejado pelos colegas (Agnan), o fortão que vive ameaçando a todos (Eudes), o gordinho em cujas mãos sempre há croissants, pão ou restos de manteiga (Alceste), o mimado pelo pai que adora exibir seus presentes (Geofroy).

Em um tempo no qual inevitáveis desavenças entre alunos são concebidas como gérmens da violência, em que o humor cruel do universo infantil virou bullying, deveríamos voltar a ler as aventuras do Pequeno Nicolau. Elas nos ensinam mais psicologia da infância do que muitos manuais pedagógicos. Desvelam estigmatizações com mais precisão do que certos tratados sociológicos. Mas, sobretudo, devemos lê-las porque as narrativas de Goscinny despertam empatia pelo universo social infantil e nos alertam sobre o conflito (tão insuperável como formativo) entre os ideais da forma escolar como modo de socialização e a infância moderna. Quem sabe se, além de nos divertir, a turma de Nicolau não nos ajuda a reencontrar o encanto de educar esses pequenos gauleses selvagens que são nossos adoráveis alunos?

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