O pai do Watson

“Os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.” Leia aqui mais um texto do educador português José Pacheco

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Muitos velhos (velhos de qualquer idade) estão possuídos pelo medo de pensar. Consomem o parco tempo de passagem a repetir o que outros velhos de qualquer idade pensaram, crendo serem suas as ideias, sem saber que as ideias são de todos e de ninguém. Os velhos que são mesmo velhos não percebem que, quando lhes ocorre um mesmo pensamento, ele já não é o mesmo que pensaram. Quando voltam a pensar, já é outro avô que pensa. Como o pássaro que regressa do breve voo e já não o mesmo pássaro da partida.



As ideias velhas envelhecem, tal como os homens. Outras geram novas ideias. Os novos (de qualquer idade) são novos porque são animados por novas ideias. Das que já não nos pertencem (se alguma vez nos pertenceram) e daquelas que nem sequer chegaremos a pensar. Por essa razão, os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.




É exemplar a história do miúdo que pergunta ao pai se sempre é verdade que os pais sabem mais que os filhos.







– Claro!


– respondeu o pai, prontamente –
Poderia lá ser de outra maneira! Os pais sabem sempre mais que os seus filhos.







O pimpolho não se deu por satisfeito e rematou:






– Então, paizinho, quem inventou a máquina a vapor? Foi o Watson, ou foi o pai do Watson?






Como para cada facto ou realidade existe um seu oposto – ou complemento, pois nada sei das orientais filosofias – trago à colação
uma história em contraponto, achada num recanto da memória.




Certo dia, estava eu descascando ervilhas – óptimo entretém, ao que dizem, propiciador de meditação. Flutuei por instantes acima da miséria dos dias e das suas inefáveis consumições. E eis que troco as bacias: a casca vai para a bacia das vitualhas destinadas à panela, as ervilhas para o saco do lixo… Despertei da búdica meditação ao som das estridentes gargalhadas do meu filho, que me vinha acompanhando na função, e observou o erro de manobra. Comentei:




– Olha que engraçado! Enganei-me no destino!




Profunda reflexão de que não me apercebera não fora o meu filho – que sempre soube mais das coisas e das pessoas do que o pai – gargalhar mais uma vez.




– Por que te ris, André? – inquiri.





– Porque disseste que te enganaste no destino.





E não é que o maroto do miúdo tinha razão? Intuíra o significado da expressão muito para além do comezinho engano do destino da ervilha. Foi bem mais fundo na reflexão, provando a supremacia do saber de um filho sobre o do seu progenitor.



Na verdade, eu sempre me enganei no destino. Porque, se é de pequenino que permitimos que no-lo torçam, também será verdadeiro o aforismo (que agora me apeteceu inventar) que diz que o destino também se pode distorcer. E para o distorcer basta pensar de modo novo. Libertar as ideias afaga o pensamento e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. A receita é interrogar o mundo, ininterruptamente, desprendidamente. Vê-lo em cada manhã, como se fora o primeiro homem perante todas as cores da primeira madrugada.



Não fora o não-exemplo do meu avô (talvez um dia conte.), eu acabaria electricista, como estava escrito no meu retorcido destino de criança. E muitos outros seres também não se deixaram pensar. Como aquele jovem que escutei num programa de rádio. Até quase ao fim dos seus estudos para entrar na faculdade, sempre tinha obtido boas notas. Iria, sem entusiasmo mas resolutamente, ser médico ou arquitecto. Durante a sua juventude abominara tudo o que fosse música erudita. Odiava ópera. Até que, no dia do seu aniversário, alguém, à revelia de pais e avós cultores da tradição da música fácil, lhe ofereceu um CD com árias cantadas pela Maria Calas. Confessava o jovem aos microfones da rádio que atirara o disco para um canto. Até que, um dia.



O entrevistador concluiu a conversa, referindo que o jovem entrevistado havia ganho o concurso de canto Maria Tody, um dos mais prestigiados concursos do género no nosso país. Quis saber o entrevistador o porquê da radical transformação. Respondeu o jovem:





 
– A sementinha estava aqui dentro. Só foi preciso deitar água e cuidar dela.





Para não sufocar a
sementinha

numa torrente de pensamentos repensados, para não correr o risco de a fazer apodrecer precocemente, preservo o Marcos de presunçosas sapiências de avô. Impeço-me de determinar, do alto dos meus cabelos brancos, os seus desejos e necessidades. A primeira das regras é não tentar ensinar aos netos aquilo que se pensa que eles precisam saber. A segunda, procurar aprender o que eles são, no que pensam e para além do que pensamos que eles hão-de pensar.






Os tempos são outros. Só






os avós com certezas absolutas ainda não entenderam.




Leia também os outros textos publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:




O Senhor Carlos





A divisão das orações




Bem pelo contrário!…




A caixinha dos segredos




O padre, o poeta e a professora de francês




Para os filhos dos filhos dos nossos filhos




Tempus fugit



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