O “arquivo morto”

A Ponte é um eterno recomeço, lugar e tempo de crescimento pessoal e profissional e de algum sofrimento

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Nos anos 80, fui coordenador (eleito, não nomeado…) de um programa de formação. Deambulei por escolas, conheci o trabalho de muitas centenas de professores. Encontrei práticas dignas de atenção e de estudo. Mas estive quase sempre possuído por um sentimento de déjà vu.

Durante o tempo em que desempenhei a função de coordenador, não deixei de trabalhar na minha escola. Reservava algum tempo para partilhar o trabalho com alunos e para reunir com pais e professores. Porém, como não estava permanentemente na Ponte, entendi ser conveniente que alguém assumisse a coordenação, função que me estava cometida, mas que, na circunstância, eu não poderia desempenhar satisfatoriamente. 

Quando voltei a estar a tempo inteiro na Ponte, dirigi-me à sala onde havia deixado materiais para formação. Quatro anos antes, eu tinha deixado as estantes dessa sala repletas de livros e dossiers contendo a fundamentação do projecto e fichas de estudo sobre assuntos de natureza pedagógica. Agora, estavam alinhados nas prateleiras grossos dossiers, que eu jamais havia visto. Pensando tratar-se de materiais de estudo, aproximei-me e li as lombadas: "Arquivos de Diários da República – II série", "Arquivo morto – Alunos". Os livros tinham sido encaixotados.

Compreendi que a minha escola se aproximava, perigosamente, do que eram outras escolas e do que a Ponte tinha deixado de ser. Reagi. Não como quem vive de recordações, mas num movimento oposto: imaginei o que poderia ser a Ponte, dali a vinte anos, decidindo o que fazer no momento. Vinte anos depois, a Ponte é referência de qualidade e inspiração para muitos professores. Porém, recentemente, voltou a correr o risco de se transformar num "arquivo morto" (aquilo que se consegue construir em anos pode ser destruído em dias).

A Ponte é um eterno recomeço, lugar e tempo de crescimento pessoal e profissional e de algum sofrimento. Nas escolas que recusam mudar, o sofrimento é de outro tipo. As estantes que enfeitam os gabinetes dos directores e as secretarias estão repletas de "arquivos mortos": circulares, diários da república, facturas, processos disciplinares, pautas de classificações, arquivos de sumários de aulas, actas de reuniões, mapas estatísticos, dossiers de faltas dos professores, arquivo de justificações de faltas, dossier dos horários dos professores, dos alunos.

Essa tralha administrativa acrescentará algo à qualidade do trabalho feito com os alunos? Não creio. Para além do desgaste que a burocracia provoca e do pouco ecológico desperdício de papel, não vejo o que acrescente. Apenas sustenta inúteis hierarquias e rituais. Em fraternais conversas, compreendi as dificuldades que muitos professores de escolas com "arquivo morto" manifestavam, quando passavam a trabalhar na Escola da  Ponte:

"Ó colega, eu não sei trabalhar como vejo fazer nesta escola. Vou precisar de fazer um curso!"

"Mas não fez o curso de professor?"

"Fiz. Mas só sei trabalhar no ensino tradicional, só sei dar aulas…"

"Então, vá dar aulas, colega. Aliás, vai precisar de dar muitas aulas para compreender como é inútil ‘dar aulas…’"

Neste acolhimento da pessoa inteira do professor recém-chegado, talvez tenham sido dados os primeiros passos para acabar com "arquivos mortos" em muitas escolas.



José Pacheco Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal) 



josepacheco@editorasegmento.com.br

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