O amoroso silêncio

Lembranças do dia em que a música Aquarela ganhou uma interpretação ainda mais colorida

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Mario Sergio Cortella*






Poucas vezes, nas duas décadas mais recentes, deixamos de ouvir nas escolas, especialmente nas de educação infantil, a gostosa música
Aquarela

, de Vinicius de Moraes e Toquinho, interpretada pelo último, este grande ─ negando o quase carinhoso apelido ─ compositor e violonista.







Seja nas festividades da primavera, seja no aniversário da escola, seja ainda pela mera e essencial alegria, é muito comum as crianças ensaiarem intensamente durante semanas, com a paciência e vitalidade pedagógicas que a docente ou o docente precisam ter. Até que, no especial dia, os pequenos vestidos com múltiplas cores e segurando adereços que lembram flores e matizes, ecoam plenos de beleza pelo prédio os versos iniciais: “
Numa folha qualquer / Eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / É fácil fazer um castelo

“.







Nos meus caminhos como educador, há trinta anos visito escolas como colega, palestrante ou, com maior freqüência, na condição de gestor público da educação municipal paulistana que fui. Por isso, pude assistir a dezenas e dezenas de momentos nos quais alunas e alunos nos brindaram com essa música, cantando felizes e exultantes, passando pelos versos finais
“Vamos todos numa linda passarela / De uma aquarela / Que um dia, enfim, descolorirá”

até repetir a frase inicial, encerrando a canção, mas deixando a emoção perdurar.







 


No entanto, essa emoção que advém de infantes cantarem, engravidando nossos ouvidos e olhos com a possibilidade do simples belo, foi em certa ocasião infinitamente multiplicada por um falso e proposital silêncio. Infante é uma palavra originada do latim e significa “aquele que não pode falar ou que ainda não fala”. Mas e quando não-falar é escolha amorosa?







Era uma festa de comemoração pelo término da reforma completa de uma escola pública destinada a crianças portadoras de deficiência auditiva; por coincidência, a festa comunitária foi na sexta-feira que antecedia o Dia das Mães naquele ano de 1992 e, por isso, os dois motivos se agregaram de forma solene na quadra esportiva transformada em palco a céu aberto.



Mal começa a celebração, alto-falantes reproduzem o disco com Toquinho cantando
Aquarela

e lá vem uma classe inteira postar-se frente ao tablado onde estávamos. Para a surpresa dos que não conhecemos bem o trabalho e o mundo dos que têm surdez profunda, todas as crianças dançaram os sons e a melodia encheu-se de movimentos.







Porém, o que mais chamou a minha atenção foi um menino bem maior do que os outros e que dançava animado, na ponta lateral do grupo, usando a linguagem de sinais para um casal sorridente que tudo acompanhava na beira da quadra. Curioso, perguntei à diretora quem era aquele que parecia estar muito fora da faixa etária do restante.







Contou-me ela: não era surdo. Estava aprendendo e aquarelando também ali para poder se comunicar sempre com os pais, pois, eles sim, nada ouviam.




 






*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.





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