O inferno são os outros

Responsáveis por formar cidadãos que respeitem a diversidade, escolas são palco de casos de intolerância que incluem violência física e psicológica no Brasil e no mundo

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ALceu Luís Castilho, Fábio de Castro e Jéssika Torrezan*

A intolerância faz escola. Em pleno século XXI, guerras, invasões, genocídios, agressões a imigrantes, discriminações e violência são algumas das situações-limite. Mas o desrespeito à diversidade ocorre no dia-a-dia. A escola também faz intolerância.
Educação

reúne nas próximas páginas casos de agressão física e psicológica ocorridos nos próprios estabelecimentos escolares, em todo o mundo, e mostra exemplos de ações que visam a uma escola e um mundo mais democráticos.




São casos de intolerância racial, religiosa, social, de gênero – a lista de circunstâncias em si já seria inesgotável – que ocorrem diariamente em escolas de todos os continentes. A mídia explora casos eventuais. Como o de Sheila Cartopassi de Oliveira, a menina de 5 anos que, em 1992, foi expulsa de escola em São Paulo por ser portadora do HIV. O caso foi esquecido e o problema do preconceito segue atual, segundo Cristiana Pimenta, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids.




Pior: pelo mundo, casos como o de Sheila – em que o preconceito dá lugar à discriminação – se repetem. Em abril, organizações civis do México fizeram uma queixa contra a discriminação, em escolas, de crianças com o vírus da aids. O relatório entregue à Comissão Nacional de Direitos Humanos afirma que, desde que apareceu o primeiro caso da doença no país, há 21 anos, as entidades recebem denúncias por expulsão, impedimento de matrícula e ofensa à dignidade das crianças.




A entidade Oasis, de San Juan de Dios, em Yucatán (México), denunciou que, entre 2002 e 2003, escolas públicas primárias e secundárias expulsaram cinco crianças de 10 a 15 anos infectadas com o HIV. Quatro delas morreram e uma estuda em escola privada. Em Chiapas (México), uma menina foi expulsa de várias escolas durante três anos por ser soropositiva. Segundo o relatório de entidades como a Rede pelos Direitos da Infância, ela sofreu discriminação e tortura psicológica.




Problema complexo – Embora esses casos evidenciem a conexão entre intolerância e ignorância, seria muito simples restringir o problema nas escolas a casos envolvendo pessoas ou comunidades “ignorantes” contra alunos ou vítimas indefesas. Mas a questão é cultural, enraizada, envolve professores, família, estudantes, comunidade, autores de livros didáticos, mídia, governos.




Um dos fios condutores da intolerância é o preconceito. Suely Violla, mãe de Breno, de 23 anos, portador da síndrome de Down, conta que quando ele estava na 1
a

série era o único aluno no colégio, particular, com a síndrome, até entrar outra portadora. “Eu estava no portão esperando meu filho, e uma mulher, ao ver os dois, comentou: ‘Vão encher esta escola de mongolóides’.” Breno é hoje faixa-preta de judô e leva uma vida normal.




Tânia Portella, da ONG Observatório da Educação, lembra que ninguém nasce racista, intolerante, desrespeitoso. “Se, na escola você vê esse comportamento e ele não é combatido, você adota essa postura como natural e aceitável.” Única negra quando cursava o ensino fundamental, Tânia lembra que, um dia, seus colegas disseram que não queriam brincar com ela. Contou à professora, mas ela não falou nada. “Dessa forma, você dá aval para que a criança pratique intolerância.”




Tânia conta que numa discussão com educadores na Casa da Cultura da Mulher Negra, em Santos (SP), sobre a Lei 10.639/2003 – que prevê o estudo de história da cultura afro-brasileira nas escolas -, um dos professores, evangélico, definiu a lei como “coisa do diabo”.




“A escola é a instituição que mais perpetua a discriminação, principalmente contra os negros”, dispara Ivanir dos Santos, presidente do Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, no Rio de Janeiro (RJ). Ela conta que, no Rio, um dos problemas recentes é justamente a discriminação dos pentecostais contra outras religiões, principalmente as de matriz afro-brasileira.




“O que mais assusta é ver esse discurso da intolerância por parte de educadores, que são formadores de opinião”, observa Tânia Portella. Ela cita ainda o caso de uma diretora de escola, ouvida por Raquel Oliveira em seu mestrado na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), que declarou não ser preconceituosa contra negros. “E se você tiver alunos homossexuais?”, indagou a pesquisadora. “Ah, aí também não!”




Também nesse caso o problema é universal: uma pesquisa da Gay-Straight Alliance School Climate com 2.227 estudantes secundários da Califórnia (EUA) mostrou que 67% admitiram fazer comentários homofóbicos freqüentemente; 84% dos estudantes dizem que nunca ou raramente vêem alguma intervenção dos funcionários da escola quando são feitos comentários antigay. Segundo o Departamento de Educação de Massachusetts (EUA), 22,2% de alunos
gays

, lésbicas, bissexuais ou travestis deixam de ir à escola pelo menos uma vez por mês por medo de agressão.




Microcosmo – Esse tipo de comportamento ilustra como a intolerância na escola perpetua o que ocorre na sociedade. Agressões físicas a homossexuais costumam ir parar nas páginas policiais. Já a intolerância religiosa está na raiz de conflitos em toda a história do mundo. Um caso envolvendo estudantes de Temecula, nos EUA, mostra como a combinação entre intolerância, religião e escola pode resultar no ódio.




