O embuste da formação continuada

Crivados por uma auto-estima sempre em frangalhos, aos educadores restaria clamar pelo auxílio de “especialistas” do comportamento, versão pós-moderna dos antigos moralistas

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De todas as expectativas que se conferem ao trabalho escolar atualmente, uma delas parece ter se convertido num consenso: a formação continuada de seus profissionais. Tida unanimemente como a salvação da lavoura pedagógica, a formação em serviço representa um tão possível quanto improvável alento ao minguado compromisso de educar que nos resta. Já que depositamos tão pouco crédito nas novas gerações, quem sabe investir os esforços nos mais velhos?

Quem sabe tais esforços pudessem nos redimir do constrangimento de deparar diuturnamente com a devastação intelectual que assola o país? Devastação que conta, se não com nossa colaboração direta, ao menos com nossa anuência discreta.








Essa aposta na formação profissional continuada seria legítima, caso não se ajuizasse o teor das práticas que vêm sendo levadas a cabo em seu nome. Incluam-se aí as reuniões pedagógicas semanais, as palestras e congressos sazonais, até mesmo os cursos de especialização de média duração. Muitas vezes relegadas a um sem-número de prestadores de serviços suspeitos, tais práticas vêm se revelando um embuste. Seja por seu oficialismo, seja por sua inconsistência, o fato é que elas têm redundado num saldo pífio. Qual a razão de tamanho descalabro? Eis minha hipótese.







A reboque das demandas espontaneístas da categoria profissional, alguns temas enfocados são dignos de objeção, quando não de menosprezo, já que mormente calcados no
frisson

atual da auto-ajuda. E o maior exemplo disso talvez seja um tal “desenvolvimento pessoal” do educador. Uma vez crivados por uma auto-estima sempre em frangalhos, aos profissionais nada restaria além de clamar pelo auxílio daqueles que atendem pela designação pomposa de “especialistas” do comportamento – essa versão pós-moderna dos antigos moralistas.







A título de abre-te-sésamo do “potencial criativo” que habitaria cada um de nós, as práticas em voga são audaciosas: desde aquelas que visam a espíritos livres (técnicas de sensibilização, espiritualismos etc.), passando pelas voltadas a mentes ágeis (enxurradas de conceitos psico-afins, bate-papos entusiasmados com celebridades etc.), até as fomentadoras de corpos ativos (alongamentos, relaxamentos etc.).







As táticas empregadas são bem conhecidas: o louvor exacerbado, o riso descabido ou a comoção tosca – todas elas envoltas por metáforas tão mirabolantes quanto infantilizadas sobre a profissão. Todas elas formas nebulosas de obscurantismo, de desrespeito à inteligência do interlocutor e, portanto, catalisadoras de servidão voluntária.







Tais práticas findam por cumprir o papel exatamente oposto ao que delas se poderia presumir. Elas agravam ainda mais o estado de penúria ético-política em que se encontra a educação brasileira. O que fazer? Suprimi-las de vez do horizonte – exatamente como, quiçá, acabei de fazê-lo.





 




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

e-mail:

julio.groppa@editorasegmento.com.br






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