O líder da escola

Conhecimentos técnicos e pedagógicos formam a base da atuação de um diretor, mas não bastam para que ele seja um gestor efetivo

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Lidar com questões administrativas e financeiras não são mais as únicas atribuições de um diretor escolar. À lista foram adicionadas habilidades como se relacionar com a comunidade escolar, gerenciar pessoas, delegar e estar atento a novas metodologias. A nova dinâmica da escola pressupõe que o diretor saiba envolver toda a comunidade.

“O que mudou é que, antes, tínhamos uma gestão mais centrada na figura do diretor. Hoje, tudo é mais democrático e compartilhado”, afirma Leunice Martins de Oliveira, coordenadora do curso de pós-graduação em gestão educacional da PUC-RS.

Entender essa nova dinâmica é ponto inicial para desenvolver novas habilidades, a começar pela visão sistêmica, afirma Luiz Edmundo Rosa, diretor de Educação na Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). “Nesse caso, o diretor escolar assemelha-se ao líder de empresas, porque ele tem de conhecer todas as peças separadamente, ao mesmo tempo em que sabe como elas funcionam juntas”, afirma.
Lidando com pessoas
Ter visão sistêmica, explica Rosa, é reconhecer o papel de cada agente da comunidade escolar. Sem isso, o diretor não consegue exercer sua função. A partir daí, completa, ele trabalha com uma ótica compartilhada – que é a capacidade de descentralizar decisões. Ao manter as portas abertas e ouvidos atentos às demandas de alunos, professores, funcionários e pais, Jairo Cardoso, diretor há 12 anos do Colégio São Luís, em São Paulo, afirma ter criado vínculos que só fizeram bem à instituição. Essa receptividade é parte da descentralização da gestão no colégio, diz Cardoso.

No São Luís existem três conselhos – pedagógico, administrativo e de formação humana -, que se reú­nem periodicamente, e auxiliam o diretor na tomada de decisões. “Essa escuta real e a acolhida de ideias trazidas pelos funcionários fez o colégio crescer. O resultado visível é a melhora da qualidade do ensino, da relação aluno-professor e nos resultados das avaliações oficiais”, afirma o diretor.

Por trás do entendimento dos papéis da comunidade escolar, da escuta ativa e do compartilhamento de decisões está a capacidade de lidar com pessoas. “As relações na escola mudaram, ainda que de maneira conservadora”, afirma Pedro Ganzeli, coordenador do Departamento de Política, Administração e Sistemas Educacionais da Unicamp.

Agora, explica ele, a hierarquia é menos verticalizada e todos os que participam dos processos do colégio passam a ser responsáveis pelo ensino. “Não é mais uma equipe em que cada um faz o seu trabalho e pronto. Cada um tem uma responsabilidade específica, sim, mas o foco é o mesmo para todo mundo: o aprendizado do aluno.”

Tanta gente envolvida em um único processo exige um diretor capaz de liderar, sem deixar que os demais agentes percam a voz, avalia Rosa. “Não é só conduzir pessoas­. Nessa área, é preciso gostar de lidar com elas”, afirma o especialista em RH. Essa liderança, porém, é diferente da exercida em empresas, alerta Vitor Paro, professor titular da Faculdade de Educação da USP. “É preciso de fato envolver as pessoas, atendê-las. Os pais, por exemplo, ainda têm uma imagem muito tradicional da escola. Então, essa liderança envolve mudança de conceitos”, explica.

Envolver pessoas é a base do trabalho de Marly Cury, mantenedora e diretora do colégio que leva o seu nome no Rio de Janeiro. “Parte significativa do meu dia é dedicada a atender professores, pais e alunos, ouvir suas demandas, entender suas dificuldades e buscar promover a melhora do dia a dia dessas pessoas”, afirma a diretora.

De acordo com Marly, é por meio desse contato que ela consegue aproximar mais os pais do ensino dos filhos. “A partir disso, é possível fazer uma reflexão sobre as nossas práticas educacionais, sobre os processos que a escola adota, sobre os novos papéis que a escola tem de assumir junto às famílias”, afirma.

O acesso facilitado aos professores, seja pessoalmente ou por telefone, estreita ainda mais essa relação, afirma Marly.

Sem perder o foco
Relacionar-se e interagir com as pessoas não basta para atuar como diretor. Estar à frente de uma escola significa também lidar com uma rotina administrativa, que pode envolver o diretor de tal maneira que o tempo que deveria ser dedicado à função pedagógica seja consumido pela burocracia. “Não se afogar na burocracia é difícil por conta do papel natural do diretor, que é o de administrar. Mas é preciso dosar isso”, avalia Paro.

Planejar e delegar, dessa forma, são características primordiais que evitam a perda de tempo. “As questões burocráticas não impedem a realização de um trabalho transformador. Mas o diretor precisa projetar”, completa Ganzeli. Ao delegar, o diretor consegue elaborar projetos, propor mudanças e, principalmente, atualizar-se. O conhecimento técnico, segundo os especialistas, não pode ser deixado de lado pelo diretor escolar.

