‘Nunca me sonharam’ traz histórias potentes, mas explica demais

Documentário sobre ensino médio brasileiro estreia no Rio de Janeiro e em São Paulo

Compartilhe
, / 409 0
Nunca me sonharam

Cena do documentário ‘Nunca me sonharam’ (Foto: Divulgação)

“A opinião é o que mais propicia uma fala pré-fabricada, retomada sem originalidade ou força. Inversamente, quando as pessoas contam suas vidas, quando se narram a partir de experiências pessoais, aumentam consideravelmente as chances de se obter uma fala viva, e as opiniões que podem surgir emergem misturadas a essas experiências, portanto mais vigorosas.”

O trecho acima, escrito por Consuelo Lins em seu livro O documentário de Eduardo Coutinho – televisão, cinema e vídeo (Zahar, 2004), mergulho na obra do maior documentarista brasileiro, ajuda a explicar as forças e fraquezas do recém-lançado Nunca me sonharam, longa-metragem de Cacau Rhoden que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 8 de junho, sobre o universo do ensino médio brasileiro.

Produção maturada ao longo de dois anos, o documentário de Rhoden teve patrocínio do Instituto Unibanco, instituição do terceiro setor com projeto voltado a redes públicas de ensino, e custo de R$ 1,7 milhão. Percorreu oito estados e 15 cidades brasileiras, entrevistando um total de 150 pessoas que resultaram num filme de 84 minutos.

Rhoden busca construir um mosaico do que é a juventude brasileira presente nas escolas públicas de ensino médio por meio dessas entrevistas, na tradição do documentário que ficou marcada pela abordagem de Coutinho, sobretudo a partir de Santo Forte (1999), filme que retrata a religiosidade num morro carioca e, por extensão, no Brasil. Ou do mais popular Edifício Master (2002), em que o microcosmo é um edifício de classe média no Rio de Janeiro.

Consegue um interessante panorama ao retratar jovens tão diversos quanto aqueles presentes nas escolas, mostrando um pouco do que esperam da educação, de suas vidas, do mundo, como acham que são vistos e como lidam com o universo de barreiras que têm pela frente. Identifica histórias que, ao contrário do que costuma enfatizar o senso comum, trazem meninos e meninas que têm na escola o esteio para encontrar sentidos na existência e interlocução motivadora, seja entre outros adolescentes, seja entre professores que muitas vezes lhes iluminam caminhos e possibilidades. E, também, que nos fazem ver as diversas interdições presentes na falta de compromisso e no burocratismo reinantes no universo educacional.

Quando a câmera está voltada para os adolescentes, apesar de em alguns momentos restar uma sensação de que o conjunto poderia ganhar força com menos histórias e aprofundamento de algumas delas, o todo emerge com potência, dando a conhecer dimensões pouco corriqueiras para quem não tem contato com o universo escolar adolescente.

Quando, no jogo das vozes variadas que compõem a narrativa, a bola é passada para os educadores do chão de escola, o filme ganha ainda mais força. São algumas pequenas histórias de professores e diretores que, como dizia o filósofo Walter Benjamin, ao despojarem-se de si mesmos para se abrir na escuta do outro, conseguiram ajudar e transformar os adolescentes e a eles próprios, ganhando em humanidade pela troca que foram capazes de realizar.

É o caso, especificamente, de um recém-empossado diretor de uma escola carioca que consegue arregimentar o time dos alunos indesejados para deles fazer a equipe de futebol da escola. Ou do professor de matemática que, incomodado com as manchas de café no caderno do aluno, vai à casa dele para falar com a mãe e descobre a penúria em que eles vivem e o quanto o menino gosta da matemática e dele próprio, professor. Ou ainda do professor de geografia que seduz seus alunos ao tirá-los da sala de aula e levá-los para uma aula no mar, dentro d´água, para falar sobre a força da gravidade e outros temas.

Mas Rhoden parece não achar suficientes essas histórias. E constrói uma linha de coerência amarrada por depoimentos de especialistas em educação, como se a vivência exposta por adolescentes e professores não fosse argamassa suficiente, precisando de um discurso de autoridade para sustentá-la, para explicar o que os outros vivem e sentem.

Voltando a Eduardo Coutinho, ao explicar os motivos que o levaram ao formato de Santo Forte, depois de experiência frustrada anterior, ele dizia: “(…) a explicação é sempre insuficiente. Ou ela é demais e mata o filme, ou é de menos e não adianta. Ela nunca é justa”.

Muitos dos especialistas de Nunca me sonharam fazem comentários e análises bastante pertinentes. Mas que acabam funcionando como uma tutela indevida, uma falta de confiança na força narrativa daqueles que fazem a escola, quando formalmente o filme quer expressar apoio a esses personagens. Faltou confiar na potência dos personagens. E também na do espectador.

Serviço:

Para saber onde assistir o filme gratuitamente, clique aqui.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN