O homem de US$ 3,5 bilhões

Responsável pelo investimento do Banco Mundial na área de educação, vice-presidente da entidade fala com exclusividade à Educação

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Marcos de Moura e Souza

O homem que determina como e em quais países o Banco Mundial deve investir seus bilhões de dólares nas áreas de educação, saúde e promoção social é um professor francês de 50 e poucos anos, de fala calma e discurso direto. Jean-Louis Sarbib, vice-presidente do Banco Mundial para a área de desenvolvimento humano, esteve pela primeira vez no Brasil, em meados de julho, para participar do encontro, em Porto Alegre (RS), da Internacional da Educação – entidade que reúne professores de diversos países. Sarbib administra um setor prestigiado do banco. No ano passado, sua pasta recebeu nada menos que 19% do orçamento da instituição (US$ 18,5 bilhões): ou seja, US$ 3,5 bilhões. Funcionário do banco desde 1980, ele acredita que há, muitas vezes, uma visão equivocada sobre o papel que a instituição desempenha nas políticas educacionais de países pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil. “Há muito mal-entendido ao redor do mundo”, diz ele sobre a linha de políticas do banco para questões sociais. Muitos analistas dizem que as ações orientadas pelo Banco Mundial, especialmente na área de educação, têm levado a resultados no mínimo questionáveis. Sarbib, porém, reconhece que de uns tempos para cá o banco passou a olhar não apenas os balanços que, por exemplo, apontam quantas crianças estão na escola, mas também a avaliar a qualidade do ensino ofertado. “A verdadeira questão não é gastar, mas gastar bem”, coloca. No Brasil, o Banco Mundial financia dois grandes projetos de educação, o
Fundo Escola 2

e o
Fundo Escola 3

, e, recentemente, foi convidado pelo MEC para ajudar nas discussões sobre a reforma universitária. Sarbib falou à
Educação

sentado em um dos bancos do saguão de embarque do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP), enquanto esperava seu vôo para Brasília (DF), onde tinha um encontro com o ministro Tarso Genro, antes de seguir para Porto Alegre. A entrevista foi acompanhada pela coordenadora setorial de desenvolvimento humano para o Brasil, Madalena dos Santos, que dias depois voltou a falar com a revista e fez um breve balanço da viagem do executivo do banco pelo Brasil.




Revista Educação – Um dos temas polêmicos em educação é a abertura ou não do ensino superior para investimentos externos privados. Essa é uma bandeira defendida por alguns países desenvolvidos, entre eles os Estados Unidos. Os críticos sustentam que educação é um serviço público, até mesmo estratégico, e que não deve receber recursos externos. Qual é a posição do Banco Mundial?






Jean-Louis Sarbib –



O Banco Mundial considera que educação é um serviço público que deve ser oferecido a todos e deve ser custeado pelo governo, em particular a educação primária. Agora, como o serviço da educação é oferecido, uma vez financiado pelo governo, cada Estado deve decidir. Para a educação universitária, a história pode ser diferente. E há muitos exemplos distintos pelo mundo. Por exemplo, se você olhar a situação no leste asiático, na Coréia ou em lugares como a Malásia, o governo escolheu direcionar seus recursos para a educação primária e secundária e encorajou o setor privado a custear a educação universitária. Parece que, em condições específicas no leste asiático, isso está funcionando muito bem. O que é importante para nós do Banco Mundial é que cada país tenha uma política de educação que sirva aos objetivos de desenvolvimento do país. O que funciona no Brasil pode não funcionar na Argentina, o que funciona em um pequeno país da África pode não funcionar para um grande país da Ásia. Ou seja, cada país tem de encontrar suas soluções.




Como as políticas apoiadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial afetam as ações educacionais em países como o Brasil?



É muito claro para o Banco Mundial que, como nós acreditamos que educação é um serviço público, os gastos do governo devem refletir a prioridade com a educação. Assim, em muitas das ações que já adotamos em nossas políticas, nós insistimos que a alocação de recursos para a educação fosse pelo menos preservada e, em alguns casos, aumentada. Há muito mal-entendido ao redor do mundo, pessoas que acreditam que o Banco Mundial está pedindo para que os gastos com educação sejam cortados.



E não é isso?



Na verdade, é bem o contrário. O Banco Mundial pediu que investimentos em educação e em saúde fossem aumentados. A verdadeira questão não é gastar o bastante, mas gastar bem. Isso significa que os investimentos realmente beneficiem as crianças, os estudantes, que estão sendo distribuídos de maneira equilibrada entre salários dos professores e os materiais e equipamentos que o docente necessita. Então, acho que é muito importante observar a qualidade dos investimentos em educação, mas também a qualidade do ensino. Não é o bastante ter todas as crianças na escola se elas não aprendem como deveriam. Portanto, acredito que a reforma nas políticas do Banco Mundial levou a uma melhora, não apenas na análise da quantidade de recursos que são alocados na educação, mas também na análise da qualidade dos investimentos – e quão bem e eficientemente eles estão sendo usados.



O Brasil tem investido com qualidade nos últimos anos?



