O desafio da inclusão

Último Censo do ensino superior permite identificar o que ainda falta para incluir mais jovens na graduação

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Censo do ensino superior indica que, apesar do crescimento, ainda é baixo o percentual de jovens universitários e revela o que ainda falta para colocar na faculdade o potencial contingente de brasileiros

por Svendla Chaves

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Mais de sete milhões de candidatos estão inscritos para realizar no final de outubro o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – o que significa que esse é o número de brasileiros em potencial para entrar numa faculdade em 2014. Na prática, no entanto, o ingresso deverá ser bem menor, se acompanhar o crescimento médio apontado pelo mais recente Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em 2012, os ingressos somaram 2,7 milhões de alunos, aumento de 17% em relação ao ano anterior e de 92% na década.

Embora os índices de crescimento pareçam altos, a demanda reprimida também é: ainda há muito a ser feito para garantir que ao menos 33% dos jovens brasileiros estejam numa universidade em 2020, conforme meta do Plano Nacional de Educação (PNE), que tramita no Congresso. Hoje esse índice gira em torno de 15%.

Estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que, apesar de as taxas de escolarização do ensino superior terem aumentado nos últimos anos no país, o percentual de pessoas entre 25 e 34 anos que havia concluído a graduação em 2011 (13%) continuava muito abaixo da média da OCDE (39%). O organismo é formado pelos países mais industrializados e também alguns emergentes como México, Chile e Turquia. “Até a Bolívia tem proporcionalmente mais jovens universitários do que o Brasil”, lembra Oscar Hipólito, reitor da Anhembi Morumbi. “Se não houver um sistema arrojado que realmente coloque o ensino superior como prioridade, não vamos atingir a meta do PNE em 2020”, alerta.

Um plano efetivo
Para Gilberto Garcia, presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE), a meta estabelecida no PNE é “matemática” demais, não considerando as peculiaridades do país. “Seria importante definir exatamente qual o passivo existente. Já temos uma quebra na passagem do ensino fundamental para o ensino médio. Os cursos técnicos também estão crescendo bastante” Para o conselheiro, não há uma causa única para a situação brasileira. “Não faltam esforços públicos e privados para ampliar o número de alunos na universidade”, comenta.

Nos resultados do censo, o Inep enfatiza que “a proporção de ingressantes para cada dez mil habitantes, na maioria das áreas do conhecimento, é superior à média dos países da OCDE”. Um dos pontos realçados é a área de engenharia, produção e construção, que apresentou 18,8 ingressantes para cada dez mil habitantes brasileiros em 2012, contra a média de 15,3 na OCDE. Esse dado viria ao encontro da significativa demanda do mercado por profissionais de engenharia.

A força das particulares
O censo confirma a forte presença das instituições de ensino particulares na educação superior: 73% das matrículas de 2012 foram realizadas na rede privada, totalizando mais de cinco milhões de alunos (veja gráfico na página seguinte). Apesar da grandeza, o setor ainda não é visto com o mesmo prestígio da rede pública.

Segundo Paulo Cardim, reitor do Centro Universitário Belas Artes, uma certa antipatia com as escolas privadas em todas as esferas de governo está entre as razões que impedem a expansão no Brasil. “Quando o governo não consegue expandir as universidades públicas, sufoca o ensino particular para que também não tenhamos crescimento”, lamenta o reitor.

Cardim cita como exemplo o papel do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) na avaliação e consequente financiamento dos cursos. “Quando uma escola recebe nota abaixo de 3, perde o acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e ao Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento das Instituições de Ensino Superior (Proies), ficando praticamente impedida de funcionar. Só que muitas vezes o que faltou foi comprometimento dos alunos, que não são responsabilizados por isso”. Para o reitor, o governo aparece muito mais como fiscal do que como incentivador da qualidade.

Em apenas seis estados o número de estudantes matriculados em instituições públicas é maior que nas particulares: Acre, Pará, Roraima, Tocantins, Santa Catarina e Paraíba. O consultor em ensino superior Celso Frauches sinaliza que o volume de potenciais alunos no Nordeste brasileiro com certeza supera a oferta de vagas (veja gráfico na página ao lado). “Esse quadro não se espelha em matrículas em razão do viés econômico da região”, explica Frauches, ressaltando o financiamento como um dos problemas ainda a ser equacionado para incluir mais alunos no ensino superior.

