O desafio de ser para todos

Educação brasileira se defronta com a dificuldade de atender público muito heterogêneo

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Escola municipal Tia Ciata, no Rio de Janeiro: uma das poucas concebidas com rampas de acesso para cadeirantes


Melhorar as condições da escola do ponto de vista físico e dos recursos humanos é uma necessidade, mas não resolve outro grande desafio da educação pública brasileira: afinal, a escola e os professores estão preparados para receber alunos em situação de vulnerabilidade social? Os poucos dados disponíveis são empíricos e sugerem que há muito a ser feito nesse campo.

Segundo os números divulgados pelo IBGE na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios  (Pnad), 46% dos domicílios com crianças e adolescentes de 0 a 17 anos (sobre)vive com rendimento mensal de até meio salário mínimo. Pior: em quase 20% dos domicílios com crianças, a renda não chega a ¼ do salário mínimo. A conclusão é linear: a universalização do ensino fundamental trouxe para dentro da escola um público que sofre todas as mazelas da pobreza. Com os dados, vem um alerta: quanto mais nova a criança, maior a probabilidade de estar em situação mais vulnerável, qualquer que seja a região do país.

Parte da resposta da escola à questão vem sendo dada por programas sociais que fornecem merenda, leite, livro didático, uniformes escolares e até tênis, no caso de alguns municípios. Não é pouco. O Brasil tem números babilônicos, com os maiores programas de livros e merenda do mundo.

Contudo, quando o tema é a aprendizagem, os diretores e professores têm dificuldades para lidar com situa­ções banais. Por exemplo, crianças que caem muito podem precisar de óculos, e há pesquisas médicas que relacionam até 30% das dificuldades de aprendizagem simplesmente à má acuidade visual. Mas, sem estarem atentos a essas questões ou sem ter apoio para investigá-las, pouco podem fazer.


Violência visível e invisível


Como secretária da Educação de Santo André, Cleuza Repulho viveu experiências exemplares nesse sentido. Em uma escola com um número alto de casos de inclusão para deficientes auditivos, médicos enviados pela secretaria identificaram casos de otite crônica, curáveis com antibióticos. Do mesmo modo, Cleuza também aprendeu a identificar marcas típicas de violência doméstica, como manchas nos antebraços. "Faltam profissionais que possam dar esse tipo de suporte ao professor", resume a hoje diretora de relações institucionais do MEC.

Não são poucos os problemas derivados das mazelas sociais. Segundo a Pnad 2007, apenas 54,5% dos domicílios com crianças possuíam todos os serviços de saneamento simultaneamente. Doenças freqüentes e outras carências acentuam o absenteísmo e acrescentam pedras no caminho da escolaridade.

Um diagnóstico empreendido na cidade de São Paulo, no final do ano passado, dá as dimensões da desatenção na qual crescem os alunos das escolas públicas. Depois de realizar 11.381 exames médicos em escolas públicas, os resultados davam indicação de algum tipo de tratamento para 70% dos casos. Em 434 casos, a prescrição foi de cirurgias urgentes. Junte-se a esse quadro os problemas dentários, fonoaudiológicos e psicopedagógicos.

A maior parte dos estudiosos da educação descarta uma volta no tempo, quando alguns colégios tinham até consultório dentário. "As escolas não têm de ter preocupações além de ensinar, o que já faz muito mal", alerta o pesquisador Sergei Soares, do Ipea. "Temos de organizar políticas públicas que apoiem a escola. O educador precisa saber identificar problemas, mas não pode ser atribuição dele resolvê-los", concorda Cleuza.

É difícil acreditar que o professor brasileiro, na média malpreparado, isolado em sala de aula com 30 ou 40 alunos, seja capaz de dar conta também dessa demanda, ou que os diretores, soterrados em atividades burocráticas e desprovidos do sentido de liderança, promovam mudanças no quadro. Não faltam apenas profissionais nos quadros da escola; é urgente a necessidade de interligar as redes de suporte social, para que haja uma troca de informações mais ágil entre serviços de saúde, assistência social e justiça. "Há um desencontro total, a inter-setorialidade realmente não funciona", afirma o diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educacionais da Unicamp, José Roberto Rus Peres, que desenvolve pesquisas sobre famílias de alunos de regiões carentes de Campinas e da Grande São Paulo.

Um problema crítico vivido nas escolas, hoje, é a violência. Uma enquete feita há poucos meses pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), ouvindo 684 professores, apontou como causas da violência os conflitos entre os alunos, a falta de funcionários, o consumo de drogas e álcool e a pobreza generalizada.

Sem saber como lidar com o tema, não é incomum que a escola expulse o aluno e seja obrigada a rematriculá-lo por determinação do Conselho Tutelar, num jogo de empurra. À questão se devem acrescentar os problemas de desestruturação familiar que batem à porta da escola. "Que esperar de pais que trabalham o dia todo e às vezes têm pouco mais de 20 anos?", pergunta o pesquisador.

Os estudos de Peres, no entanto, demonstram que os pais das áreas de vulnerabilidade não estão tão afastados da escola como se pensava. "Encontramos um percentual alto de pais que conhecem o diretor, o professor, a escola", diz. Contudo, a baixíssima escolaridade dessas famílias limita sua forma de participação. É o típico caso das escolas que mandam circulares para casa de pais analfabetos.


Novos papéis


A mudança de paradigma da escola requer também uma redefinição do papel de todos, inclusive dos bedéis e dos demais funcionários, que também são educadores, em alguma medida. "Nas escolas, são raras as reuniões que tratam do conjunto dos alunos, quase sempre se fica em  casos isolados", diz o pesquisador.

A solução dos problemas não passa apenas pela contratação de mais pessoas para os quadros funcionais dos estabelecimentos de ensino. É preciso saber quais são as demandas específicas, por exemplo, de apoio às dificuldades de aprendizagem.

Nesse quadro, o papel do diretor é essencial, avalia Peres. "Temos um problema de liderança, e não é culpa do educador, mas da sua formação." Para ele, é o gestor que deve encontrar formas de conduzir os problemas específicos da comunidade que freqüenta a escola, que deve mudar de paradigma, aceitando a idéia de que é responsável por educar as novas gerações para uma convivência efetivamente democrática. "A diversidade só é fácil de compreender enquanto está no papel", arremata Cleuza Repulho.

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