O bicho-homem e os outros

Um cão e uma vassoura fazem críticas aos seus donos, na obra de Orígenes Lessa

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Entre as décadas de 1970 e 1980, o jornalista e escritor Orígenes Lessa (1903-1986) se dedicou a livros para crianças e jovens. Foi prolífico nessa área: chegou a publicar mais de 40 títulos naquele período. Dois dos mais marcantes acabam de ser relançados. Um deles é uma fábula cujo protagonista é o melhor amigo do homem, o outro conta as aventuras de um cabo de vassoura. Em primeira pessoa, as duas narrativas delineiam e criticam traços do comportamento humano.


Já pensou sobre os futuros mais temidos por um pedaço de madeira? O pinho que narra Memórias de um cabo de vassoura adverte: “Destino de lenha é fogo!”. Mas nem todos os troncos de árvore têm essa sina ingrata ou a incômoda rotina ser o piso de uma casa. Há os que viram caixote e viajam pelo mundo ou os que são transformados em portas de palácio, mastros de navio… Uma coisa é certa: “Parece que a natureza toda é dominada pelo homem. Madeira que o diga… Felizmente madeira ele não come. Mas é raro o fruto de árvore que lhe escapa”, diz o personagem, que acaba salvo da rotina da limpeza pelas mãos e imaginação de uma criança. Cabe ao leitor descobrir como.
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A escrita objetiva e irreverente de Lessa também é a marca nas Confissões de um vira-lata. No livro, o narrador onisciente está indignado com a sempre irônica condição da convivência entre humanos e cães. Afinal, por que cachorro é, além do melhor amigo do homem, um xingamento? Por que todo bicho vira sobrenome, menos cão e burro? E por que existe a tal coisa como uma coleira nessa amizade? “Pelo que eu observei, ao longo do meu latir pela vida, a frase devia ser
modificada: o homem é o maior amigo do seu cão.Gosta do que é dele, raramente suporta o dos outros”, provoca o canino.


Uma boa oportunidade de revisitar ou apresentar aos mais jovens a obra de Lessa, as novas edições incluem glossários com as palavras e expressões que compõem o estilo bem-humorado do autor, que certamente não gostaria de “dar uma rata” no leitor ou deixá-lo com a “cara enfarruscada” de tanto “fundir a cuca” tentando adivinhar o que
ele quis dizer ao longo da história. “Sacumé?”


Saiba mais:
Memórias de um cabo de vassoura, de Orígenes Lessa, ilustrações de Avelino Guedes (Global, 104 págs., R$ 25)


Confissões de um vira-lata, de Orígenes Lessa, ilustrações de Orlando Pedroso (Global, 104 págs., R$ 25)

Outras leituras:

A fome do lobo, de Cláudia Maria de Vasconcellos, ilustrações de Odilon Moraes (Iluminuras, 44 págs., R$ 38)
Um lobo acorda faminto, disposto a comer qualquer animal da floresta. Mas o que acontece quando a inteligência dos outros bichos faz com que o caçador chegue ao fim de seu dia sem se alimentar? A perspicácia do rato, do porco-espinho, do sapo, do jabuti e do touro leva essa fábula a um desfecho inesperado.


Canta sabiá, de Giselda Laporta Nicolelis, ilustrações de Nilton Bueno (Formato, 24 págs., R$ 27,50)
Clara cuida com esmero de seu pomar e acompanha a movimentação dos sabiás-laranjeira que fazem seus ninhos por lá. A rotina dela muda quando nasce uma sabiá-semialbina, que acaba enfrentando alguns problemas em seu hábitat por ser diferente dos outros de sua espécie.


Galante: poesia e arte, texto e ilustrações de João Proteti (Cortez,
80 págs., R$ 24)
“É simples e científico. / Se você não está comigo / não existo.” Valendo-se de rima e desenho, o autor fala sobre temas como o amor, a decepção e a solidão. Juntas, palavras e imagens compõem os poemas. É o caso de “Fases”, em que a lua cheia representa o tamanho do sentimento do eu-lírico.

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