Eu estou no Brasil há apenas 24 horas e acho que seria muito arrogante se fizesse um julgamento. Mas, de modo geral, acho que o que se pode ver e o que os meus colegas que trabalham aqui me dizem é que o Brasil está dando muita atenção para a educação. Que houve um grande progresso no que diz respeito à quantidade, ao número de crianças indo à escola. E que a educação fundamental chegou a quase 100%. O problema agora será o que essas crianças estão aprendendo. Será uma questão sobre a qualidade. Além disso, quanto mais alunos você tem terminando o ensino fundamental, mais a pressão aumenta sobre o ensino médio e depois sobre as universidades. Por isso, é muito importante ter uma visão holística do sistema educacional. Uma coisa muito boa aqui é que os três níveis de educação estão sob o mesmo ministério, porque isso permite uma visão integral do sistema educacional. Em muitos países há ministros que cobrem educação fundamental e média e onde educação superior e pesquisa

científica estão sob outro ministério. Já conheci países onde há um ministro para educação fundamental, outro para média e outro para ensino superior. Isso

realmente não funciona.



Qual o principal foco do Banco Mundial na área de educação, hoje?



Há duas coisas: a primeira é ajudar os países em desenvolvimento a alcançar as
Metas de Desenvolvimento do Milênio

. Em especial uma cujo prazo termina no ano que vem e que diz respeito à igualdade de gêneros entre meninos e meninas e que, infelizmente, nós talvez não consigamos atingir. A outra meta é garantir que todas as crianças estejam na escola fundamental até 2015. O segundo e igualmente grande esforço do Banco Mundial é garantir que educação de qualidade esteja sendo oferecida.



Como oferecer essa garantia?



Nesse ponto, o que é absolutamente fundamental é o desempenho dos professores. Treinar os professores antes e depois de eles começarem a ensinar é absolutamente essencial. Nós estamos também olhando para o ensino médio e para o ensino superior porque é muito claro que um país como o Brasil, por exemplo, vai cada vez mais depender da habilidade de usar o conhecimento para continuar competitivo. Eu sei que um dos três pilares do plano plurianual daqui é ter um Brasil mais competitivo, igualitário e sustentável. E, não importa o que se faça, você precisará ter a educação no centro. Para ser mais competitivo é preciso ter universidades e escolas de ensino médio que formem pessoas capazes de competir com outras que são preparadas nos Estados Unidos, na Europa, na China. Para isso é preciso ter uma escola média de alta performance. Se você não dá as bases para as crianças aprenderem, mesmo antes de elas começarem a ir para a escola no início do desenvolvimento da infância, então você não vai colher todos os benefícios dos investimentos feitos em educação.



Em outros países os governantes têm dado mais atenção à educação?



Para ser sincero, eu vejo que os políticos têm horizontes a curto prazo. E o que podemos ver no curto prazo, entre uma eleição e outra, é se mais crianças estão freqüentando a escola. Para muitas pessoas, a coisa mais fácil de medir é a quantidade. Esse é o padrão de desempenho a que todo mundo presta atenção. Qualidade é muito mais difícil de medir e analisar, mas é a maneira de ver se a batalha foi vencida ou perdida.



O senhor acabou de participar da Conferência sobre Aids em Bangcoc e assim que chegou ao Brasil foi conhecer o Centro de Referência e Treinamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, de São Paulo [
SP

]. Qual sua impressão sobre o que o Brasil está fazendo?



O que me impressionou muito – e era algo que eu já sabia e que agora pude confirmar – é o esforço que o Brasil fez para lutar contra o HIV, o vírus causador da aids. Eu visitei o centro de tratamento hoje e fiquei muito impressionado com a qualidade das análises e com a abrangência dos tratamentos e da prevenção. Está muito claro para mim que muito do que o Brasil tem feito, e feito de maneira correta, nós precisamos aprender. E tentar usar essa experiência, adaptando-a a diversas partes do mundo que estão apenas começando a lutar de forma mais ampla contra o vírus HIV.



Qual foi o teor da conversa entre Sarbib e o ministro da Educação, Tarso Genro?




Madalena dos Santos –



O ministro reiterou a necessidade de apoio do banco para que o Brasil pudesse enfrentar as grandes prioridades atuais: o combate ao analfabetismo, o financiamento da educação básica. Entre as prioridades também está a questão da qualidade da educação básica – para a qual solicitou especificamente apoio do banco para a melhoria da qualificação dos professores – e a reforma do ensino superior.



Qual é o papel que o banco está desempenhando na reforma universitária?




Madalena –



O banco está preparando um seminário que será realizado em setembro na Universidade de Georgetown no Centro de Estudos Latino-Americanos [
EUA

], do qual participarão a delegação do Brasil e de outros países para debater o tema, mas também aproveitaremos a visita para discutir outros temas ligados à qualidade do ensino básico, além da reforma universitária.



Quais são os investimentos atuais do banco nas áreas sociais no Brasil?




Madalena –



O investimento em desenvolvimento humano do banco no Bra-

sil envolve dez projetos, totalizando

US$ 1,44 bilhão – representa um terço do programa do banco no Brasil, 28% do total da América Latina e 16% do investimento mundial do banco nessa área.



Além de debater sobre educação no fórum em Porto Alegre, Sarbib visitou alguns projetos sociais na cidade?




Madalena –



Ele visitou programas na área de saúde e educação. Especificamente no caso de educação, visitou o programa que tem a participação do Banco Mundial por meio do Fundo do Milênio para Educação Infantil. A experiência que conta com a parceria da Unesco e da Fundação Mauricio Sirotsky de Porto Alegre tem inúmeros outros parceiros privados e está provocando um impacto no apoio e na qualificação dos programas de educação infantil da periferia das cidades. Trata-se de uma primeira fase que deverá ser ampliada para estados mais pobres do Brasil além de Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


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