O mistério capanema

Habilidade política, trânsito entre intelectuais e devoção à cultura ajudaram o ministro da Educação a ter permanência recorde no cargo

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Gustavo Capanema (centro), no momento em que assumiu interinamente a interventoria de Minas Gerais, em 1933; no ano seguinte, tornou-se ministro

Gustavo Capanema foi ministro da Educação e Saúde Pública entre 1934 e 1945. Nenhum outro ministro permaneceu à frente da pasta tanto tempo. Embora não dispusesse de bases políticas de sustentação, como lembra o historiador Célio da Cunha em Educação e Autoritarismo no Estado Novo, o prestígio de Capanema decorria do apreço pessoal que lhe dirigia Getúlio Vargas. O ditador via nele o que muitos intelectuais brasileiros, alinhados a partidos políticos de esquerda, identificavam em sua presença: uma devoção à cultura traduzida na paixão por ler. Amigos diziam que ele se trancava no gabinete e não atendia ninguém até que tomasse conhecimento de todos os livros que mandara trazer da Europa.

Em pleno Estado Novo, atraiu a seu ministério, seja ocupando cargos, seja atuando como colaboradores, considerável parcela da intelectualidade brasileira que a historiadora Helena Bomeny identificou como “Constelação Capanema” em livro ao qual deu título homônimo. Esses intelectuais se tornaram formadores da cultura brasileira: Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Heitor Villa-Lobos e Mário de Andrade estavam entre eles.

Na área da educação e cultura, Capanema projetou diversas leis orgânicas de ensino, criou o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Instituto Nacional do Livro e a Faculdade Nacional de Filosofia. Na saúde, instituiu departamentos nacionais para a Criança, a Tuberculose e a Lepra, e o Serviço Nacional de Malária. Não era um ideólogo sutil, como se lê no discurso que fez no centenário do Colégio Pedro II, em dezembro de 1937: “A educação deve tomar partido, deve adotar uma filosofia e seguir uma tábua de valores, deve reger-se pelo sistema de diretrizes morais, políticas e econômicas que formam a base ideológica da nação”.

Seus colaboradores viam nele um humanista de idéias liberais. “Cercado dos melhores representantes de nossa cultura, Capanema resistiu a todas as interferências. Estabeleceu um programa de trabalho e dele nunca se afastou”, diz Oscar Niemeyer, para completar: “Lembro-o sempre com a maior admiração: culto, correto, inatacável.” O poeta Carlos Drummond de Andrade o via como alguém muito hábil: “Não ligou à assustada atmosfera que se criou em sua volta. Com paciência, determinação e humildade, realizou pesquisas, juntou documentação, consultou elementos que jamais tinham sido convidados a opinar sobre os problemas da pasta”.

Estudioso da educação, exibia seu pensamento nas exposições de motivos das leis e em discursos. Ficou célebre a que fez para o ensino secundário, que atribuía a esse grau de ensino a tarefa de preparar “as personalidades condutoras” da nação.

Certa vez, autorizou uma banda marcial para uma festa no Colégio Pedro II, mas o comandante da Primeira Região Militar negou a solicitação, alegando que “o exército não colabora com festas comunistas”. Capanema cogitou colocar o cargo à disposição. Vargas preferiu demitir o comandante. (Rosane Pavam)
 

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