O desafio de pensar

Segundo formulador, proposta da Base para a área de matemática busca mudar a visão em relação à disciplina, normalmente vista como um conjunto de técnicas e procedimentos

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Em vez de decorar regras, alunos devem aprender os conceitos, enfatiza o texto da Base

Uma matemática provocativa, que ofereça respostas a problemas sociais e seja fonte de modelos para fenômenos que cercam os estudantes, envolvendo questões cotidianas como a estrutura de uma caixa de sapatos, ou o desenho que descreve uma bola de futebol ao se chutar uma falta. Essa é a proposta que rege o campo da matemática no texto de referência da Base Nacional Comum Curricular. O mundo abstrato da matemática se relaciona ao mundo físico e real numa via de mão dupla, na qual o mundo inspira o conhecimento abstrato, assim como conceitos abstratos podem oferecer respostas a problemas do mundo real.

Marcelo Câmara, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador da equipe que redigiu o texto de referência da área de matemática, conta que o trabalho da comissão começou com a análise das propostas curriculares dos estados e de vários municípios que o MEC tem em sua base de dados, além de alguns textos internacionais. Segundo ele, não houve grandes dissensos entre os membros da sua equipe, mas é sabido que a proposta enfrenta algumas resistências. “A principal dificuldade é como se vê a matemática. Para muitos, a matemática é um conjunto de técnicas e procedimentos, mas para nós – e no texto da Base – ela é uma forma de pensar”, diz, explicando as divergências.

Segundo essa visão, o mais importante é o aluno aprender conceitos em vez de decorar regras. “Os professores, de forma geral, estão mais acostumados com a reprodução de técnicas. A gente pretende mudar isso, fazer o aluno utilizar o raciocínio – e pode ser o numérico, o algébrico, o combinatório, o probabilístico etc.”, diz. Para Câmara, essa metodologia é melhor para o aluno, pois ele se torna capaz de resolver problemas. “Hoje, pode até ”saber” certos conteúdos, mas não é capaz de usar na prática, aplicar o que ”sabe” para resolver algo da sua vida.”

Na Base, o ensino da matemática foi dividido em cinco eixos: geometria; grandezas e medidas; estatística e probabilidade; números e operações; álgebra e funções. Cada um deles vai ganhando ou perdendo peso de acordo com a progressão das séries.

Marcelo chama atenção para uma especificidade da matemática em relação às ciências naturais, ou mesmo à geografia: ela é um objeto de estudo abstrato. “Você pode aprender o que é uma ilha ou uma célula olhando, estudando algo concreto. Os objetos matemáticos não existem no mundo físico, eles são acessíveis apenas por representações – não há um objeto palpável. A matemática é uma forma de pensar”, diz.

Embora seja essencialmente abstrata, a matemática vem da nossa vida real, do dia a dia. “O texto tem um cuidado especial com as crianças pequenas, porque elas não têm capacidade de abstrair. Isso vai se expandindo, até chegar ao ensino médio, quando já conseguem pensar abstratamente”, afirma Câmara. Para fazer uma boa progressão, o documento foi escrito por blocos e não por anos, relatou.

Essa divisão tão clara entre conteúdos, porém, não agradou a todos. Ao analisar o texto de referência da BNCC, Márcio Antônio da Silva, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), constata falta de diálogo entre os vários componentes curriculares, e até mesmo entre os eixos da mesma disciplina. “Na Base, os direitos de aprendizagem estão desvinculados um do outro, mas desde 1996 a LDB traz a orientação de interdisciplinaridade. É incoerente vir esse texto tão forte na divisão de disciplinas”, critica.

Como contraponto, há quem defenda, como Antônio Augusto Batista, do Cenpec, que o melhor meio para chegar à interdisciplinaridade é partir de um profundo domínio disciplinar por parte dos professores de cada área.

Menos é mais?

Silva também se pergunta o que os professores devem fazer com orientações anteriores e discorda da redução de conteúdos. “Elas (as orientações oficiais anteriores) traziam mais subsídios do que essa.” E embora saiba que o texto da Base deva ser complementado, acredita que o recado para o professor e para as secretarias é que só o que constar lá já basta. “É muito pouco. O que pode acontecer, com o tempo, é uma simplificação, temas vão sair dos livros e deixar de ser ensinados. Como orienta políticas públicas, com certeza terá influência. Será uma porta fechada para que se ensinem determinadas coisas. E por que ensinar certas coisas e outras não?”, questiona.

Mas Câmara ressalta que a Base não é o currículo: “Quem faz o currículo é o professor”. Segundo ele, os livros didáticos atualmente trazem de tudo, sob a alegação de que o professor escolhe o conteúdo. “Mas os professores – e os pais também – veem como se fosse para dar conta de tudo. No ensino médio, é um massacre: são toneladas de conteúdos sem nenhuma articulação com a vida”, diz.

O coordenador da área reconhece que o primeiro passo para a Base fazer diferença é chegar ao professor, que precisa ser engajado para se apropriar do espírito do texto. “As mudanças que a Base propõe passam por um processo de tomada de consciência de que a matemática não deve ser um caldeirão de coisas que a gente despeja sobre os alunos. Tem como objetivo um aluno que pensa, não um repetidor de regras”, diz.  

A meta é que o aluno aprenda bem o que for fundamental. “Hoje a gente passa muito conteúdo, ele não aprende nada. Estamos perdendo tempo, dinheiro e o jovem. Porque ele vai embora.” De acordo com Câmara, o que está na Base pode ser facilmente assimilado pelo professor, porque são coisas que já estão no repertório docente.

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