O dia em que seremos iguais

Acordo entre países de língua portuguesa deve unificar idioma e promover alterações ortográficas também no Brasil

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Josué Machado

A reforma da língua portuguesa será finalmente posta em prática: os oito países que adotam o português como língua oficial terão a mesma ortografia. Isso ocorrerá quando já se pensava que a unificação ortográfica fora esquecida.



Foi o que decidiram em julho de 2004 os representantes de todos eles, reunidos em São Tomé e Príncipe, África, durante a visita do presidente Lula. Segundo a resolução, não será mais necessário que os parlamentos de todos os países interessados aprovem o acordo engavetado há anos. Como os de Brasil, Portugal e Cabo Verde já o haviam aprovado, ele pode entrar em vigor imediatamente.




Espantoso como um fato que pode gerar tantas implicações tenha sido ignorado. É o que diz o embaixador Pedro Mota Pinto Coelho, diretor do Departamento da África do Itamaraty, que ajudou a costurar o acordo. Não é de estranhar. A cerimônia ocorreu sem divulgação, num pequeno país africano, e os repórteres, distraídos, não souberam avaliar a importância do que ocorria. Ou olhavam para outro lado. Qualquer lado.




O que mais importa é o seguinte: teremos de escrever como os portugueses? Teremos de pegar

uma bicha de vez em quando ou tomar uma pica? Perderemos a paciência com nossos putos quando em bando a fazer bulha? (Em Portugal bicha é fila; pica é injeção e puto é tratamento carinhoso para criança.)



Brincadeiras à parte, claro que não. Será uma reforma superficial.




Eliminará alguns acentos (
leia na pág. 40

), tentará dar mais racionalidade ao uso do irritante hífen, tolerará variações na grafia de algumas palavras, para contemplar interesses portugueses, e pouco mais do que isso. Trata-se, como acusaram os portugueses desde o nascimento do projeto, em 1986, de um verdadeiro abrasileiramento da língua. Enquanto alguns aqui, mal-informados, temiam que tivéssemos de escrever à moda portuguesa, eles, acolá, também enganados, se arrepiavam ao imaginar que teriam de escrever à brasileira (à brasilaira, dizem eles), isto é, errado. No mínimo tomando certas liberdades com a colocação pronominal, como viam e ouviam com temor nas novelas brasileiras que começavam a invadir a lusa pátria. Agora parece que se acostumaram com a idéia das novelas e de que os brasileiros chegaram para ficar, alguns até com boa dose de desprezível esperteza verde-e-amarela.


Durex nele



Nem escreveremos ou falaremos como os lusos, nem eles como nós, observação ociosa, para dizer o mínimo. A unificação não influi – nem poderia – na essência da língua, no vocabulário, nas expressões nacionais ou regionais, na gíria e na alma de cada povo.




Os portugueses continuarão preferindo o verbo no infinitivo ao gerúndio: enquanto dizemos “preferindo”, eles dizem “a preferir”. Nisso não correm o risco de cair no horror da gerundite nacional bruta do “vamos estar fazendo”, “vou estar mandando” -, como virou tenebrosa moda por aqui, na cola do inglês maldigerido.




Continuarão também a chamar suas crianças de “putos” ou de “canalhas”; a ir à “retrete”, em vez de ao banheiro; a apanhar os “comboios” (trens); os “eléctricos”(bondes) e os “autocarros” (ônibus); a tomar “bica”(cafezinho) ou “garoto” (café com leite na xícara); a enfrentar “lombas transversais” (lombadas); a comer “pregos” ou “sandes” (sanduíches), a curtir uma “cavaqueira” (conversa, papo), que pronunciam “
cavacaira

“; a ir ao “talho”(açougue); a mascar “pastilhas elásticas” (chicletes); a envergar “durex” (camisinha) para se prevenir contra os perigos da vida; a “coisar”, “jogar às pedrinhas”; “molhar a sopa”; “ver o padeiro” (fazer amor, para ser sutil).




E tudo continuará como dantes.


Sem mais obstáculos



Por que dispensar a unanimidade, antes exigida, de aprovação dos parlamentos dos oito países interessados? Porque Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe enfrentaram e enfrentam problemas gravíssimos resultantes de revoluções, miséria, fome e doenças e não podiam se preocupar com a reforma ortográfica, lembra o embaixador Pedro Mota Coelho. “Nenhum desses países era contra a unificação ortográfica, como confirmamos em São Tomé. O problema é que não tinham condições internas de encaminhar o acordo.”




Antes dessa Cimeira, que é como os portugueses chamam as reuniões de cúpula (de chefes de Estado), tinha havido em maio uma reunião preparatória em Fortaleza (CE), em que os ministros da educação dos oito países prepararam esboço da resolução, assinada em São Tomé também pelo representante de Timor Leste, na Ásia, independente desde 2001.




Enfim, removidos os obstáculos, a unificação pode entrar em vigor “imediatamente”, como estabelece o
Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

, nome oficial do documento assinado pelos ministros das relações exteriores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CLPL).




Imediatamente, mas nem tanto. Como o Congresso já havia aprovado o acordo em 1995, agora o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comunicará ao seu presidente, senador e acadêmico José Sarney terem sido cumpridas as exigências para que a unificação entre em vigor. E, em conjunto com o ministro da Educação, Tarso Genro, pedirá a divulgação e a aplicação do acordo. Dentro de algum tempo, portanto, os documentos oficiais passarão a ser publicados com a nova ortografia, antecipa o embaixador Pedro Mota Coelho.


