O milagre da emancipação

A educação e a potência humana de romper com as amarras de um destino anunciado

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Aos dois anos de idade, vítima da escarlatina, Helen Keller tornou-se surda e cega. Desse momento em diante sua existência parecia condenada ao obscuro confinamento dentro de si mesma. Sem ser capaz de ouvir, falar ou enxergar, o mundo à sua volta praticamente se resumia às sensações táteis que tinha e aos breves gestos por meio dos quais expressava suas necessidades mais básicas. Incapaz, até os seis anos de idade, de controlar suas pulsões agressivas, Helen recebe sua professora Anne Sullivan de forma violenta. Sem qualquer experiência pregressa no ensino de crianças incapacitadas de ouvir e enxergar, Anne dedica-se com afinco a tentar – e por muito tempo sem sucesso! – ensinar Helen a se comunicar por meio de uma língua de sinais táteis.

Como a própria Anne Sullivan irá se dar conta mais tarde, Helen sequer sabia que existiam palavras; que ao nomear cada objeto, cada sensação, cada evento organizamos um mundo passível de ser compartilhado com nossos semelhantes. Ela persiste tentando lhe ensinar, alternando um toque numa boneca e a escrita dessa palavra em sua mão, um toque na mesa e os sinais que a identificariam e a separariam de um mundo contínuo de objetos desconexos. Mas sem sucesso, pois Helen não era capaz de vincular aos objetos os sinais que lhes eram correspondentes.

Numa tarde ensolarada Anne leva Helen a um poço a fim de buscar água. A sensação da água fria em suas mãos desperta uma alegria misteriosa na menina. E o discernimento pedagógico da professora a leva a escrever imediatamente em suas mãos a palavra “água”. Helen vincula pela primeira vez gesto e objeto e reescreve a palavra nas mãos de sua professora. A seguir, toca a bomba do poço e estica sua mão para a sua professora. Depois, toca o chão, as flores e, de forma obstinada, passa a querer saber de cada coisa o seu nome. Helen deixou de ser capaz de produzir somente sons que expressam necessidades. Ela se transforma em um ser dotado de linguagem; capaz, portanto, de conferir inteligibilidade ao mundo.

A primeira vez que tive contato com essa história sequer pensava em ser professor. Hoje, depois de mais de 30 anos no magistério, ela me emociona ainda mais. E, recentemente, ao relê-la para minha filha, tive a sensação de que ela condensa muitos dos possíveis significados da tarefa docente na experiência educativa. Ao ensinar a Helen uma linguagem, Anne faz muito mais do que lhe fornecer um meio de autoexpressão. Ela a retira da escuridão de seu exílio subjetivo para a luz de um mundo compartilhado de signos; um mundo impregnado de histórias e prenhe de expectativas. Helen deixa de ser um vivente da espécie Homo sapiens para se constituir em pessoa que, mais do que expor suas necessidades, expressa por meio de uma linguagem o caráter singular de sua existência.

Ao abrir o mundo da escrita, da poesia, da filosofia, das artes ou do esporte, cada professor carrega em seu gesto a possibilidade de um milagre. Não porque tenha qualquer vínculo com a transcendência religiosa, mas porque atualiza a potência humana de romper com as amarras de um destino anunciado nas contingências de uma condição prévia. O milagre da educação se realiza, pois, por meio da emancipação.

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