O negócio é fazer o bem

Empreendedorismo social ganha espaço no universo acadêmico, estimulando atividades de pesquisa e a formação de profissionais para o setor

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Construído sobre uma área de várzea do rio Tietê, o Jardim Pantanal ganhou notoriedade nos últimos anos por uma infeliz notícia. Em 2011, a área passou 12 dias debaixo d’água depois que fortes chuvas causaram o transbordamento do rio. A triste situação dos moradores sensibilizou toda a cidade, mas não serviu para resolver a falta de infraestrutura que afeta o local. Entra ano sai ano, a região continua sofrendo com o problema das enchentes.

O bairro está localizado no extremo leste de São Paulo e, a exemplo de tantos outros da capital paulista, cresceu de forma desordenada. Muitas de suas casas foram erguidas sem planejamento e aderência a padrões mínimos de qualidade. Insatisfeito com essa realidade, Matheus Cardoso decidiu estudar engenharia para aprender a transformar cômodos mal-iluminados, malventilados e com problemas de infiltração em ambientes mais agradáveis.

A motivação inicial era melhorar a qualidade de vida de sua família, mas logo o estudante do Mackenzie percebeu que poderia beneficiar toda a comunidade. Assim nasceu o Moradigna. A empresa de reformas de baixo custo começou em 2015 fazendo cinco obras por mês e hoje executa 30. Desde então, já faturou mais de R$ 1 milhão. Em média, cada obra custa entre R$ 4 mil e R$ 5 mil. Ela é concluída em cinco dias, aproximadamente, e pode ser paga em até 12 vezes.

O segredo do negócio está no tripé planejamento, mão de obra capacitada e parceria com fornecedores. Por meio desta última, o Moradigna consegue negociar preços melhores para a compra de material de construção, além de condições facilitadas de pagamento. O acordo com as empresas também permite a qualificação da mão de obra, que passa por treinamentos oferecidos pelas fabricantes. Por fim, a boa gestão garante a conclusão da reforma no prazo combinado, sem desperdício de materiais. “Uma obra mal planejada pode sair até 40% mais cara”, detalha Cardoso.
Por ter como objetivo resolver um problema social, e não simplesmente gerar lucro, o Moradigna é considerado um negócio social. O conceito é relativamente novo no país, mas está atraindo cada vez mais a atenção de professores e gestores educacionais interessados em formar mais empreendedores como Matheus Cardoso, além de estimular a produção de pesquisas sobre o tema e atender às expectativas de uma geração de alunos que busca outras formas de se relacionar, trabalhar e produzir.

Foi esse último aspecto que incentivou Jan Diniz, responsável pela pesquisa, extensão e inovação do Centro Universitário Newton Paiva, de Minas Gerais, a fechar parceria com a Yunus Negócios Sociais Brasil. Ligada ao Prêmio Nobel Muhammad Yunus, a empresa tem como meta fortalecer os negócios sociais e um dos meios que utiliza para alcançá-la é se associando a escolas e instituições de ensino superior. Também conta com uma aceleradora de negócios e um fundo de investimentos, entre outras ações. “Desde que passamos a nos posicionar como um parceiro dos nossos alunos, colocando-os no centro do processo educacional, começamos a notar um crescente interesse pelo empreendedorismo e, em particular, pelo empreendedorismo social”, conta Diniz.
A atração que os programas de extensão exercem sobre os estudantes é uma evidência desse interesse. “Em todas as áreas, nosso relacionamento com a comunidade é muito intenso. No Dia da Ação Social, evento promovido anualmente, fizemos mais de 2,2 mil atendimentos, de consultas jurídicas e procedimentos estéticos. Nossos alunos têm ânsia de resolver os problemas de Belo Horizonte”, afirma. O tema do empreendedorismo social será trabalhado a partir de 2017, quando a Yunus capacitará um grupo de estudantes selecionados pela instituição. Uma vez formados, eles receberão a missão de disseminar o conceito por meio de palestras, workshops e demais eventos. “Nesse primeiro momento, o objetivo é fazer as pessoas compreenderem o que são negócios sociais”, explica.

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A Faculdade de Engenharia de Sorocaba (Facens), que integra o mesmo grupo do qual a Newton Paiva faz parte, também se associou à Yunus e, de forma semelhante, trabalhará primeiro a sensibilização dos alunos – especialmente dos calouros que vão chegar em 2017 – por meio de palestras, apresentação de casos e discussões. De acordo com Raquel Barbosa, consultora da instituição localizada no interior paulista, a decisão de incentivar os alunos a considerarem os negócios sociais como uma alternativa profissional aconteceu praticamente de forma natural. “Não temos fins lucrativos e focamos a formação de engenheiros cidadãos”, ressalta.

Há dez anos, a faculdade promove um concurso de projetos sociais em que seleciona os melhores para dar consultoria e fazê-los crescer. Em 2016, a instituição também criou o Engenhando para o Bem, cuja finalidade é envolver alunos e professores em projetos de engenharia que beneficiem a comunidade. Por fim, a Facens já trabalha o empreendedorismo por meio de disciplinas e atividades práticas.

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Alguns passos adiante
A Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) está alguns passos à frente das instituições que estão começando a trabalhar o tema. Eles se associaram à Yunus entre 2012 e 2013 e hoje oferecem um curso de extensão (Desenvolvimento de negócios sociais e inclusivos, disponível em São Paulo e no Rio de Janeiro), além de disciplinas sobre o assunto nos cursos de graduação. A escola ainda estimula atividades de pesquisas na área e mantém uma incubadora de negócios voltada inclusive para negócios sociais.

