O jogo da rima

Além de dar prazer estético ao leitor, a rima prova que o poeta é um artesão hábil, que domina as artes do seu ofício

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Além de dar prazer estético ao leitor, a rima prova que o poeta é um artesão hábil, que domina as artes do seu ofício

Foto: Pixabay

A poesia é feita para os ouvidos, mesmo sendo lida com os olhos. Os sons das palavras criam uma melodia própria, e o recurso mais simples para produzir essa melodia são as rimas. Os termos “rima” e “ritmo” vêm de palavras gregas e latinas que têm a idéia básica de “repetição a intervalos regulares”. A arte de rimar consiste em encontrar palavras diferentes que terminam com o mesmo som, e que não se afastam do assunto.

Por que usar rimas? Nas sociedades sem escrita, mas que têm uma rica produção literária oral, a rima ajuda a memorização dos versos. Para as pessoas que decoram longos poemas, as rimas são um roteiro para não esquecer os versos. Cada rima nos ajuda a lembrar a próxima.  É muito mais fácil decorar um texto rimado e metrificado do que um texto em prosa.

A rima não serve apenas para facilitar, mas também para dificultar. Ela é aquilo que em francês se chama uma “contrainte”, uma regra que o autor impõe a si mesmo. Uma regra que, para ser obedecida, torna mais difícil o trabalho de composição do texto, mas cria nesse texto uma ordem, uma simetria. Isso dá prazer estético ao leitor e ao mesmo tempo prova que o poeta é um artesão hábil, que domina as artes do seu ofício. Nesse sentido, saber rimar é um pouco como saber ficar jogando laranjas para o alto, aparando-as e jogando-as de novo, sem deixar que caiam no chão. Para que serve isso? Para mostrar a habilidade de quem faz, e para dar prazer a quem vê.

A rima não é a parte mais essencial do poema, mas serve para lhe dar tempero, colorido. Muitos poetas acham que a excessiva regularidade no uso das rimas pode tornar o poema algo mecânico, repetitivo, e preferem usar esquemas de rimas irregulares. Rimas que vêm muito próximas umas das outras, ou muito afastadas; rimas que se repetem no meio da linha, e não no final, e assim por diante.

Rimas consoantes e toantes

A rima tradicional, também chamada rima consoante, exige a igualdade de sons a partir da vogal da sílaba tônica. Por esta regra, a rima da palavra “castelo”, por exemplo, não é telo, e sim elo. Qualquer palavra terminada em elo é uma rima válida: flagelo, belo, amarelo etc. A letra que vem antes desse e não é considerada parte da rima. A rima da palavra “jacaré” é apenas é, e ela rima com café, pé, José etc. Já uma palavra como “diário” tem como rima toda a parte que vem a partir da vogal da sílaba tônica, ou seja, ário.  Rima com “funcionário”, “armário”, “contrário”, “aniversário” etc.

Já a rima chamada de toante não exige uma correspondência total de sons, e sim uma mera semelhança, geralmente baseada no som da vogal tônica, e minimizando a importância dos demais sons. Por essa regra, “castelo” pode rimar com mistério, velho, deserto etc. É o tipo de rima preferido por poetas como João Cabral de Melo Neto, em cujos versos as rimas toantes são maioria esmagadora. A vantagem desse tipo de rima é que ela amplia muito o leque de escolhas do autor. Ele tem muito mais palavras para encaixar, e pode optar por aquelas que se integram melhor ao poema.

A rima tem de trazer mais beleza, mais expressividade ao texto. No caso das rimas consoantes, onde a exatidão é obrigatória, é muito comum vermos palavras que entraram no poema “como Pilatos no Credo”, apenas para obedecer à regra da rima. Muitos possíveis bons poemas acabam sendo estragados pela presença de palavras inúteis ou extravagantes. Há poetas que fariam melhor negócio abrindo mão da rima e aderindo ao verso branco, o verso não rimado. Ninguém é obrigado a adotar uma fórmula, se o seu modo natural de expressão é diferente.

O Modernismo de 1922 foi um grito de independência para muitos poetas brasileiros que tinham verve, riqueza verbal, sensibilidade, habilidade para criar imagens, mas não tinham talento para rimar ou metrificar. Quem escreve tem diferentes modelos de escrita à sua disposição. Pode, inclusive (se for corajoso, souber o que está fazendo, e quiser correr o risco), propor modelos novos.

Não existem dois poetas com talentos iguais, desde que sejam talentos de verdade, e não uma simples facilidade de expressão verbal, que muitas vezes é confundida com talento. A mediocridade é toda parecida, mas cada talento se destaca de toda a literatura em torno.  Ninguém é obrigado a utilizar modelos com que não se identifica, mas se o poeta quer se exprimir através de modelos tradicionais, conhecidos, e com regras próprias (o soneto, a décima, o haicai, a oitava camoniana etc.) deve estar à altura dessas regras que escolheu para obedecer.

Rimas ricas e pobres

Os críticos usam os conceitos de rima rica e rima pobre para indicar o seu maior ou menor grau de dificuldade. A rima mais pobre seria rimar uma palavra com ela mesma, algo tão bobo que é praticamente proibido. Há pessoas que fazem algo parecido: rimar uma palavra com uma derivação dela mesma: chuva com guarda-chuva, possível com impossível, culpa com desculpa, Atlântico com transatlântico etc.

Não é proibido rimar assim, mas este é um recurso cômodo, preguiçoso, para ser usado apenas quando absolutamente necessário. Usar rimas assim o tempo inteiro parece uma trapaça. O mesmo se dá com rimas que são muito abundantes na língua, como a rima em ão. Devem ser usadas com economia, senão o poema vira um “samba de uma nota só”. Com as terminações dos infinitivos verbais (ar, er, ir, or) dá-se o mesmo. Às vezes empurramos os verbos para o fim da linha, mesmo atravancando a sintaxe, apenas para aproveitar a rima. Qualquer poeta já fez isso, mas fazer isso o tempo inteiro indica um poeta de poucos recursos. Isso também vale para as palavras que terminam com sufixos iguais: saudade, liberdade, imensidade… Atualmente, corretamente, livremente… Terrível, incrível, impossível…

A rima rica é a que usa palavras muito diferentes entre si: verbo com substantivo, adjetivo com preposição, nome próprio com nome comum etc. Rimar “Raimundo” com “mundo” é uma boa rima; rimá-lo com “Edmundo” também é rima, mas não é uma boa solução.

*Braulio Tavares é compositor e autor de livros como Contando histórias em versos – Poesia e romanceiro popular no Brasil (Editora 34, 2005) e ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007).
btavares13@terra.com.br

Blog: mundofantasmo.blogspot.com

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