O desafio do novo

Com o fortalecimento do uso de tecnologias na educação, presidente da National Geografic Learning/Cengage defende que a manutenção da qualidade está atrelada ao enriquecimento da experiência de ensino

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Com o fortalecimento do uso de tecnologias na educação, presidente da National Geografic Learning/Cengage defende que a manutenção da qualidade está atrelada ao enriquecimento da experiência de ensino

por Christina S. de Queiroz

185_15O uso da tecnologia pelas instituições deve ter o objetivo de transformar o processo de ensino e não somente criar a percepção de modernidade. Essa é a visão de Fernando Valenzuela, fundador do primeiro Think Tank Lab da América Latina –, iniciativa desenvolvida para produzir experiências inovadoras de aprendizagem. Valenzuela, que irá visitar o Brasil para participar do Congresso Brasileiro de Gestão Educacional (Geduc), destaca a importância de envolver os alunos mental e emocionalmente no desenvolvimento do sistema de ensino, o que tende a trazer impactos positivos não somente ao indivíduo, mas também ao planeta.

Essas premissas nortearam o processo de criação do Linnea (Laboratório de Inovação em Experiências de Aprendiza­gem), fundado no começo de 2013 em parceria com a Universidade Autônoma de Chihuahua, no México, e a National Geographic Learning/Cengage, da qual Valenzuela é presidente. Elaborado com a missão de estabelecer vínculos entre os diferentes atores envolvidos nos processos de aprendizagem acadêmica, o laboratório busca um sócio no Brasil que o ajude a desenhar projetos inovadores na área de educação.

Com forte atuação na indústria tecnológica, Valenzuela é mexicano e trabalhou no mercado de telecomunicações no qual, segundo ele, aprendeu a lidar com os desafios de infraestrutura, banda larga e segurança inerentes ao setor. Foi presidente para a América Latina de empresas como Relacom, Peppers e Rogers, Teletech, Centrobe, Sitel e executivo sênior em companhias como Hewlett Packard e EDS. No decorrer de toda sua trajetória empresarial, também trabalhou como docente em diversas instituições de ensino superior latino-americanas. Hoje, é membro do pro­grama Fellows da Wharton University em Filadélfia, da Rede Enova de CEOs na América Latina, do Centro de Política Hemisférica e do Conselho das Américas.

Ensino Superior: Quais os caminhos para criar novas formas de aprendizagem e a que tendências e desafios os gestores da área educacional devem prestar atenção para alcançar bons resultados?
Fernando Valenzuela: Os caminhos que se abrem à educação são cada vez mais diversos, por isso observamos e analisamos novas tendências de forma permanente, entre elas sistemas de ensino híbrido, sala de aula invertida, gameficação, aplicativos e plataformas abertas. No Brasil, é imperativo que as instituições sejam capazes de monitorar e assimilar essas tendências.

Pela primeira vez os países desenvolvidos e os emergentes começam esse processo de desenvolvimento desde um patamar equilibrado. Isso ocorre, pois, se de um lado as nações emergentes apresentam atrasos em suas infraestruturas, organizações sociais e plataformas tecnológicas, por outro, não precisam lidar com heranças e transformar padrões já existentes, como acontece com as desenvolvidas. Isso significa que o Brasil e outros países emergentes podem acelerar passos para integrar-se de forma efetiva na última geração de soluções de aprendizagem. Dessa forma, o desafio é igual em Londres ou em São Paulo, em Chicago ou em Bogotá.

Vivemos um momento transcendente, no qual grupos de trabalho compostos por estudantes, professores, tecnólogos, empresários, governos e gestores de conteúdo se esforçam para desenhar um futuro melhor a partir da educação centrada no aluno.

Como a inovação pode trazer bons resultados à gestão em educação? 
O futuro da educação depende da participação ativa de muitos atores. No passado, o aluno era visto como um ator passivo, que somente recebia a aprendizagem. Já na visão de futuro, o estudante interconectado é um cocriador da aprendizagem, enquanto o professor é responsável por integrá-la e a instituição por facilitá-la, avaliá-la e melhorá-la. A tecnologia, por sua vez, cumpre o papel de estender e transformar o processo de ensino. Uma experiência inovadora ocorre quando o estudante participa ativamente da sua aprendizagem e a estende ao conectá-la a um conhecimento global e à sua vida.

Poderia detalhar os benefícios que a inovação traz ao processo de aprendizagem dos alunos e também à instituição educacional?
Os resultados melhoram quando a instituição consegue ter estudantes ativamente envolvidos nas aulas. E os benefícios desse engajamento são a diminuição da evasão, maior captação de alunos, elevação de avaliações acadêmicas e facilidade de ingresso dos estudantes no mercado de trabalho.

Há inúmeros exemplos de pessoas, instituições, professores e empreendedores que dedicaram seu talento para descobrir como aportar inovação à educação. No meu caso, empreendi o caminho de potencializar a missão da National Geographic, de forma a impactar o sistema de aprendizagem. As soluções tecnológicas que criamos oferecem um conteúdo global e elementos didáticos que emocionam e aumentam a aprendizagem dos alunos. Queremos que nossa empresa seja um sócio acadêmico confiável para as instituições e aplicamos princípios de cocriação para desenhar novas experiências de ensino. O processo criativo que seguimos pretende, ainda, conectar elementos aparentemente dispersos. Por exemplo, o aprendizado formal ligado ao informal; o uso da tecnologia para acessar experiências.