De acordo com Ismael Rocha Junior, diretor acadêmico da ESPM, a área social é um dos pilares da escola, que há 16 anos desenvolve ações voltadas ao atendimento da comunidade. “Esse olhar para as questões sociais permeia todas as nossas atividades e está muito presente na formação de nossos alunos. Ainda que eles não trabalhem em ONGs ou em negócios sociais, acreditamos que essa formação é importante para influenciar a maneira como eles vão se colocar no mercado, independentemente do setor em que estiverem”, acredita.

Entre outras finalidades, o curso de extensão busca preparar os empreendedores para formatarem seus projetos, o que inclui pensar todas as suas esferas, da parte administrativa, passando pelo aspecto financeiro até chegar ao marketing. Ao final do programa, os participantes apresentam suas ideias a uma banca formada por profissionais das mais diversas áreas, que além de avaliar o projeto, indicam caminhos para colocá-lo de pé. Segundo o diretor acadêmico, o perfil de pessoas que buscam a qualificação é bem heterogêneo. “Temos profissionais de mercado, investidores, médicos, arquitetos, artistas, todos querendo se tornar empreendedores sociais”, conta.

Os projetos mais bem avaliados podem ainda ser selecionados pela incubadora de negócios da ESPM. Por um período de um ano, os empreendedores usam a infraestrutura do local e recebem a consultoria de professores e profissionais do mercado. Não há qualquer custo para os participantes. Questionado sobre o porquê desse investimento, Rocha Jr. é categórico: “Porque acreditamos que o empreendedorismo social é um caminho sem volta”. Desde 2014, quando a incubadora passou a funcionar, mais de 60 negócios foram registrados.

A parceria formal com a Yunus acabou, mas não por divergências. “Entendemos que não poderíamos ficar presos a uma única orientação de negócios. Como escola, consideramos que precisávamos trabalhar diferentes vertentes, sem nos prendermos a um só credo”, esclarece.

Variações sobre o mesmo tema
Na concepção de negócio social da Yunus, havendo lucro, ele deve ser totalmente reinvestido para maximizar o impacto social da empresa. É um posicionamento diferente, por exemplo, da Artemísia, organização sem fins lucrativos que também busca disseminar e fomentar negócios de impacto social. Para eles, a distribuição de dividendos aos acionistas é uma escolha de cada empresário.

Mas essa é uma das poucas diferenças. Assim como outras que atuam no ramo, a organização também mira os estudantes para atingir seus objetivos. E para isso criou em 2011 o movimento Choice. “Em nossa avaliação, os negócios de impacto social não estavam sendo trabalhados pelas universidades e acreditávamos que os jovens precisavam ter acesso a esse conhecimento para decidirem suas carreiras”, destaca Daniella Dolme, analista sênior de projetos da instituição. O movimento funciona da seguinte maneira: uma vez por semestre, são selecionados em torno de 90 estudantes para atuar como embaixadores. Eles passam por uma capacitação e recebem a missão de passar adiante o conhecimento que receberam, geralmente por meio de palestras e workshops. organizados por eles mesmos.

Desde 2011, o Choice já formou 831 embaixadores de 110 instituições de ensino superior. Matheus Cardoso, do Moradigna, foi um dos embaixadores do programa. Ele também recebeu apoio da aceleradora de negócios sociais da Yunus.

Rede de professores
As futuras lideranças do país, ou seja, os alunos de ensino superior, também estão no alvo de mais uma organização que trabalha com a temática, o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE). Para influenciá-los, a organização formatou em 2013 o Programa Academia. Sua coordenadora, Adriana de Almeida Salles Mariano, explica que uma das estratégias do programa é fortalecer uma rede formada por professores de instituições de ensino superior, que trocam experiências de docência, pesquisa e extensão relacionadas à temática. No início, faziam parte da rede docentes do Insper, da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Faculdade de Economia e Administração (FEA), da Universide de São Paulo. Hoje, os 40 participantes representam mais de 30 instituições públicas e privadas de quase todas as regiões brasileiras.

A adesão ao grupo é voluntária. Depois de receber o pedido de solicitação feito pelo professor, o que acontece geralmente via e-mail, o ICE passa informações sobre o programa e sobre os conceitos de negócios de impacto e finanças sociais. “Todos os que nos procuraram até o momento são docentes que já trabalham com empreendedorismo social em sala de aula. Porém, essa não é uma condição para participar”, conta.

O programa tem outras duas estratégias de atuação: o incentivo à pesquisa acadêmica e a criação de atividades de extensão que conectem alunos à população de baixa renda. Essa ação ainda está em estágio inicial, mas o primeiro passo já foi dado: o mapeamento das atividades existentes. “Não adianta a academia estimular os jovens se não houver novos negócios, negócios para eles atuarem”, reforça.

A cadeia se completa com o interesse de investidores em fortalecer os empreendedores da vertente. Em 2014, o Brasil investiu R$ 13 bilhões em negócios de impacto social, cifra que pode triplicar até 2020 (leia mais na pág. 18). Fazem todo o sentido então as iniciativas em curso para formar os profissionais que futuramente vão movimentar esses recursos para melhorar as condições da população de baixa renda.

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