Exumação da família imperial une ciência e história

Em 2012, a análise dos restos mortais da família que governou o Brasil deu vida a novos conhecimentos históricos e ampliou as possibilidades de estudos científicos

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*Matéria publicada originalmente em 23 de setembro de 2013
Fábio Nascimento
Exumação de D. Pedro I, em abril de 2012: exames concluídos recentemente desmentiram informações difundidas por biografias

 

O furgão branco entra vagarosamente no pátio do Hospital das Clínicas, o maior complexo hospitalar do país, em São Paulo. Uma equipe de 12 médicos, incluindo radiologistas, patologistas e especialistas de diversas áreas da medicina, aguarda com ansiedade a frágil paciente, que é cuidadosamente encaminhada para realizar uma série de exames. É noite do dia 20 de março de 2012 e o ambiente está impregnado de sigilo e entusiasmo. O equipamento de tomografia computadorizada está regulado para obter uma imagem com dez vezes mais resolução do que o usual, a fim de garantir dados precisos para a posterior análise clínica. Delicadamente, a paciente é posicionada para iniciar os exames. Seu nome de batismo é Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo Lorena. Ela tem 215 anos e é mais conhecida como Imperatriz Dona Leopoldina.

Um mês depois, na noite de 20 de abril de 2012, dá entrada também no HC o paciente Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Entre os médicos o clima de mistério e excitação se renova. O senhor é um pouco mais jovem, tem 214 anos, e entrou para a história como Dom Pedro I, o homem que proclamou a independência do Brasil. Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais, a segunda esposa de Dom Pedro I que em vida atendia por Dona Amélia, repete a insólita madrugada de exames médicos na noite de 10 de agosto de 2012.

Ossos do libertador
Concebida como estudo de mestrado em arqueologia e etnologia pela historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, a exumação dos restos mortais da família imperial brasileira deu vida a novos conhecimentos históricos sobre os ilustres personagens e ampliou as possibilidades de estudos científicos no Brasil.

O inovador trabalho uniu as ciências humanas, exatas e biomédicas. Da cripta do Parque da Independência, em São Paulo (SP), transformada em laboratório de pesquisa por cerca de 20 especialistas em física, história e medicina, emergiram literalmente das cinzas informações surpreendentes e se confirmaram outras já supostas. Do esquife de D. Pedro I foi possível confirmar, de imediato, que o primeiro imperador do Brasil foi mesmo enterrado, e não cremado, como diz erroneamente o próprio texto no Monumento à Independência, no Ipiranga. Revelou-se também que ele foi enterrado como Dom Pedro IV de Portugal, com vestes militares, insígnias e medalhas de ordens lusitanas, sem qualquer referência ao seu legado brasileiro.

A areia encontrada junto com o imperador comprova suspeitas anteriores que indicavam que um pouco de terra da cidade do Porto havia sido depositada em homenagem a Dom Pedro I por ele ter liderado o Cerco do Porto, episódio da guerra civil pela disputa do trono português ocorrido entre 1832-1833. Dos laboratórios da Faculdade de Medicina da USP saíram ainda novidades que só os exames de ressonância magnética e tomografia computadorizada poderiam elucidar: Dom Pedro I teve fraturas em quatro costelas. Relatos da época já davam conta de dois acidentes a cavalo, em 1823 e 1829, ambos sofridos no Rio de Janeiro (RJ). O mérito do estudo é o de justamente comprovar os textos antigos e acrescentar novas informações, reescrevendo detalhes da história do Brasil.

Vestido real
Enquanto o caixão de Dona Leopoldina ia e voltava no equipamento de tomografia computadorizada, as primeiras imagens digitalizadas começaram a desvendar um misto de boato e lenda que já durava mais de 180 anos. Embora a biografia da Imperatriz, publicada em 1973 por Carlos Oberacker Jr., não desse veracidade ao assunto, desde 1826 circulava a história de que Dona Leopoldina teria sido agredida por Dom Pedro I e quebrado o fêmur. Graças à exumação e aos exames feitos pela equipe do Instituto de Radiologia da USP, constatou-se não haver fratura no fêmur e nem em nenhum outro osso da primeira imperatriz brasileira.

O que ninguém, nem em boato, algum dia mencionou e agora veio à tona é que Dona Leopoldina foi enterrada com a mesma roupa usada na coroação de Dom Pedro I. As potentes imagens da tomografia conseguiram revelar até os enfeites de prata da indumentária. Ao ser comparado com pinturas da época retratando a cerimônia, verificou-se que o manto preto é, sem dúvida, o mesmo. “Para mim, o grande momento veio ao analisar a ossada de Dona Leopoldina. Já era madrugada alta e eu estava indo embora, quando me chamaram, com um livro de história nas mãos. No livro, havia um retrato de Leopoldina, com um belo vestido. Olhei a imagem do tomógrafo e o que vi me emocionou: todos os detalhes, os ornamentos do vestido, estavam ali. Foi como unir ciência e história, algo que não acontece todo dia”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo o médico e professor da Faculdade de Medicina da USP Carlos Augusto Pasqualucci.

