O desafio do sistema educacional alemão

Apesar de ser uma das referências mundiais em educação, país enfrenta problema conhecido no Brasil: a falta de mobilidade social

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Estudantes jogam xadrez em projeto para melhorar a socialização e o trabalho em escola alemã: sistema consolidado, mas pouco móvel | Foto: Shutterstock

Estudantes jogam xadrez em projeto para melhorar a socialização e o trabalho em escola alemã: sistema consolidado, mas pouco móvel | Foto: Shutterstock

Comparar os sistemas educacionais alemão e brasileiro pode parecer, à primeira vista, a recordação de um pesadelo: mais um gol da Alemanha. No ranking da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2015, por exemplo, o país europeu ocupou a 16ª posição, enquanto o Brasil chegou em um distante 63º lugar. O investimento anual por aluno na rede de educação básica chega a US$ 10.267 por aluno alemão, enquanto no Brasil é de US$ 2.985.

O sistema alemão também oferece melhor estrutura, menos alunos por professores e salário mais competitivo para profissionais da área. Mas, mesmo com todas as vantagens, o país enfrenta um obstáculo relativo à mobilidade social: assim como no Brasil, um aluno oriundo das classes sociais mais baixas na Alemanha vai encontrar poucas oportunidades pa­ra ascender socialmente em relação a seus pais.

De acordo com o mais recente relatório da OCDE, Education at a Glance, apenas 20% dos adultos terminam sua educação com uma qualificação maior que a dos pais – a média da OCDE é 37%. Além disso, 22% dos alemães não chegam ao mesmo nível educacional dos pais, quando a média da organização é de 13%.

Ainda que a pesquisa seja recente, o desafio está longe de ser uma novidade no país. Em 2000, outra pesquisa da OCDE demonstrou uma forte relação entre o contexto social familiar e o nível de competência do aluno. Desde então a Alemanha tem feito esforços para oferecer um sistema mais justo, mas com resultados ainda abaixo do esperado. “O elo já não é tão forte, mas ainda hoje crianças de famílias socialmente menos privilegiadas se encontram mais frequentemente em grupos de estudantes em risco”, afirma Stefan Kühne, coordenador do Instituto Alemão para Pesquisa Educacional Internacional (DIPF em alemão).

Um fator curioso é que a Alemanha gasta menos do PIB em educação do que a média da OCDE, 4,2% contra 4,8%. Mas engana-se quem relaciona o problema da mobilidade social diretamente com o tamanho total do investimento financeiro. Ainda que a porcentagem seja menor, a economia alemã é mais forte e, por consequência, o valor total acaba sendo maior. Outro fator é que o número de pessoas com menos de 30 anos é menor na Alemanha em relação a outros países da OCDE, o que faz com que o investimento por aluno acabe sendo bem maior.

Mas ainda assim, o investimento financeiro oferece uma pista para chegar às raízes do problema. Para Andreas Schleicher, pesquisador do departamento de Educação e Habilidades da OCDE, ainda que o montante possa ser considerado satisfatório, o mesmo não se pode dizer da maneira como ele é compartilhado.

Quando levado em conta somente o investimento anual por aluno no ensino fundamental, o valor fica abaixo da média da OCDE. “O país investe muito pouco na educação infantil e no ensino fundamental e acaba gastando muito para arrumar o problema no ensino médio. É um pouco como no Brasil”, aponta.

Essa semelhança não significa que na Alemanha também existam problemas de matrícula: 99% das crianças alemãs com 5 anos estão matriculadas em escolas. No Brasil, esse índice atinge os 90,5% (dados de 2015) para a pré-escola, que recebe alunos de 4 e 5 anos. Mas, assim como no Brasil, nas primeiras etapas do ensino, o papel do setor privado alemão é decisivo. Na educação infantil, ele corresponde a 24% do investimento.

Trajetória definida
Esses fatores ajudam a constatar um cenário no qual a posição social e o potencial de investimento privado têm um impacto logo no começo da vida escolar. Ainda assim, não podem ser entendidos como os únicos motivos. Para enxergar o quadro completo, é preciso considerar também como o sistema está organizado.

Na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental, o programa curricular e as competências a serem ensinadas têm a mesma base. Porém, quando os alunos chegam à 5ª série do ensino fundamental, podem trilhar caminhos diferentes e com poucas chances de desvio de curso.

Ainda que as leis mudem bastante de estado para estado, em todo o país há basicamente três tipos de escolas: as Hauptschulen, as Realschulen e os Gymnasien. Nas Hauptschulen, o ensino é direcionado para o ensino técnico, nas Realschulen técnico e tecnológico, enquanto os Gymnasien preparam os alunos para frequentar a universidade. Na Alemanha, o aluno que terminou o ensino secundário e quer entrar em uma universidade precisa receber um certificado chamado Abitur. Mas o certificado só é concedido para quem estudou em uma escola do tipo Gymnasium.

Ainda que na teoria existam maneiras de “saltar” de uma escola para outra, ou conseguir o certificado de outra escola, na prática os casos são raros. A escolha sobre qual caminho os alunos irão seguir é feita pelo corpo docente da escola, de acordo com as habilidades que cada criança mostra. “Só que quando alunos são colocados em escolas diferentes pelo tipo de habilidade apresentado, isso é significativo para a mobilidade social”, comenta Stefan Kühne, do instituto de pesquisas DIPF.

Isso porque como esses alunos vão receber um certificado específico do tipo de escola que cursaram, as opções do futuro estão atreladas a essa trajetória. Além disso, cada escola tem ambientes diferentes de aprendizado e desenvolvimento, o que promove diferentes oportunidades pessoais, intelectuais e culturais.

