O estresse pode ajudar no ensino?

Escolas e especialistas se dividem quanto aos benefícios do clima de pressão em sala de aula

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Divulgação
O Colégio Olimpo, em Brasília, tem como slogan a frase “Yes stress”

Provas difíceis, longas horas de estudo e uma grande quantidade de conteúdo. A fórmula, largamente utilizada por escolas em todo o mundo, é considerada a do sucesso e, no caso do Brasil, garantia para a aprovação no vestibular e para o futuro profissional dos estudantes.

Para manter essa fórmula funcionando corretamente, o clima do ensino muitas vezes envolve pressão, principalmente entre os alunos. Encarada de forma positiva por algumas instituições, essa pressão é vista como um treinamento para a vida futura e também uma motivação para atingir a excelência acadêmica.

É o caso do Colégio e Curso Olimpo, localizado em Brasília (DF). A instituição, que é a mais bem colocada no Distrito Federal e está entre as 30 melhores do Brasil, usa o slogan “Exigente como a vida” e cultiva o estresse motivacional. Ou seja, um estresse para o bem. No Olimpo, os alunos usam a frase “Yes stress” (Sim estresse) estampada na camisa usada como parte do uniforme.

De acordo com Rodrigo Bernadelli, diretor de ensino do Colégio Olimpo, o estresse não é uma prática pedagógica no colégio, mas eles consideram que o aluno vive em um contexto cheio de adversidades, longe de ser um “mar de rosas”, e que precisam estar preparados. “O Colégio Olimpo se compromete em ensinar ao seu aluno como se comportar em situações de estresse, tirando o melhor proveito possível de suas habilidades e competências. Práticas comuns de sala de aula, como orientação de estudo, funcionam no colégio como ferramentas anti-estresse. A simulação constante de vestibulares, que ocorre semanalmente, faz com o que o estudante se acostume com a situação de tensão do vestibular e esteja mais preparado para o dia da prova”, comenta.

O equilíbrio entre pressão e calmaria é apresentado pelo colégio como forma ideal de manter o aluno bem preparado para as situações da vida. “O estresse não é necessariamente negativo. O aumento gradativo da adrenalina melhora o desempenho físico e intelectual de maneira significativa – afinal, é para isso mesmo que serve. Quando bem usado, ajuda a superar desafios. ‘Quando o estresse é percebido como um desafio, pode despertar o que há de melhor numa pessoa’, diz a antropóloga americana Susan Andrews, autora do livro Stress a seu favor. O conselho de Susan para tirar proveito da energia do estresse é aprender a intercalar os períodos de tensão com pausas de relaxamento para se recuperar. Quem não se permite descansar acaba pifando”, afirma Bernadelli, do Colégio Olimpo.

Dois pesos, duas medidas
A pressão no ambiente escolar divide especialistas. Enquanto alguns consideram uma boa saída para preparar os alunos para as atividades futuras, outros acreditam que nem toda profissão envolve uma rotina estressante, e preparar os alunos para algo fora de sua realidade pode gerar um desgaste desnecessário. “Minha experiência docente me ensinou que cada pessoa aprende de uma forma. Há quem lide bem com o estresse (desde que dentro de um certo limite) e se sinta estimulado com um clima competitivo, por exemplo. Mas a maioria das pessoas não funciona assim”, comenta Rodrigo Travitzki, professor de ensino médio e doutor em educação pela Universidade de São Paulo com especialização em indicadores educacionais. “É preciso tomar cuidado com isso, principalmente porque agora tanto os alunos quanto as próprias escolas estão sendo cobrados pelos resultados em provas. Creio que um nível mínimo de estresse pode ser benéfico.”

O ensino tradicional, mais praticado no Brasil, cria o cenário perfeito para esse formato que prioriza quantidade de conteúdo e o posicionamento em rankings. Contudo, os pais podem procurar por instituições que ofereçam outros métodos, como o Construtivista e o Montessoriano, formatos que tentam incentivar a criatividade, argumentação e senso críticos os estudantes.

Por mais que o método pedagógico ocorra de forma diferente, a avaliação geralmente envolve a análise de competências que justificam um ensino focado em conteúdo. Na maior parte dos testes, o estudante precisa demonstrar a quantidade de coisas que aprendeu e qual é a profundidade de seu conhecimento. Somente assim ele consegue uma boa colocação na avaliação. “Quando dizemos que ‘ensinar a fazer provas gera bons resultados’, é porque os resultados são medidos justamente através de outras provas. Contudo, apesar das boas notas nos processos seletivos, muitas escolas já pré-selecionam seus alunos por meio dos chamados “vestibulinhos”. Esse formato faz uma espécie de filtro que acaba mantendo apenas os melhores alunos, mais propensos a passar nas melhores faculdades no Brasil”, afirma Travitzki, que ainda provoca: “Acho importante fazer a pergunta oposta: será que estimular o estresse na escola não vai estimular também um nível maior de estresse na vida adulta?”.

Métodos alternativos
Apesar da fórmula do estresse funcionar bem para alguns alunos e pais, há quem veja uma melhor saída no sentido contrário, usando práticas de ioga e meditação para trazer calma, concentração, equilíbrio e até uma cultura de paz para dentro das escolas.

A meditação laica já teve seus benefícios comprovados cientificamente. E a sua prática antes de provas e exames pode ser benéfica, pois alivia a tensão e aumenta a concentração na hora da prova.

Para Roberto Matheus Curli, diretor administrativo da ONG Mente Viva, a prática ajuda a melhorar o rendimento dos alunos. Atualmente, um grupo pesquisadores de Departamento de Neuropsicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) está estudando os efeitos da meditação nas crianças atendidas pela ONG Mente Viva. Como resultado, foi verificado que a criança fica mais calma, pensa mais antes de agir, tem a empatia aumentada e que essas mudanças repercutem na sociedade. “Ficou comprovado que ajuda no rendimento. Na primeira análise já observamos melhoras nas notas nas matérias que eles tinham déficit de atenção. Notas ruins por falta de atenção diminuíram muito”, conta Curli.

A ONG tem como foco principal levar paz para escolas e, para isso, realiza uma prática de meditação simples, com a repetição de algumas frases durante cinco minutos, antes do começo das aulas ou logo após o recreio. “Diversos estudos mostram a importância do clima seguro e tranquilo da sala de aula para o aprendizado”, reitera Travitzki.

O público alvo da ONG são alunos do ensino básico e fundamental, mas a prática já foi levada por professores entusiastas para o ensino médio e cursos pré-vestibulares.

O formato atual dos rankings e a busca dos pais pela certeza de ter os filhos nas melhores faculdades e nos melhores empregos, ainda faz o ensino tradicional ser o mais considerado na busca pela educação de qualidade. Contudo, deve-se considerar as particularidades de cada aluno e o que irá funcionar. Afinal, não há modelo de ensino correto, há o ideal para cada um. “É preciso lembrar que a vida da criança é muito maior do que a escola e isso é absolutamente saudável. Da mesma forma, o objetivo da escola não é produzir seres humanos que saibam fazer provas, a escola é muito mais do que isso”, completa Travitzki.

 

 

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