O caminho apócrifo

Depois de expulsar o lobo, o porquinho Prático chama os irmãos: “Vamos formar nossa banda de jazz!”

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Adélia Prado confessa ser uma católica herege. Diz que o seu caminho é apócrifo. E explica: caminho apócrifo é entender a palavra pelo seu reverso. Não é coisa de doidos, mas dos inteligentes, como Galileu. Pois não é óbvio que o desejo do pêndulo é o repouso? O pêndulo vai, volta, cada vez o arco que descreve é menor. Até que pára e repousa. É isso que nos diz a experiência. Então o Galileu diz o absurdo: que o desejo do pêndulo é não parar nunca. Girar sem parar. Haverá coisa mais contrária ao senso comum que o princípio da inércia? A ciência progrediu graças àqueles que viam ao contrário.









E a sociologia? Peter Berger, um dos poucos sociólogos que leio com prazer, diz que o sociólogo é uma pessoa que, diante da porta de uma casa de família respeitável, põe o olho no buraco da fechadura, certo de que está acontecendo uma orgia. Nisso os sociólogos se parecem com os psicanalistas, que vêem com canto do olho.

A verdade é sempre o contrário…O filósofo polonês Leszek Kolakowski escreveu um delicioso artigo,
O Sacerdote e o Bufão

. Diz ele que são tipos que se encontram em todas as sociedades. Os primeiros são aqueles que acreditam nas aparências e as sacralizam. Os bufões, ao contrário, levantam as saias das aparências e caem na risada. O riso acontece quando se vê ao contrário. Nessa arte os grandes especialistas foram os mestres Zen. Seu prazer era dar rasteiras no pensamento.









Eu sempre tive a vocação para os caminhos apócrifos, em que poucos andam. Gosto de pensar ao contrário. Movido por esse impulso tenho me dedicado a reescrever as estórias infantis ao contrário. A dos três porquinhos, por exemplo. Ela diz que o porquinho sério era o Prático, que fazia coisas úteis, sólidas casas de pedra e cimento. Seus irmãos, o Flautista e o Violinista, eram irresponsáveis. Não tinham senso da realidade. Gastavam o seu tempo inutilmente, fazendo música.

A moral da estória é: não se deve confiar nos artistas. Pois eu fiquei bravo e a reescrevi ao contrário. Dei-lhe um novo fim. Depois de expulso o lobo, o Prático deu uma gargalhada e trouxe para a sala algo que nunca havia mostrado aos seus irmãos: um contra-baixo novinho! E revela seu verdadeiro ser: “Vamos agora formar a nossa banda de jazz!” Nesse final ao contrário, a estória diz que todas as coisas práticas existem por causa da beleza.









Faz muitos anos chamou a minha atenção a estória do Pinóquio. Ela diz que os meninos nascem de pau e se obedecerem a seus pais e forem à escola se transformarão em meninos de verdade. Gepeto mandou o Pinóquio à escola. Mas ele não foi. Desobedeceu. Foi seduzido pela vocação de artista. Quase se transformou num burrinho, com orelhas grandes e rabo. Quem não vai à escola fica burro. É a mesma trama do filme
Sociedade dos Poetas Mortos

. O jovem queria ser artista. Seu pai, que ele fosse médico. O fim, todos sabemos.









Pensei então em escrever a estória do Pinóquio às avessas: um menino de carne e osso que, depois de passar pela escola, se transforma num boneco de madeira. Depois de 25 anos, finalmente a escrevi. Não é para as crianças. É para ajudar pais e educadores a ficar desconfiados e começar a ver ao contrário…




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