O nariz ensina

Simetrias e assimetrias do órgão que simboliza, talvez mais do que todos os outros, a nossa identidade

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No livro Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche refere-se ao nariz como "o mais delicado dos instrumentos que se encontram à nossa disposição: ele consegue constatar diferenças mínimas de movimento, que o próprio espectroscópio não constata". O nariz como instrumento de observação para o pensador. Como fonte de informações e, portanto, oportunidade para o aprendizado.

O nariz é, como o olho, símbolo de clarividência, apto a orientar nossos desejos e decisões, "antena" que nos ajuda a caminhar. Lutamos a vida inteira para ser donos do nosso próprio nariz e saber onde o temos. Mas quando não vemos o que está bem debaixo dele, é hora de rever nossos parâmetros e pressupostos.

Podemos bater com o nariz na porta, é verdade, ou metê-lo onde não foi chamado, ou não enxergar um palmo além do dito cujo. Por outro lado, graças aos seus serviços, descobrimos quem não é flor que se cheire, ou o torcemos, ao constatar, como escreveu o poeta Lêdo Ivo, que o mundo nauseabundo exala cheiro de sangue e vômito!

O nariz é parte importante de personagens da literatura ou mesmo personagem importante ele próprio em muitas histórias!
Não se poderia imaginar Pinóquio sem o seu nariz e, por tabela, deixar de perceber no rosto de grandes mentirosos, sobretudo no âmbito político, alterações faciais indisfarçáveis.

Já na célebre peça de teatro de Edmond Rostand, a hipérbole nasal de Cyrano de Bergerac é motivo de chacota, mas se torna, por contraste, em sinal de beleza de caráter.

Luis Fernando Verissimo escreveu uma crônica, "O nariz", em que o protagonista decide usar para sempre um nariz postiço que o torna parecido com o Groucho Marx. Família, amigos e clientes acabam por se afastar dele. Um mero nariz de borracha faz dele outro homem? Este é o poder do nariz? "Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?" – disse ao psiquiatra que, perplexo, respondeu que talvez ele tivesse razão.


A pedagogia do nariz


O que um nariz tem a ensinar? Machado de Assis dedica-se a analisar a prática de fixar a ponta do nariz no capítulo 49 de Memórias póstumas de Brás Cubas. Olhar atentamente para a ponta do nariz é exercício de sublimação, elevação do espírito, caminho para a visão sobrenatural.

Ao lado do amor, diz Machado, força que garante à espécie humana multiplicar-se, o nariz permite à humanidade equilibrar-se, superando o ódio que nasce inevitavelmente da convivência diária. Ao olhar para a ponta do nariz e concentrar-se, portanto, em sua própria individualidade, o homem enfurecido, corroído pela inveja ou pela sede de vingança, desliga-se do exterior, esquece os inimigos e rivais, volta-se para o invisível, o intangível, o inefável. Fincando os olhos nesse ponto, impede-se o crime. O universo todo subordina-se àquela ponta de nariz e o gênero humano é preservado.

O recurso à contemplação "narigal" é conselho satírico de Machado. Quando vemos para além do nosso nariz, ou do nosso umbigo, nos comparamos aos outros, queremos imitá-los ou superá-los. O remédio está aqui: olhando para a ponta do nariz, o indivíduo fica vesgo e, ficando vesga também a sua mente, perde de vista a realidade externa. O mundo se torna difuso. Os conflitos, que fazem parte da dinâmica social, se diluem.

Mesmo sendo recomendação satírica tipicamente machadiana, algo de verdadeiro e útil há neste nariz supervalorizado. Descobrir o próprio nariz é atentar para os nossos desejos e paixões egoístas, localizá-los como algo inegável. Ninguém pode viver "desnarigado", sob pena de desligar-se da sua própria maneira de ser. É preciso aprender a olhar para si mesmo, abstrair do "não eu". E sem remorsos e culpas. Se cada um olhasse para a ponta do seu respectivo nariz, todos compreenderíamos melhor (sem moralismos) as consequências da introspecção.


Um nariz é um nariz…
ou mais do que isso?


O conto "O nariz", de Nikolai Gogol, relata as aventuras de Platon Kovaliov, que numa certa manhã descobre ter perdido o nariz. O órgão olfativo desgrudou-se do rosto e saiu da casa sem avisar, e foi visto mais tarde com as roupas de um conselheiro diplomático passeando pela cidade como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Afinal, o nariz ambulante será capturado e devolvido ao dono. Voltará a ocupar o seu devido lugar. Deveríamos estranhar tudo isso? O narrador explica, no último parágrafo da história: "por mais que se diga, aventuras como esta acontecem neste mundo, sendo raras, mas acontecem".

Existe algum sentido secreto em perder o nariz de uma hora para outra, e recuperá-lo sem mais nem menos? Os críticos literários se dividem. Uns afirmam que o nariz não passa de um nariz. Outros, apoiados na fala do próprio personagem, avaliam de outro modo:


– Que situação pode ser pior do que a minha?
Que pretende que eu venha a ser sem nariz?
Onde irei parar, entregue a esta fatalidade?

Outro conto, inspirado neste, intitulado "Nariz", de autoria do escritor japonês Ryunosuke Akutagawa, poderá nos ajudar a entender o nariz e, talvez, um pouco da condição humana. Nessa história, um velho monge budista ostenta um nariz de 15 centímetros de comprimento. Humilhado ao longo da vida pela deformidade, deseja que seu nariz encolha. Enfim, com a ajuda de um zeloso discípulo, consegue que o apêndice monstruoso passe a ter dimensões mais aceitáveis.

Para sua surpresa, porém, o nariz encurtado começou a provocar o riso e o deboche de todos. Sua situação anterior despertava compaixão e respeito. A superação da infelicidade atraiu-lhe novos e maiores motivos para sofrer. E então, inexplicavelmente, seu nariz voltou a ser o que era antes. Aquele nariz enorme, que lhe chegava até abaixo do queixo, recuperou-lhe a paz.

Cada um cuide do seu nariz. Mais do que ornamento ou funcionalidade, o nariz é identidade. Transformá-lo, negá-lo ou perdê-lo é transformar, negar ou perder algo essencial. Sem o nariz com que nascemos e crescemos, perdemos o rumo. Ficamos desfigurados. Nosso perfil falseado falseará nossa verdade.


Gabriel Perissé


é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de Mestrado da Universidade Nove de Julho (SP) (



www.perisse.com.br



).

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