Para Gilberto Garcia, a expansão de vagas nem sempre tem sido bem equacionada entre todas as regiões. “É preciso uma indução política mais estudada da distribuição das vagas no país. O censo do Inep deve ser um instrumento para isso, com uma ampla análise científica dos dados”, sugere o conselheiro.

Problema anterior
As etapas do ensino no Brasil servem como marcos para que se avaliem as lacunas no avanço da educação. Mais de 90% das crianças entre seis e 14 anos estão matriculadas no ensino fundamental. Na próxima faixa etária, de 15 a 17 anos, já aparecem distorções no desenvolvimento escolar: embora o número de matriculados seja maior que 80%, pouco mais de 50% estão no ensino médio.

Outra janela de fuga aparece nos dados do Enem. Em 2012, o índice de abstenção na prova chegou a 28% – ou seja, boa parte dos inscritos sequer comparece ao exame. “O número de alunos que fazem Enem nunca vai coincidir com os ingressantes no ensino superior enquanto a nota do exame não for obrigatória no processo seletivo das instituições particulares”, assinala Suli de Moura, diretora acadêmica da Faculdade Santa Marcelina (Fasm). A professora destaca dois segmentos de alunos que interferem nos números: aqueles que não aderem ao Enem, pois querem estudar em uma instituição que não utiliza este dado no processo seletivo, e os que realizam o Enem e não conseguem pontuação para ingressar em universidade pública – e não têm condições financeiras de ingressar em particular.

“O censo mostra mais de 2, 7 mil ingressantes. Supondo-se que todos fizeram o Enem (o que não é verdade) a taxa de sucesso seria 64%. A questão é para onde vai esse um terço que não ingressou”, salienta Carlos Monteiro, consultor educacional da CM. “Os próximos anos devem revelar um maior número de estudantes no exame que, por sua vez, está cada vez mais seletivo em razão da própria concorrência entre os estudantes.”

Os grandes vilões
Além dos jovens que não ingressam no ensino superior, dois outros dados são relevantes para entender a baixa formação acadêmica no Brasil: as taxas de evasão e o tempo de permanência dos estudantes nas classes universitárias. O número de alunos que abandona o curso ou leva muitos anos para se formar é significativo e pode ter efeito também no equilíbrio financeiro das instituições. Segundo o consultor Celso Frauches, comparando-se o número de concluintes com ingressantes, o Brasil tem um desempenho muito fraco, não conseguindo evitar a evasão. “Nossos resultados estão abaixo do obtido pelos países de mesmo porte na América do Sul e também pelos demais componentes do BRICS”, afirma Frauches.

Segundo os dados do Inep, ingressaram no ensino superior brasileiro 1,5 milhão de estudantes em 2002. Considerando um período médio de formação de cinco anos, seria de esperar que boa parte deles estivesse terminando a graduação em 2007 – mas o número de concluintes no ano foi 806 mil. E a tendência se mantém: os ingressos em 2007 chegaram quase a 2,2 milhões; os formados em 2012, menos de 1,1 milhão.

Carlos Monteiro diz que a evasão é a mais terrível doença organizacional das instituições brasileiras, tornando-se o maior obstáculo para o crescimento das matrículas. Em 2012 foram 2,8 milhões de ingressantes e 1 milhão de concluintes. Supondo-se evasão zero, haveria crescimento de 1,8 milhão de alunos e estaríamos próximos de nove milhões de matrículas. “No entanto, o censo mostra apenas 7,3 milhões. Resultado: o sistema cresceu apenas 300 mil, pois o restante ‘ninguém sabe, ninguém viu’”, ironiza Monteiro.

Onde vão parar todos esses estudantes que não se graduam? Por que desistem ou prolongam os cursos? O maior índice de evasão é nos primeiros meses. Vários especialistas afirmam que a questão financeira não é o fator preponderante nesse caso. “Nas pesquisas internas o item ‘não tenho condições financeiras’ aparece em primeiro lugar, mas quando o aluno realmente gosta do curso e quer ser um profissional da área ele consegue recursos”, conta Suli.

É uma relação custo-benefício. Quando há quebra de expectativas do aluno e de sua família com o curso e com a instituição de ensino, seja por atendimento ruim ou por disciplinas que não parecem atrativas, a impressão é de se estar desperdiçando recursos. Recursos que são valiosos demais, considerando a situação econômica da maior parte das famílias brasileiras.

