O conceito de ensino

O propósito de produzir a aprendizagem é o ponto de partida para a sua definição

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Gostaria de propor uma breve reflexão sobre um tema que, paradoxalmente, parece fora de moda na educação: o ensino. Já há algumas décadas que os discursos educacionais se voltam prioritariamente para a aprendizagem, o desenvolvimento psíquico, o protagonismo de jovens e crianças, deixando de lado o ensino e seu agente profissional: o professor (que, sintomaticamente passou a ser chamado de facilitador da aprendizagem, de mediador do conhecimento…).

Numa definição ao mesmo tempo sumária e fecunda, o filósofo norte-americano Israel Scheffler caracteriza o ensino como uma atividade cujo propósito é a realização da aprendizagem, sendo praticado de maneira a respeitar a integridade intelectual do aluno e sua capacidade de fazer juízos independentes. Aparentemente estamos em face do óbvio, mas há aqui elementos que merecem consideração.

O primeiro deles é o fato intrigante de que a classificação de um ato como ‘ensino’ não é possível a partir da simples descrição de um conjunto de procedimentos diretamente observáveis. Uma pessoa a declamar uma poesia está ensinando algo a alguém? A resposta sempre dependerá de um contexto e de um propósito. Esse mesmo ato pode ser parte de uma encenação teatral, uma declaração de amor, um ato político ou uma aula de literatura. O que faz de um gesto, de uma palavra ou observação crítica um ato de ‘ensino’ é seu propósito de produzir a aprendizagem e o contexto que o justifica, nunca uma técnica ou prática isolada.

E se assim o é, podemos pensar que a formação de professores implica mais fortemente uma preparação intelectual que vise compreender os propósitos educativos e os contextos institucionais nos quais se inserem nossos atos de ensino do que um treinamento em técnicas, práticas ou competências individuais.

A observação de Scheffler nos sugere ainda que há uma importante diferença formal entre ‘ensinar’ e, por exemplo, ‘doutrinar’ alguém. Em ambos os casos, o resultado pode ser funcionalmente análogo: alguém passou, por exemplo, a crer na verdade de uma afirmação ou teoria que até então desconhecia ou em que não acreditava. Mas o conceito de ensino não se define só pelo seu resultado final. Ele faz apelo a um tipo de procedimento específico: o respeito à integridade intelectual e ao juízo independente do aluno a quem se ensinou. Assim, ‘ensinar’ implica que, ao tentar fazer com que o aluno acredite que as coisas são deste ou daquele modo, tentemos fazer com que ele o creia por razões que, dentro dos limites de sua capacidade de compreensão, são nossas razões. Ensinar exige, pois, que revelemos as nossas razões, que apresentemos nossos argumentos, que sustentemos nossas opiniões e justifiquemos nossas escolhas perante nossos alunos, o que não é verdadeiro para ações como doutrinar ou treinar.

Nessa perspectiva, ‘qualidade de ensino’ não se mede somente a partir dos resultados aos quais se chegou, mas faz necessária referência ao modo pelo qual lá se chegou. 


José Sérgio Fonseca de Carvalho

Doutor em filosofia da educação pela Feusp

jsfc@editorasegmento.com.br

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