O futuro passa pela educação

FNESP | Edição 203 Ao longo dos dois dias de congresso no 17º Fnesp, especialistas do mundo todo reacenderam o debate sobre o papel …

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FNESP | Edição 203

Ao longo dos dois dias de congresso no 17º Fnesp, especialistas do mundo todo reacenderam o debate sobre o papel das instituições de ensino superior e a necessidade de ofertar uma educação de qualidade

por José Eduardo Coutelle


Inflação, retração do Produto Interno Bruto (PIB), desemprego.  A deterioração do cenário econômico se tornou um tema frequente no noticiário. De fato, o atual momento exige atenção. A notícia boa, se é que pode ser chamada assim, é que o Brasil já experimentou diversas crises ao longo de sua história e de alguma forma conseguiu retomar o caminho do crescimento. A fórmula para dar mais esta guinada em direção ao futuro tem diversos ingredientes, mas a maioria dos analistas é unânime em um ponto: é preciso oferecer uma educação de qualidade ao maior contingente possível de alunos.

“Para aumentar a taxa média de crescimento do país, inevitavelmente vamos ter de falar em educação. Este é o tema mais importante”, afirmou o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles na abertura do 17º Fnesp, que debateu o tema Economia da educação: valor da educação para a sociedade, formação de modelos e ensino.

Logo após indicar as medidas mais urgentes de curto prazo, como reduções da carga tributária, dos custos de energia e logística e da desburocratização das operações empresariais no país, o executivo financeiro revelou que o caminho para o progresso, em longo prazo, passa pelo sucesso do sistema educacional. Uma população bem instruída gera infindáveis benefícios, começando pela melhor distribuição de renda, redução da pobreza, geração de mão de obra capacitada e diminuição dos gastos com saúde e segurança pública.

Um caso que evidencia o impacto de uma política bem ajustada no setor é o de Cingapura. Meirelles lembrou que após tornar a educação uma prioridade, a cidade-estado decolou economicamente. Passou de um PIB per capita pouco menor que o do brasileiro, na década de 50, para US$ 56 mil no ano passado, o equivalente ao alcançado pelos países mais ricos do mundo. E este resultado não procede de um acaso.

Coreia do Sul e Finlândia também tornaram a educação uma prioridade e deram saltos exponenciais em praticamente todos os indicadores sociais. Apesar da difícil comparação entre os países, visto as inúmeras diferenças estruturais, geográficas e culturais, os exemplos servem para provar que o caminho é possível.

E para dar esse passo, o Brasil precisa promover a qualidade da educação ofertada em todos os níveis e, ao mesmo tempo, combater a histórica desigualdade social, fator que eleva ainda mais os índices de repetência e evasão escolar, como reforçaram diversos palestrantes ao longo do Fnesp.

Expansão com qualidade
No ensino superior, o Brasil peca pela escassez de informações confiáveis disponíveis. A puxada de orelha veio de Dirk Van Damme, chefe da divisão de pesquisa em educação e inovação da OCDE. “É preciso ter dados para monitorar a expansão do setor, e não temos os do Brasil. Desta forma, as avaliações não passam de meras opiniões”, ressaltou o professor belga.

Segundo os números de 2012, apenas 13% da população adulta brasileira tinha cursado uma graduação, o que na opinião de Van Damme é um percentual muito baixo. Esse número ganha maior relevância quando relacionado com fatores macroeconômicos e taxas de retorno. Os dados da OCDE estimam que, nos países desenvolvidos, metade do PIB tem correlação direta com a taxa de pessoas com ensino superior completo. Outra informação importante é que o número de ocupações que exigem alto nível de habilidades vem aumentando, diferentemente da tendência por serviços de baixa capacitação, que segue estável. Esses dados, aliados ao incremento de 1,6 vez no salário de um profissional com diploma superior em relação a outro com apenas o ensino médio, mostram que há um grande espaço vazio a ser preenchido no Brasil.

Porém, Van Damme destacou que uma corrida desenfreada pelo aumento do número de matrículas, aliada à inexistência de mecanismos de regulação da qualidade, pode levar a consequências desastrosas. “Caso o diploma deixe de ser relevante para o mundo externo, será muito grave para as instituições de ensino. Na Inglaterra, por exemplo, algumas empresas já pararam de exigir a necessidade do diploma para uma porção de funções”, revela o professor.

 

A missão das IES
O aumento da procura por profissionais qualificados coloca em xeque a atividade mais intrínseca de uma instituição de ensino superior: ela está conseguindo formar profissionais capazes de solucionar os problemas do futuro? Difícil ter uma resposta clara para essa questão. Na opinião de Diego Ambasz (abaixo), pesquisador em práticas globais de educação do Banco Mundial, as instituições de ensino superior têm como missão primeira formar líderes e ser um espaço de fomento a novas ideias e oportunidades. Uma possível resposta à pergunta levantada pode estar justamente no quesito qualidade, defendido por Van Damme. “A excelência fornece condições para que se resolvam as demandas do futuro”, sugere o pesquisador.

Mas para chegar a essa excelência o caminho é complexo. Ambasz ressaltou que as instituições de ensino devem vencer uma porção de desafios, que começam por não serem mais as únicas detentoras do conhecimento. E a lista segue com a inexistência ou carência de bancos de dados organizados, insuficiência nos investimentos e, principalmente, desconexões profundas entre os universos do aluno, da instituição, do mercado de trabalho e da tecnologia.

 

Big Data a favor da educação
John O’Brien, presidente da Educause – entidade que reúne 2,4 mil faculdades, universidades, empresas e outras organizações em mais de 40 países – comentou em sua apresentação que as escolas americanas sofrem com uma escassez cada vez maior de recursos e com elevadas taxas de evasão, que em algumas instituições ultrapassam a casa dos 40%. A estimativa é que todo ano 16 bilhões de dólares sejam gastos com estudantes que desistem da graduação ao longo do caminho, levando todo esse dinheiro para o fundo do ralo. O’Brien indicou uma medida simples para evitar o colossal desperdício de receita e minimizar, em parte, os impactos da situação: conhecer bem o seu aluno.

E é nesse ponto que a tecnologia pode fazer a diferença. Ferramentas de análise de bancos de dados já são comuns em outros segmentos, mas ainda engatinham no setor da educação. Com um catálogo de informações em mãos, a instituição poderá saber, por exemplo, se o aluno está feliz com o curso que escolheu, se enfrenta dificuldades com alguma disciplina, se não se sente acolhido no campus ou pelos professores ou ainda se tem saudades de casa. Analisando todos estes dados, a faculdade pode intervir antes de uma possível evasão, identificar áreas que eventualmente precisem ser melhoradas, promover maior aproximação entre aluno e coordenação e prestar qualquer tipo de serviço que eleve o nível de desempenho e engajamento dos seus discentes.

 

A figura esquecida na educação
Apesar de sua importância evidente, Mozart Ramos Neves, diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, revela que os docentes andam mais esquecidos do que nunca. “Ninguém mais forma alfabetizador neste país”, afirmou. “Um dos grandes erros da agenda do ensino superior é não considerar como fundamental a Educação Básica”, prosseguiu. A alfinetada atinge justamente as IES que, segundo ele, não dão a devida importância para os cursos de licenciatura. Para reverter este cenário, Mila Molina, gerente de projetos da Fundação Lemann, defendeu uma mudança na grade curricular e no método de formar os professores. Um modelo interessante, segundo ela, é o praticado por Stanford. Por lá, os futuros professores frequentam aulas em escolas públicas na parte da manhã e, à tarde, seguem para a universidade, onde são instruídos por um corpo docente de excelência.

 

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