Orientar e fiscalizar



Verdade que o “imediatamente” do protocolo não será tão imediato também por causa de providências materiais para que a unificação se concretize.




É preciso, por exemplo, que as instituições nacionais encarregadas de orientar e fiscalizar o uso da língua elaborem o novo código, isto é, o novo
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

, relação de todas as palavras registradas – mais de 300 mil -, que serve de base para a elaboração dos dicionários.




No Brasil, a encarregada da tarefa é a Academia Brasileira de Letras (ABL). A ABL, aliás, acaba de preparar a quarta edição do
Vocabulário

, lembra o filólogo e acadêmico Evanildo Bechara, que por certo trabalhará na elaboração do novo. Em Portugal, a tarefa será da Academia de Ciências de Lisboa, sob supervisão do lexicólogo e acadêmico João Malaca Casteleiro.




É possível que o trabalho seja feito em conjunto; seria desperdício de tempo e energia se cada academia fizesse o seu, já que o objetivo é unificar. O consolo é que, com os recursos da informática, será relativamente fácil adaptar o
Vocabulário Ortográfico

e os dicionários à nova ortografia, embora isso represente grandes despesas em relação a reimpressões.


Do princípio



O caminho da unificação foi longo, e não terminou. Os opositores acham que a reforma ortográfica é uma tolice de quem não tem o que fazer. Lembram que o português sofre a mania de reformas desde 1908. Fora as de Portugal, só no Brasil, já houve duas, em 1943 e 1971, sempre sob a mão pesada de ditaduras. Mas há quem apresente boas razões em defesa da reforma. Seu maior defensor foi o acadêmico Antônio Houaiss (1915-1999), um de seus idealizadores.




Ele a defendeu com muito vigor por considerar que o português é a única língua de alguma importância com duas ortografias oficiais – dificuldade para que se torne de fato internacional, seja meio de comunicação eficiente entre todos os países que a adotam e possa se expandir. Assim, dizia Houaiss, o português poderá ser adotado sem dificuldade como língua oficial na Unesco. Acima de tudo – argumentava – uma só ortografia facilitará a circulação de publicações entre os países de fala portuguesa – perto de 223 milhões de pessoas – e poderá contribuir para reduzir o elevado índice de analfabetismo.




Quando acusado de defender interesses econômicos com o projeto porque – diziam – preparava um grande dicionário já com a nova ortografia para distribuí-lo em todos os países da mesma língua, Houaiss se irritou e pôs todo o fichário à disposição dos acusadores para provar que a ortografia usada era a vigente. Morto Houaiss, o bom dicionário foi lançado no Brasil em 2001, e a versão portuguesa, no ano passado em Lisboa (
leia mais sobre dicionários na pág. 50

).


Sinal de alerta



De todo modo, o potencial de leitores da língua é discutível. Basta considerar o índice de analfabetismo de Brasil e África. Cerca de 13,1% no Brasil e mais de 50% em alguns dos países da África. E não é novidade que, bem perto das capitais dos pobres países africanos de língua portuguesa e do Timor, o que se falam na verdade são os morenos dialetos nativos tribais, e o português se restringe quase só a documentos, a publicações e à pequena elite.




O mais importante é o índice real de analfabetismo: 74% – repetindo e repetindo – 74% dos brasileiros com mais de 15 anos são incapazes de ler textos longos e estabelecer relações textuais. É o que aponta o Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2003, índice obtido de pesquisa da ONG Ação Educativa, em parceria com o Instituto Paulo Monte Negro, do Ibope.




A pesquisa sobre o índice de leitura poderia ter se restringido à classe política. E seria mais fácil limitá-la à esfera federal. Quantos livros cada um de nossos queridos dirigentes políticos terá lido na proveitosa vida dedicada à Pátria e ao Povo? Afinando a pesquisa indiscreta: quantos livros cada um terá lido nos últimos três anos? Mais ainda: quantos neste ano? Ainda mais: quantos pais da pátria lêem cartas, pedidos de emprego, projetos, emendas, medidas provisórias ou seja o que for que assinam? 50% deles? 20%? 10%? Por certo os resultados não seriam muito diferentes dos obtidos pela Ação Educativa: 26% – apenas 26% – dos brasileiros adultos entendem com clareza textos que vão um pouco além de “O rato roeu a roupa do rei de Roma”.




Não que seja essencial ler e entender para tão bem defender e representar o Povo. Mas talvez ajudasse.


o mistério



Ainda que a maior parte dos falantes de português seja de analfabetos funcionais, há nesse universo uns 50 milhões de pessoas que costumam ler em nossa amada língua, incluindo portugueses e africanos – mercado nada desprezível. O fato é que a unificação representa movimento de milhões de dólares para a indústria editorial. Principalmente considerado o riquíssimo filão dos livros didáticos, comprados necessariamente aos milhões todos os anos pelo governo. Todos terão de ser adaptados à nova ortografia, depois de um prazo de carência, ainda indefinido.




Nem por isso teremos de nos desfazer de nossos dicionários e livros de referência. No entanto, mesmo que os atuais ainda sirvam , todos os interessados hão de querer os novos.




Claro que as editoras terão grandes despesas com a adaptação à nova ortografia. Mas sempre será possível repassar os custos e compensar tais gastos com a ampliação dos mercados. Que não se preocupem. O consumidor pagará.




O curioso é que o Brasil, um país de Terceiro Mundo, que produz livros com preços de Primeiro Mundo, trabalhará para vender livros a países do Quarto Mundo.


Um mistério.


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