A múmia oculta
Retirada a tampa do féretro de Dona Amélia, ainda dentro da cripta do Parque da Independência, uma espécie de lençol branco cobria os restos mortais da segunda esposa de Dom Pedro I. Enquanto gradualmente levantava e dobrava o lençol, a pesquisadora Valdirene do Carmo Ambiel esboçou um sorriso por trás da máscara que tapava parcialmente seu rosto, misto de surpresa e satisfação: em vez de ossos e materiais decompostos, a estudiosa encontrou a segunda imperatriz brasileira perfeitamente mumificada.

A pele, embora enegrecida, revelou-se conservada. Assim como os cabelos, cílios, globo ocular e unhas. Os exames de imagens constataram também a preservação dos órgãos internos. Dona Amélia casou-se com Dom Pedro I em 1829, e viveu no Brasil até 1831. Devido ao pouco tempo de permanência em solo nacional, tornou-se uma figura histórica quase desconhecida, o que só aumenta a curiosidade sobre sua personalidade e os motivos pelos quais teria sido mumificada – hábito que não era comum na nobreza lusitana.

Devido ao ineditismo da descoberta, o corpo de Dona Amélia foi novamente “remumificado” pela própria pesquisadora Valdirene, utilizando composição semelhante à original. Com o auxílio de algodão e gaze, a solução química foi passada no rosto, pescoço, mãos, pés e nas laterais da imperatriz. Um visor de vidro foi adicionado ao caixão de Dona Amélia, permitindo que, a partir de agora, pesquisadores possam observar seu estado de conservação.

Estudos futuros
A inédita exumação de Dom Pedro I e suas duas esposas abre novas possibilidades na preservação da memória cultural do Brasil e amplia as alternativas de pesquisas científicas. De imediato, os medalhões, insígnias e botões encontrados no caixão do primeiro imperador do país, assim como pedaços de roupas coletados nas três urnas funerárias, serão expostos ao público. Segundo a Secretaria Municipal da Cultura, provavelmente os objetos poderão ser vistos pela população no próprio Monumento à Independência, na capital paulista. Tal exposição, todavia, será a parte fácil do que vem pela frente.

Ineditismo
O desafio que se descortina aos cientistas e pesquisadores brasileiros está relacionado às possibilidades que a tecnologia do século 21 permite. De acordo com a historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, os exames médicos e os estudos clínicos permitirão reconstituir o rosto dos três personagens históricos, o jeito de caminhar e até mesmo suas vozes. Os trabalhos envolverão especialistas em arqueologia e biomedicina e seus possíveis resultados são inéditos no Brasil. Para alcançar tal façanha e conseguir simular estatisticamente as faces de Dom Pedro I, Dona Leopoldina e Dona Amélia, os estudiosos precisarão tabular as informações coletadas de cada osso e cruzar com a média da população humana, conseguindo assim estimar a gordura e pele em cada ponto do rosto.

Técnica semelhante poderá ser aplicada para recriar o timbre da voz dos personagens históricos, a partir da reconstituição dos seios da face, faringe, laringe, amplitude do pulmão e caixa torácica, elementos que interferem na formação da voz humana. Um trabalho complexo, demorado e que precisará envolver muitos especialistas.

As alternativas também animam os médicos da Faculdade de Medicina da USP. A partir da experiência de exames laboratoriais, o médico Carlos Augusto Pasqualucci comentou ao jornal Estado de S. Paulo a possibilidade de realizar autópsias virtuais, o que tornaria o trabalho menos agressivo. O médico já sonha com outros personagens históricos do Brasil sendo examinados na calada da noite.

Esquecido Ipiranga

Um dos objetivos do estudo da historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, para além das questões históricas e científicas, é chamar a atenção da própria população brasileira. A pesquisadora acredita que se as pessoas souberem melhor o que significa o Monumento à Independência – e o que há dentro dele – os personagens da história do Brasil serão mais valorizados e, como consequência, o poder público terá a obrigação de preservar o monumento, que atualmente enfrenta sérios problemas de conservação. Situado na capital paulista, o Parque da Independência, às margens do riacho Ipiranga, marca o local onde Dom Pedro I declarou a independência do Brasil, em 1822.

A ideia é ancorada na realidade. Nos fins de semana, o parque recebe a visita de centenas de frequentadores, entre famílias, pessoas que vão passear com seus cachorros, e grupos de skatistas. Muitos, de fato, desconhecem a existência da cripta e dos restos mortais da família imperial brasileira.

Construída em 1953, a cripta recebeu no ano seguinte o caixão da Imperatriz Leopoldina. Em 1972, atendendo a um pedido do governo militar à época no poder, o monumento então recebeu os despojos do imperador Dom Pedro I. No período mais violento da ditadura militar a cerimônia cívica foi também um gesto político, ao marcar a comemoração dos 150 anos da independência do Brasil. Dez anos depois do triunfante traslado do corpo de Dom Pedro I, em 1982 a cripta do Ipiranga recebeu os restos mortais de sua segunda esposa, Dona Amélia. 

 

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