Foi em busca de conhecimento e de experiências que proporcionassem resultados positivos para o Colégio Renovação, de São Paulo, que a mantenedora e diretora Sueli Brava Conte viajou para diversos países. Em 2011, ela visitou escolas na Turquia, Holanda e Dinamarca e, em 2012, foi até os Estados Unidos e o Canadá. “A gente vê como os outros países lidam com a educação e volta com a cabeça mais aberta, trazendo conhecimentos diferentes”, conta ela.

Foi na Finlândia que Sueli conheceu o sistema de mentoria, no qual um aluno mais velho esclarece dúvidas de alunos mais novos.  Há quatro anos, a diretora iniciou a novidade no colégio e, afirma, conseguiu atrair os alunos. “Vimos que os mais novos aprenderam mais rápido”, afirma.

Com organização, Sueli consegue tempo para conhecer novas realidades e faz disso uma oportunidade para atualizar-se. A partir de conhecimentos adquiridos com experiências dessa natureza, diretores podem ir além e mudar metodologias inteiras. “É importante ressignificar as práticas e atualizar as formas de lidar com o ensino”, afirma Leunice, da PUC-RS.

Sem medo de mudar
Foi o que fez Christina Fabel, diretora pedagógica do Colégio Instituto Coração de Jesus, de Belo Horizonte. Quando assumiu a direção do colégio, há 20 anos, Christina afirma ter enfrentado muitas saídas de alunos, por motivos financeiros. Nesse processo, porém, ela identificou gargalos no ensino, que poderiam ser sanados. “Percebemos que precisávamos mudar em muitos aspectos. Não eram discutidos valores com os alunos, por exemplo.”

Aulas de educação física mal planejadas e de matemática desmotivadoras fizeram a diretora pensar em alternativas. Há cinco anos, Christina conheceu uma nova metodologia de ensino, que utiliza jogos, e decidiu que tentaria implantá-la na escola. “Ouvi os professores, fizemos oficinas e vimos que poderia dar certo”, conta. “Mas fiquei sem dormir, porque era um risco muito grande, por conta do investimento, arcado pelos pais.” O processo de convencimento começou pela área financeira da escola e passou pelos pais. “Recebi o apoio de 70% deles. Mas os outros 30% quase acabaram comigo e tive de convencer um a um”, relembra.

Hoje, a nova metodologia está implantada em todas as séries oferecidas pela escola, da educação infantil ao último ano do ensino médio. Não perder o foco pedagógico e não ter medo de mudar é o desafio maior para que diretores sejam gestores efetivos, afirma Leunice.

Ainda que consigam desenvolver todas as características necessárias, é preciso comprometimento e clareza na condução dos processos. O foco é o aluno, ressalta Paro, da USP. E é preciso criar vínculos com ele. “Deve haver cumplicidade. O aluno aprende se envolvendo e o diretor que não souber disso falha, independentemente das habilidades que tenha.”

As dez habilidades de um bom diretor

1. Reconhecer os papéis dos agentes da comunidade escolar

2. Ter perfil descentralizador

3. Ouvir e envolver as pessoas em todos os processos

4. Gostar de pessoas

5. Aperfeiçoar conhecimentos pedagógicos

6. Aprender técnicas de gestão

7. Acompanhar mudanças

8. Saber delegar

9. Efetuar mudanças

10. Ter comprometimento com a gestão

Desafios nas redes públicas

Quando estava à frente da Escola Estadual Deputado José Costa, em Serrada (SP), a pedagoga Solange Navarro Fabbri teve de lidar com uma comunidade insatisfeita, professores e funcionários que não dialogavam, alunos desinteressados, violência e drogas no entorno da escola. “Até o meu terceiro ano como diretora, eu não consegui fazer nada. Só ouvia e apagava incêndio”, conta.

Quando resolveu abrir um canal de comunicação para entender os motivos de tantos descontentamentos, Solange percebeu uma sensível mudança. “Tudo começou com o ouvir e o dar a voz”, conta. A partir das primeiras conversas junto à comunidade local, foram realizadas pequenas ações que melhoraram a convivência, como a manutenção da praça em frente à escola. “Foi aí que a comunidade percebeu que estávamos ao lado dela e ela, por sua vez, passou a estar do nosso lado”, conta.

Ao perceber o envolvimento de toda a comunidade escolar em torno dessa ação, Sueli resolveu investir em pequenos projetos sustentáveis, desenvolvidos pelos próprios alunos e professores. “Esse movimento contagiou todo mundo e a escola começou a fazer sentido para os alunos.”

Tanto interesse fez a escola ganhar o Prêmio Gestão Escolar 2011, do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), na categoria regional. Ao tentar entender o que ocorria na comunidade escolar, Solange teve de se envolver e ouvir.

Lidar com o desinteresse e a falta de recursos são os principais desafios dos diretores da rede pública de ensino. Contudo, ao tentar entender a realidade na qual se encontram, como fez Solange, é possível aos diretores traçar pequenas metas e realizar pequenos projetos.

“O gestor da escola pública está atrelado a uma gestão de recursos materiais e trabalha em torno das faltas. Mas as competências e habilidades que ele deve ter não são diferentes das verificadas entre os gestores de escolas particulares”, atesta Leunice Martins de Oliveira, da PUC-RS. Para ela, o diretor da rede pública deve fazer um esforço maior em conquistar parceiros, sejam eles empresas locais ou os próprios familiares dos alunos.

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