Um grupo de estudantes dessa cidadezinha californiana criou um movimento contra a intolerância religiosa. O objetivo do FAD (Lutando contra a Discriminação, na sigla em inglês) é defender os alunos ateus e não-cristãos. Uma das participantes do grupo, Jenalee Henline, foi discriminada por colegas que a chamaram de “judia estúpida”. O grupo posiciona-se ainda contra a utilização pejorativa da palavra
“gay”

.




Pela internet, o caso motivou reações iradas. “Julgamento e intolerância são demandados por nosso Deus”, gritou o pastor Dave Thomas em um site cristão. Ele cita um monte de trechos do
Evangelho

que referendariam a posição de “julgamento e intolerância a qualquer um que não aceite nossa fé”. “Se isso não for verdade, e relativo para a cristandade, então eu mijarei no Mississippi para tentar mudar sua direção, estúpidos e cegos ateus.”




Em Pittsburgh, uma garota de 7 anos, Brandy McKenith, foi suspensa da escola em fevereiro por ter dito a palavra
“hell”

(“inferno”, em inglês) a um coleguinha. “As crianças estão levando revólveres e facas à escola, usam drogas. E eles estão preocupados com ‘inferno’?”, disse o pai, Wayne McKenith.




Mobilização – Dos Estados Unidos à França, país que protagonizou o movimento libertário de maio de 1968, outros estudantes reagem contra a intolerância. No dia 8 de dezembro, o Conselho Acadêmico da Vida Escolar, composto de estudantes parisienses, lançou um manifesto pela tolerância: “Submetidos a humilhações, exclusões, preconceitos, assédios ou violências físicas, diante da lei do silêncio, os alunos se fecham em seu fracasso escolar, na agressividade, na recusa de si mesmos e na depressão”, aponta o documento.




Os franceses querem criar uma rotina de testemunhos das agressões, com a ajuda de funcionários. Eles mencionaram casos de uma aluna queimada viva em 2002 e outra atacada com ácido. “Uma garota não quer sair com um garoto porque ele é judeu ou ostenta símbolos religiosos. Alunos homossexuais têm medo de declarar sua opção e as meninas sofrem humilhações. Até a maneira de se vestir é motivo de exclusão”, analisam.




Exatamente a França proibiu este ano o uso de símbolos religiosos nas escolas – medida considerada “intolerância radical” e “uma vergonha para a história da República” pelo judeu não-praticante Laurent Lévy, casado com uma muçulmana. Suas filhas, Lilá e Alma, de 16 e 18 anos, foram expulsas do colégio Henri-Wallon, de Aubervilliers (região de Paris), pela reincidência no uso do véu islâmico. “Outras meninas vêm vestidas de góticas e ninguém reclama”, observou uma colega delas, cristã.




No Brasil – Na América Latina, boa parte da luta contra a discriminação nas escolas é feita pelas ONGs. “A solução para diminuir o preconceito é convivência e informação. Temos que agir de forma coletiva, para poder entender a dinâmica do outro e criar bandeiras e ações conjuntas”, diz Rosiana Queiroz, coordenadora do Movimento Nacional de Direitos Humanos.




Rosiana defende a criação da disciplina direitos humanos nas escolas. “O caráter das pessoas é moldado desde criança”, justifica. “E o Brasil tem um preconceito velado, contido, que é o pior tipo de preconceito que existe.”




Frei David, coordenador do Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), ONG que combate o que ele chama de “
apartheid

à brasileira” e uma “exclusão cruel e avassaladora” da população negra, concorda e diz que é na escola que ocorre a maior discriminação. “É muito comum que crianças negras de classe média sejam discriminadas em escolas particulares. A família em geral tenta ‘embranquecê-las’ e afasta essas crianças da cultura negra. E, claro, elas se sentem um peixe fora d’água.”




Livros didáticos – Um dos empecilhos para a valorização da cultura e identidade negra junto a crianças e adolescentes, segundo Frei David, está nos livros didáticos. “Neles, os negros aparecem em situação inferior, nunca retratados em cargos superiores, é sempre o escravo, o coitado”, afirma. “Hoje, existe maior controle, mas ainda não é o ideal.”




Sônia Regina Miranda, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e membro da comissão técnica do MEC para avaliação de livros didáticos, diz que há 15 anos os textos preconceituosos apareciam em profusão. “Em muitos livros, os índios eram vistos como ou quase débeis mentais ou como pessoas selvagens, intolerantes”, conta. Segundo ela, as “aberrações” diminuíram quando os editores viram que a abordagem “politicamente incorreta” prejudicava seus negócios.




Segundo a especialista, o problema maior entre os professores é o silêncio, a omissão. “Se ele não estiver preparado para lidar com as situações que os livros apresentam, a imagem vai ficar na cabeça dos alunos e vai naturalizar o preconceito e a intolerância”, acredita. Sônia conta que existem muitos outros maus exemplos, envolvendo idosos, homossexuais, pessoas de etnias diferentes. “Ou eles não aparecem ou aparecem de forma estereotipada.”




Para Cláudia Werneck, presidente da ONG Escola de Gente – que lida com portadores de deficiência e a intolerância lingüística -, a escola deve trabalhar com o conceito de diversidade, não só de tolerância. “Aí ninguém precisa ‘tolerar’ ninguém, porque todos vão respeitar as diferenças”, afirma. “Professores e alunos precisam estar preparados para aceitar a diversidade. As pessoas precisam aprender a respeitar não por pena, mas porque todos têm limitações e são diferentes entre si.”



*Da Agência Repórter Social, com reportagem de Andréa Portella, em Florianópolis (SC)




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