O “apreendedorismo”

Empreender, na profissão e na vida, está em relação direta com o aprender

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Ler milhares de livros sobre o empreendedorismo não produz um único empreendedor. A iniciativa humana no mundo do trabalho, para trazer bons resultados, depende de elementos e circunstâncias que ultrapassam nossa capacidade de planejar e negociar. Nenhuma carreira profissional ou empreendimento arrojado dispensarão essas duas dimensões, mas além do planejamento e da negociação é preciso também “planejar” e “negociar” o nosso aprendizado.

De nada vale insistir no empreendedorismo, sem menção ao “aprendedorismo”, disposição para aprender a fazer o melhor (o valioso), dentro de nossa condição de seres falíveis e perfectíveis. Empreender (na profissão e na vida) está em relação direta com o aprender.

Aprender, em primeiro lugar, o que há de falacioso na proposta do empreendedorismo mágico, que se baseia no falso ideal do sucesso a qualquer preço. Ou do sucesso visto como algo inevitável, bastando agir desta ou daquela maneira vitoriosa…

Um “guia politicamente incorreto do empreendedorismo”, de Leonardo de Matos (Alta Books Editora, 2014), pode ajudar a desfazer essa miragem. O seu título tem uma só palavra: Quebrei. Poucos são os que concretizam plenamente o sonho do sucesso. Quebrar é natural.

O autor se apresenta como alguém que sofreu o fracasso de diversos modos, e soube extrair dessa dura experiência algumas “desilusões” saudáveis. É bom perder ilusões. Muitos fracassos, aliás, não ocorreriam ou não seriam tão desastrosos, se aprendêssemos a admitir a derrocada como um dado da realidade:

Antes de qualquer coisa, é importante frisar que você não é o primeiro e, infelizmente, não será o último a quebrar. Inúmeros empreendedores continuam com as portas abertas, simplesmente por teimosia, ou porque não conseguem, ou não têm coragem de admitir que quebraram. Afinal, é uma vergonha imensa assumir o papel de falido.

O aprendedorismo nos ensina que somos quebráveis. E tal convicção sobre esse fato constitutivo de nossa vida profissional requer a humildade de reconhecer as perdas e, eventualmente, a dolorosa ruína.

O negócio da leitura
Ler é um trabalho de “desilusão”. De crescimento e amadurecimento. A leitura sistemática sobre diferentes temas dará ao “empreendedor aprendedor” subsídios e critérios para tomar decisões com mais prudência. Lembrando que prudência, segundo a filosofia clássica, é virtude empreendedora, na medida em que nos habilita a descobrir os melhores meios para alcançar os melhores fins.

Uma empresa, seja em que ramo for, terá maiores chances de prosperar se tiver uma biblioteca para seus funcionários. Uma sala ampla e confortável, com livros novos e antigos, abarcando temas que vão da economia à arte, da filosofia à arquitetura, livros de poesia, e romances, e as obras de autores imprescindíveis, um local de leitura onde todos pudessem, diariamente, alimentar a inteligência, exercitar a imaginação, e, nesse contexto corporativo, descobrir quem é o cliente, aprendendo a conhecer o ser humano, como nos sugere essa passagem da obra Os caracteres, de La Bruyère, publicada faz três séculos, e no entanto muitíssimo atual:

Sabei exatamente o que podeis esperar dos homens em geral e de cada um em particular, e em seguida lançai-vos no comércio do mundo.

Leitura constante, de qualidade, provocadora, vale mais do que palestras superficialmente motivadoras. Investir numa biblioteca produzirá melhores efeitos na preparação do gerente, do supervisor, do vendedor, do executivo e do faxineiro. E o negócio lucrará mais!

O empreendedorismo educacional
O que vale para todo tipo de empreendimento vale ainda mais para os empreendimentos educacionais, incluindo-se aqui escolas públicas e particulares, e a própria carreira dos professores.

Não basta sonhar em trabalhar na docência, ou em fundar uma escola, ou em abrir novos espaços culturais e educacionais. Sonhar é pouco. E pesadelos também entram nessa categoria… geralmente quando perdemos a hora e acordamos tarde demais.

Deveríamos ser, aliás, especialistas em aprendedorismo. Que consiste, entre outras coisas, numa atitude de real abertura para o que a realidade nos diz. A realidade nos diz, por exemplo, o que bem traduziu Baltazar

Gracián no ponto 204 de seu livro A arte da prudência:

O que é fácil deve ser empreendido como algo difícil, e o que é difícil como fácil. No primeiro caso, para que não haja excesso de confiança. No segundo, para que a insegurança não atrapalhe.

Outra vez a palavra “prudência”. Quem aprende como a realidade “funciona” (e é com frequência de um modo paradoxal que as coisas acontecem) sabe o quanto precisa encontrar modos inteligentes de agir.

É difícil lecionar, é difícil administrar um colégio, é difícil lidar com o dia a dia da sala de aula, é difícil viver num país em que as decepções no campo da educação se multiplicam e configuram um quadro de falência. Mas temos de tratar essas dificuldades com a leveza de quem acredita que não são coisas tão difíceis.

O problema maior está em considerar como de fácil solução a dificuldade real, a que se esconde na linguagem pedagógica (talvez a palavra “demagógica” fosse mais adequada) de documentos oficiais ou de interessantes teses de doutorado…

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