Nesse sentido, minha ex­periência corporativa e a trajetória acadêmica ajudaram a pensar novos modelos de inovação, pois aprendi a aplicar a tecnologia em problemas centrados no cliente e não tratá-la como o centro da resposta.

Quando se pensa em inovar o ensino, como os gestores podem garantir que gere bons resultados educativos e financeiros à instituição? 
Inovar equivale a romper esquemas conhecidos. Por isso, é preciso realizá-lo de forma permanente, progressiva e diversa. Os princípios fundamentais que permitem gerar melhores resultados em todos os aspectos incluem: contar com a presença de equipes distintas, centralizar os objetivos no estudante e em sua experiência de aprendizagem. Também é preciso compreender que a tecnologia existe e os estudantes já se relacionam efetivamente com ela em todos os âmbitos da sua vida. Não é a falta de recursos que impede a inovação e sim questões de resistência à mudança e de assumir que os fundamentos que permaneceram intocáveis por gerações agora não valem mais.

Muitas instituições investiram em tecnologia para criar percepção de modernidade, ou seja, compraram hardware e soft­ware sem conectar essas capacidades ao desenho da nova experiência de aprendizagem. Isso significa que, em muitos casos, temos usado a tecnologia para substituir o que já conhecemos e não para estender e transformar a experiência, o que considero o maior desafio da área.

Como é possível incorporar as inovações na realidade institucional? 
É um caminho que deve ser percorrido de forma progressiva e, ao mesmo tempo, constante. Estamos diante da possibilidade de que cada estudante enriqueça sua experiência, de que cada professor potencialize a participação e a conexão entre seus alunos e de que a instituição se converta, de fato, em um espaço de geração de conhecimento. Para repensar o sistema educativo, as instituições devem envolver os alunos mais comprometidos e representativos, assim como os professores mais inquietos e inovadores. Para começar a mudar, é possível iniciar com um grupo, com um professor e com uma matéria e expandir a experiência bem-sucedida de forma gradual. E essas mudanças devem ser redesenhadas a partir da realidade de cada instituição, do perfil dos estudantes, da capacidade tecnológica, do conteúdo da matéria e das características do professor. O novo desenho se replica, as melhorias são incorporadas e as medições se refinam.

Como adaptar modelos de inovação de sucesso de outros países à realidade brasileira?
É preciso conhecer as tendências mundiais e assumir que essas tendências exigem uma transformação e personalização conforme o aluno. E o princípio de mudar o conceito de “classe” ou “curso” para uma “experiência de aprendizagem” pode orientar esse processo. A experiência de aprendizagem permite ser comparada a outras que captam a atenção e a emoção do aluno e, a partir daí, podemos desenhar elementos que viabilizem que o ensino seja tanto ou mais atrativo do que as experiências anteriores, que serviram de base ao seu desenvolvimento.

Qual a importância de eventos como fóruns de educação no desenvolvimento das instituições educativas da América Latina?
A agenda educativa nunca figurou com tanta relevância nas discussões políticas, sociais e econômicas da América Latina. A educação tem atraído investimentos e projetos, direcionando o desenvolvimento de tecnologias, análises e inovações. E acompanhar as forças que transformam a educação, bem como saber discernir quais delas são transcendentes, é um processo cada vez mais complexo, que representa um grande desafio aos gestores de instituições de ensino.

O denominador comum dos fóruns sobre educação, como o Geduc, é discutir o impacto da tecnologia nos processos de aprendizagem. Sabemos que a tecnologia está presente em tudo o que fazemos, no entanto, no caso da educação, o mais importante é utilizá-la de forma a transformar a experiência de ensino, captando a atenção e a emoção dos estudantes. Somente assim é possível conseguir um resultado positivo não apenas para o indivíduo que aprende, mas também para a sociedade e o planeta.

As gerações anteriores falharam ao não integrar a aprendizagem a aspectos fundamentais do pensamento crítico, do cuidado com o planeta, da consciência social e de uma visão global. É o momento de repensarmos essa situação.

Como o senhor avalia os processos de inovação educativa criados no Brasil? Pode dar exemplos práticos de projetos bem-sucedidos?
A educação no Brasil, assim como no mundo, ficou atrasada no que diz respeito à inovação. O pensamento crítico é outro aspecto fundamental para transformar. No país, há desafios particulares relacionados ao tipo de estudante, à disponibilidade de tecnologia, à dispersão geográfica e à capacidade dos professores.

O papel de instituições como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), sua oferta de conteúdo e a capacidade do país de atuar com ensino a distancia são os pontos positivos. Além disso, poucos países na América Latina possuem uma indústria de universidades corporativas como o Brasil. Essa tendência pode ser vista como reflexo da necessidade das empresas de compensar as deficiências na educação da sociedade, mas também é uma oportunidade única de que os mundos corporativo e acadêmico se complementem.

De forma geral, as instituições começam a se destacar quando integram a prática de investigação na sala de aula, conectam-se ao mundo, usam o inglês como ferramenta de acesso ao conhecimento e desenham experiências de aprendizagem que mimetizam outras experiências nas quais o aluno se envolve mental e emocionalmente.

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