Se a dificuldade de permanência se apresentasse somente no setor privado, seria mais fácil detectar os motivos de evasão, mas o problema também atinge a rede pública. “É preciso levar em conta a questão vocacional; os alunos se desencantam com o curso com o tempo. Antes as áreas eram mais definidas, e os nossos jovens estão cada vez mais imaturos para tomar decisões referentes à carreira”, explica Garcia.

Os cursos de bacharelado interdisciplinar, ainda em desenvolvimento, têm sido uma alternativa na redução da evasão. Cursos mais curtos, como os de tecnologia, também ajudam a manter os jovens nas salas de aula. Nesse quadro, as instituições particulares precisam estar atentas ao orçamento. A evasão impacta o planejamento financeiro das escolas, que se programam para atender aos ingressantes. Também o prolongamento do curso causa prejuízos, afetando a eficácia do sistema. “Essas são questões de gestão e acompanhamento”, conclui Hipólito.

Carlos Monteiro acredita que as instituições estão se profissionalizando, entendendo o aluno como cliente e dando mais atenção ao atendimento, considerando os diversos aspectos que contribuem para a evasão, e indica outro ponto a ser trabalhado. “A questão financeira é apenas uma das variáveis dessa realidade. O desencanto, a falta de expectativa e as metodologias ultrapassadas são condicionantes importantes a serem trabalhados”, recomenda.

Qualidade na base
Uma barreira relevante tanto para o ingresso quanto para a permanência dos estudantes na formação superior é a deficiência escolar. Muitos jovens não conseguem obter pontuação nos processos seletivos ou, quando passam, têm dificuldades para acompanhar os estudos na universidade, em razão do descompasso entre o ensino médio e o superior.

“O que tenho observado nas últimas duas décadas é que os jovens que vêm das escolas públicas não se acham capazes de competir com os egressos das particulares, que estariam mais bem preparados”, conta Celso Frauches. O especialista aponta que a formação docente é uma grande dificuldade no incremento da educação básica, com evasão nos cursos de licenciatura, professores mal pagos e sem plano de carreira, que não são cobrados no compromisso com os resultados. “Falta empenho do governo na qualidade da formação docente. Também há problemas de remuneração e ambiente de trabalho”, denuncia.

Frauches não parece esperançoso quanto à solução desses entraves, afirmando que a dificuldade está no fato de o ensino básico ser de responsabilidade de estados e municípios – o governo federal teria de intervir para avaliar a qualidade do trabalho que vem sendo feito.

As soluções de longo prazo também são uma reivindicação de Paulo Cardim. Para ele, os governos precisam trabalhar com planejamento e gestão na educação, em horizontes de 15 a 20 anos. “Não podemos ficar sujeitos a improvisações e interesses momentâneos de um ou outro governo.”

Na hora de pagar a conta
Diversas opções oferecem aos estudantes de menor renda a possibilidade de ingressar na rede privada. Se o ProUni já se tornou bem conhecido pela população, os sistemas de financiamento, no entanto, ainda são muitas vezes desconhecidos ou temidos pelos candidatos, que têm receio de contrair dívidas com a formação superior. “As instituições de ensino levaram um tempo até entender que o financiamento é uma das principais formas, se não a principal, para o crescimento do setor. A próxima barreira que precisamos quebrar é disseminar a informação aos potenciais alunos”, afirma Carlos Furlan, diretor executivo da Ideal Invest, responsável pelo crédito universitário PraValer. De acordo com ele, ao se levar em consideração que 60% dos inscritos no Enem não pagaram a taxa de inscrição, uma prerrogativa para quem não tem renda ou vem de escola pública, é possível concluir que quase dois terços do total dos estudantes que pleiteiam uma vaga na faculdade têm problema financeiro para pagar um curso superior. Assim, uma das formas mais eficientes para alavancar o acesso é oferecer algum tipo de financiamento. Oscar Hipólito concorda que uma das grandes dificuldades dos alunos para ingressar na universidade é financeira. O reitor lembra que faltam recursos aos estudantes não apenas para pagar a mensalidade do curso, mas para todos os gastos necessários nesse período. “O financiamento tem de prever também a permanência do aluno no sistema”, defende Hipólito, que é contra o mecanismo de bolsas não restituíveis. “Essa medida não resolve, pois encarece o sistema. O melhor a fazer é oferecer financiamento que o aluno deva restituir. No Chile, por exemplo, mais de 90% dos alunos do ensino superior têm seus estudos financiados”, conta.

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