E, nesse sistema, alunos que começaram na educação infantil em desvantagem em função de sua origem social têm muito mais dificuldade para conseguir abrir o leque. “É como dizer para crianças pequenas que nós vamos dividi-las entre profissionais de conhecimento e pessoas que trabalham para profissionais de conhecimento, de acordo com o resultado escolar delas até os 10 anos”, critica Andreas Schleicher.

Priorizando o emprego
Para superar esse desafio, alguns estados alemães promoveram reformas, em especial no ensino secundário, incluindo conteúdos e disciplinas para nivelar os programas curriculares das diferentes escolas. Outra ação foi a abertura de novos tipos de escola que oferecem aos alunos a opção de obter o Abitur, mesmo não estando em um Gymnasium. Mas, por se tratar de mudanças bastante recentes, há um consenso de que é preciso esperar mais tempo para analisar os resultados.

Por ser uma república federativa, os estados alemães têm bastante autonomia sobre o direcionamento que desejam dar para os temas de administração pública. Ainda assim, os órgãos federais exercem influência, não apenas através de leis federais, mas também por sua capacidade de investimento e indução financeira.

Ao ser questionado, o Ministério de Educação e Pesquisa (BMBF em alemão) respondeu às perguntas apenas por meio de uma nota oficial. Segundo o órgão, um estudante não precisa de um certificado de conclusão de curso para começar um curso técnico, mas aqueles que o têm apresentam mais chances de participar de programas de treinamento.

E, como informa a nota, esses programas oferecem uma estrutura para que jovens possam construir uma carreira de sucesso: “O treinamento inicial e continuado na Alemanha é baseado em processos reais, nos quais os participantes adquirem habilidades para atender às necessidades do cliente, assim como têm contatos com estudos sociais e culturais”.

Apesar de apresentar poucas respostas para o desafio da mobilidade social, a visão apresentada pelo BMBF é chave para compor um quadro mais completo. Isso porque o sistema educacional alemão privilegia, sobretudo, a transição do aluno para o mercado de trabalho.

Segundo a pesquisa da OCDE, o nível de desemprego entre adultos que se formaram no ensino secundário em um curso técnico chega a apenas 4,2%. Já para jovens entre 15 e 19 anos que não estão estudando ou trabalhando chega a 8,6%, um dos menores níveis entre os países-membros da organização.

Atualmente a maior parte dos estudantes formados no ensino secundário têm diplomas de cursos técnicos: 51%. O sistema apresenta ainda o modelo dual, no qual um aluno passa apenas uma pequena parte do tempo na escola e a maior parte em treinamento em uma empresa. O sistema é reconhecido como um dos mais eficientes do mundo.

E como a Alemanha tem uma classe média forte, com 58% da população ganhando entre € 2.400 e € 5.000, mesmo profissionais que se formam somente no ensino secundário têm um poder de compra considerado socialmente satisfatório e que mantém a economia aquecida.

Esses fatores contribuem para manter o statu quo do sistema, que apesar de não privilegiar oportunidades de mobilidade social e desenvolvimento cultural, promove uma transição eficiente para o mercado de trabalho e uma classe média com capacidade de consumo.

Assim, por um lado é possível constatar um ciclo semelhante à situação brasileira, em que a desigualdade social promove a desigualdade educacional, que por sua vez alimenta a desigualdade social. O contexto e os efeitos, porém, são bem diferentes.

É preciso observar no exemplo alemão, entretanto, que privilegiar cursos técnicos no ensino secundário e uma transição eficiente para o mercado de trabalho não necessariamente contribui para a superação desse ciclo.

Encontra-se, assim, outro tipo de desafio a ser superado: como oferecer possibilidades de desenvolvimento cultural e mobilidade social em um sistema que apresenta bons resultados para a economia do país. Esse gol, a Alemanha ainda está buscando.


Refugiados: mais 300 mil crianças

Crianças refugiadas afegãs em Munique, na Baviera: como elas, há outras 300 mil em idade escolar na Alemanha | Foto: Shutterstock

Crianças refugiadas afegãs em Munique, na Baviera: como elas, há outras 300 mil em idade escolar na Alemanha | Foto: Shutterstock

Outro desafio que a Alemanha enfrenta atualmente é com a chegada de refugiados. O país tem uma das políticas mais abertas da Europa e atualmente abriga 300 mil crianças refugiadas em idade escolar. Mas a ação não passa sem controvérsia. Um dos motivos é financeiro, já que o custo da educação desses estudantes pode chegar a € 67 bilhões até 2020.

Quando chegam, os alunos são imediatamente matriculados em aulas especiais, até que suas competências, especialmente na língua alemã, sejam suficientes para colocá-los nas aulas regulares. A estimativa é de que o país precisa de 10 mil a 14 mil novos professores apenas para estudantes refugiados. Nesse sentido, o BMBF promove um programa federal chamado “Educação através da Língua e Escrita”, que já distribuiu, desde 2013, 65 mil kits com livros e jogos educativos para crianças em idade pré-escolar e de ensino fundamental.

Há também o receio de que essas crianças, que na imensa maioria das vezes chegam com um baixo nível de educação formal, prejudiquem os resultados em testes internacionais. No entanto, dados da OCDE mostram que o que afeta o desempenho não é o número de imigrantes em um país, mas como esses imigrantes estão integrados na sociedade.

Stefan Kühne, contudo, é pessimista em relação ao cenário de longo prazo. Ele analisa que na conjuntura alemã novos problemas relacionados a migração e igualdade social tendem a aparecer: “Os resultados positivos conquistados na redução do vácuo educacional entre pessoas com contextos históricos diferentes tendem a definhar ou mesmo retroceder”.

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