O caqui

E a história da visita a Bréscia

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Convidaram-me a fazer a palestra de encerramento num evento sobre a "Carta da Terra" na cidade de Bréscia, na Itália. Pediram-me que falasse sobre os "Jardins", meu tema favorito. Não só meu. A se acreditar nos poemas bíblicos, o criador criou o universo só para nele plantar um jardim, o paraíso.

Lembrei-me das duas telas de Dürer, nas quais ele pintou Adão e Eva, os seres paradisíacos. São telas de rara beleza. Exceto por três equívocos do pintor. Primeiro, colocou umbigos na barriga de Adão e de Eva. Por isso, poderia ter ido parar na fogueira. Porque esse detalhe é, claramente, uma blasfêmia, posto que nega o que diz o texto inspirado. Umbigos só existem em seres nascidos de mães. Mas Adão e Eva não nasceram de mães. Nasceram das mãos do criador. Portanto, não tinham umbigo.

Segundo erro: Adão e Eva foram pintados ainda no seu estado de inocência. As maçãs que têm nas mãos ainda não foram mordidas. Portanto, como diz o texto bíblico, estavam nus e não se envergonhavam. Assim sendo, não existe razão alguma para que sejam pintados colocando o precário galho com uma maçã na ponta sobre as partes mais interessantes do corpo.

E, em terceiro lugar, o pintor pintou a maçã como sendo o fruto proibido. O que está errado. O fruto proibido tinha de ser um fruto de potência sedutora máxima. O que não é o caso da maçã. A maçã é fruta pudica. Não se despe por vontade própria. Só tira a roupa sob a violência da ponta da faca. E ainda geme quando é mordida. Comer uma maçã é sempre um estupro.

O fruto proibido, segundo entendo, foi o caqui. O caqui inteiro é tentação. É só olhar pra ele para que ele diga: "Me coma…".  E basta relar o dedo nele para que ele se dispa e seus sucos vermelhos comecem a escorrer.

Na minha fala diante do sério auditório e valendo-me da minha vocação para palhaço, fiz essa brincadeira. No dia seguinte recebi um telefonema de uma pessoa que eu não conhecia. Convidava-me a visitar um prédio que em tempos passados havia sido um mosteiro para 200 freiras. Aceitei o convite e fui na hora marcada. Ele me levou então para o jardim interior do mosteiro e me contou a seguinte história: "Depois da bomba atômica que matou 200 mil pessoas em Hiroshima e torrou todas as coisas vivas, houve uma árvore que sobreviveu. Era um caquizeiro. Esse caquizeiro passou a ser, então, um símbolo do triunfo da vida sobre a morte.  Os japoneses cuidaram dele, colheram seus frutos, plantaram suas sementes e espalharam suas mudas por muitas cidades do mundo". Uma das cidades agraciadas com essa dádiva
fora Bréscia, onde estávamos. E a mudinha fora plantada naquele jardim. Estávamos diante dela. Eu estava diante de um caquizeiro descendente daquele de Hiroshima…

Senti-me como Moisés diante da árvore que incendiava sem se consumir… Com medo de estar fazendo um pedido impróprio, perguntei se me seria permitido apanhar três folhas do caquizeiro. Ele disse que sim. Apanhei as folhas. Coloquei-as dentro de guardanapos de papel para desidratá-las. Depois, pintei-as com verniz para preservá-las do contato com o ar. A seguir levei-as a uma loja especializada e mandei fazer um quadro.

As folhas estão agora na minha parede. Quem só vê o quadro não entende: as folhas não têm nenhuma beleza especial… Então eu conto a estória…


Rubem Alves


Educador e escritor



rubem_alves@uol.com.br

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