O aluno 41

Um bom colégio de São Paulo teve uma ideia original e simples: se jovens estudantes têm dificuldade para avaliar as consequências de suas ações, que tal se um espião lhes desse a dica?

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Os diretores do Colégio Móbile, em São Paulo, procuram manter as classes do primeiro ano do ensino médio com no máximo 40 alunos. Às vezes a classe fica com 36 alunos, às vezes com 42, mas o alvo é 40 alunos. No entanto, na classe com 36 alunos, há uma 37ª pessoa, e ela parece mais velha; na classe com 42 alunos, há uma 43ª pessoa, e ela parece mais velha; na classe com 40 alunos, há uma 41ª pessoa, e ela parece mais velha. Repetente? Não. É o “aluno 41”.


É um jovem universitário, em geral estudante de pedagogia ou de psicologia, e é uma espécie de espião. Os diretores do colégio, assim como os professores, não usam nenhuma palavra de sentido negativo para rotular esse aluno 41 – nem espião, nem dedo-duro, nem bedel. Mas ele está lá para tomar notas – caso algum aluno faça qualquer coisa não esperada para o momento, vai parar no bloco de notas do aluno 41, e talvez tenha de comparecer a uma reunião na diretoria, e talvez até tenha de comparecer a essa reunião acompanhado dos pais. É quando diretores, pais e aluno terão uma daquelas conversas sobre o futuro.


Na verdade, os diretores do Colégio Móbile tiveram uma boa ideia, uma dessas ideias que só funcionam caso sejam simples ao extremo. Eles queriam mostrar aos alunos que seu comportamento em sala de aula se reflete nas notas. Como os alunos são muito jovens, e como acabaram de chegar do ensino fundamental (onde eram tratados como… crianças), muitos deles têm dificuldade para avaliar as consequências do que fazem. Como mostrar isso a eles com clareza? É fácil: dentro de cada sala, o aluno 41 anota todo e qualquer comportamento que seja diferente do comportamento geral. Todos estão rindo, menos o Flávio? Anote o nome do Flávio. Todos estão sérios, mas só a Mônica está rindo? Anote o nome da Mônica. O professor diz algo, todos se curvam sobre a carteira para anotar o que ele acabou de dizer, menos a Bia? Anote o nome da Bia. Enfim: se o aluno fez diferente, anote a circunstância e anote seu nome.


Porca memória
Quando o projeto começou, em 2006, vários pais ficaram desconfiados. “Como pode”, diziam eles, “uma escola que nem tem inspetor de alunos nos corredores colocar um bedel dentro da sala de aula?” Numa reunião, alguns pais chamaram o aluno 41 de “big brother”.
Eles mudaram de ideia assim que saíram as notas do primeiro bimestre. Os responsáveis pelo Colégio Móbile compararam as notas de prova com as anotações dos alunos 41. Os estudantes que conversavam ou riam fora de hora, os que não tomavam notas, os que não entregavam a lição de casa, os que não faziam os exercícios – tais estudantes tiraram notas baixas. As notas eram especialmente baixas nas matérias mais difíceis – matemática, física e biologia.


Maria Helena Bresser, a diretora do Colégio Móbile e autora da ideia, diz que, fazendo tudo isso no primeiro bimestre, o aluno tem tempo para perceber o que está fazendo consigo mesmo e para corrigir o comportamento. Rodrigo Mendes, professor de biologia e coordenador dos alunos 41, diz que um número mostra o sucesso do projeto: antes do aluno 41, 30% dos estudantes do primeiro ano do ensino médio abandonavam a escola ainda no primeiro ano. Depois do aluno 41, só 5% abandonam a escola. “Alguns saíam porque haviam sido reprovados”, diz Rodrigo. “Outros saíam porque tinham passado de ano raspando. Eles achavam mais prudente procurar uma escola menos exigente antes que fosse tarde demais.”


Rodrigo diz que, com frequência, o jovem de 15 anos costuma confiar demais na memória. No ensino fundamental, ele tomava poucas notas, mas mesmo assim ia bem nas provas. Quando chega ao ensino médio, ele tende a repetir o mesmo comportamento. Acha que anotar somente o que está na lousa está bom. Na verdade, ele deve aprender a anotar o que o professor diz. “Ele precisa entender que passos o professor tomou para chegar ao resultado final”, diz Rodrigo. “É assim que ele desenvolve o raciocínio, e não adianta confiar na memória. Eles estudam muitos tópicos, e quem não anota as coisas, seguramente se esquece delas.”


O aluno 41 chamou a atenção de Rodrigo para um tipo especial de estudante. Ele sempre aparece nas notas do aluno 41, pois não toma notas, não pergunta nada, não faz exercícios, não se envolve nas tarefas extraclasse, conversa fora de hora. Mesmo assim, vai bem. “Esse aluno não é o foco desse trabalho”, diz Rodrigo. “Mas eu gostaria de saber se eles poderiam ser ainda melhores.”


Tome notas: controle suas emoções
Segundo Heath Demaree, professor de psicologia na Universidade Case Western Reserve (Estados Unidos), a pessoa capaz de tomar notas durante as aulas é também capaz de lidar melhor com emoções negativas – estresse, vergonha, ansiedade, raiva. Para tomar notas durante as aulas, o estudante tem de ouvir o que o professor está dizendo no momento, tem de lembrar o que o professor disse há uns poucos segundos, e tem de escrever. Heath ainda não sabe como o mecanismo funciona, mas, se uma pessoa desenvolve bem essa “memória de trabalho”, também desenvolve a capacidade de lidar com emoções negativas, e tende a se sair melhor em situações estressantes.

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