O brasileiro que calculava

Conheça o mestre que ensinou matemática por meio da literatura

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Faoze Chibli




 


As obras de Malba Tahan venderam mais de dois milhões de exemplares, mas pouca gente sabe que ele era brasileiro. Talvez por que ele jamais assinasse o seu verdadeiro nome: Júlio César de Mello e Souza, um professor carioca nascido em 1895 e autor do célebre
O homem que calculava

(Record, 304 págs., R$29,90), hoje em sua 55ª edição. Talvez por causa da impressão de realidade provocada por suas obras profundamente impregnadas de cultura árabe. O pseudônimo foi criado para furar o bloqueio dos jornais, que davam mais destaque a artigos de estrangeiros.

Em reconhecimento à sua importância como pedagogo, o presidente Getulio Vargas autorizou-o a usar o nome árabe na carteira de identidade, ampliando ainda mais a crença em relação à origem oriental. O alter ego de Júlio César se cristalizou de tal forma que até nos Parâmetros Curriculares Nacionais para ensino da arte cita-se:


“Malba Tahan, um dos mais importantes educadores brasileiros no campo da matemática, disse, no início da década de trinta, que a solução de um problema matemático é um verdadeiro poema de beleza e simplicidade”.


O personagem principal de
O homem que calculava

, Beremiz Samir, consegue grandes vitórias materiais e espirituais por meio da matemática. Conquista a confiança e gratidão das pessoas, ao apaziguar conflitos de maneira justa e precisa para todos. Dessa forma, Júlio César demonstrava a utilidade prática dos cálculos e embutia a mensagem de que a pessoa dotada de um entendimento exato do mundo possui vantagem sobre seus semelhantes.


Ele acusava os professores de matemática de sadismo. Em sua opinião, os mestres gostavam de complicar tudo desnecessariamente. Filho de professores, quando pequeno teve dificuldades com matemática – na época em que se mudou para a cidade de Queluz (SP). Depois se tornou ótimo aluno e até vendia redações sobre assuntos variados aos colegas, para complementar a mesada do pai. Como professor, lecionou outras disciplinas, mas enveredou pela matemática, recorrendo à poesia para facilitar a memorização e até a compreensão de conceitos. Chegou a procurar o célebre ator Procópio Ferreira [1917-1978], para receber aulas de arte dramática.


O interesse pela cultura de seus personagens levou-o a aprendeu a ler e escrever em língua árabe. Assim, adquiriu repertório literário suficiente para construir histórias e situações com sabor de autenticidade. Em termos pedagógicos, era considerado por intelectuais da época um homem à frente de seu tempo. Chegou a ministrar os Cursos de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento do Ensino Secundário como se chamavam, promovidos pelo Ministério da Educação. Experimentava manipular de objetos durante as aulas, para atender aos alunos chamados táteis. Defendia a criação de laboratórios de matemática e combatia a atribuição da nota zero.



Um mestre a ser redescoberto –
Apesar da escassez de informações sobre Júlio César, há importantes registros sobre ele, como a dissertação de mestrado
Do menino “Julinho” à “Malba Tahan”: Uma viagem pelo Oásis do Ensino da Matemática

. O trabalho foi desenvolvido por Cristiane Coppe de Oliveira, coordenadora do curso de matemática da Universidade de Guarulhos e conselheira do Instituto Malba Tahan, criado em Queluz (SP) no ano passado. O instituto procura apoio para ampliar suas atividades e digitalizar as obras do educador. Segundo ela, a principal fonte de informações sobre a pedagogia de Júlio César é a obra
Didática da matemática

, em dois volumes não editados. Para Cristiane, a matemática árabe é marginalizada em relação à grega. Ela acredita que uma releitura da obra de Júlio César contribuiu para fazer justiça à importância histórica da civilização árabe.


Cristiane apurou que Júlio César era um homem “sozinho” e “muito mal compreendido”. Apesar do reconhecimento oficial, ele era arrojado demais. Ainda hoje há um abismo separando suas idéias da realidade das salas de aula. Era muito requisitado para conferências, nas quais fazia defesas apaixonadas da matemática. Ele considerava o povo árabe inigualável na arte de narrar histórias e no interesse em ouvi-las. Em 1974, fazia uma palestra para normalistas sobre essa prática, no Recife (PE). Concluiu a apresentação e retornou ao hotel, onde se sentiu mal e faleceu. Ao que consta, em razão de um enfarte. Malba Tahan só saiu do Brasil para visitar Lisboa, Montevidéu e Buenos Aires. Nunca esteve no Oriente.


 


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