Numa escola de Havana, filme mostra as tensões entre educadores que têm diferentes visões sobre o que é seu ofício

Diretor cubano Ernesto Daranas faz reflexão em torno do papel do professor de crianças e adolescentes em situações de risco

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Divulgação
Cenas de Numa escola de Havana: reflexão em torno do papel do professor de crianças e adolescentes em situações de risco

 

“Minha avó era neta de escravos”, lembra Carmela. “Não acreditou quando lhe mostrei o meu diploma de professora. Já se passaram quase 50 anos e a maior parte desse tempo estive nesta sala de aula.” Ela acredita que muita coisa mudou na escola em meio século. “Antes, eu sabia para o que preparar um aluno. Agora, a única coisa que tenho clara é para o que não devo prepará-lo.” Seu entendimento sobre o processo de formação de toda criança envolve quatro pilares: “a casa, a escola, o rigor e a afeição”.

Emocionada, Carmela recorda sua trajetória e fala sobre o que considera essencial na ação de um professor porque está prestes a se aposentar – e não por sua própria vontade. Incomodada com o seu modo de agir, que desrespeita regras e vai muito além das atribuições convencionais de um docente do ensino fundamental, a diretora da escola onde ela trabalha defende o seu afastamento, mas lhe estende, para suavizar a decisão, o cínico tapete vermelho das homenagens a quem tem uma extensa e reconhecida folha de serviços prestados a diversas gerações de crianças – muitas das quais se tornaram também educadores.

Carmela é uma personagem de ficção, protagonista do longa-metragem cubano Numa escola de Havana (2014), que estreou em setembro nos cinemas brasileiros depois de uma bem-sucedida carreira internacional, com boa resposta de público, e diversos prêmios em festivais, incluindo o mais importante em sua própria casa: o de melhor filme no Festival de Havana. Em Cuba, o Ministério da Educação realizou encontros, oficinas e debates para discuti-lo, como informa o diretor e roteirista Ernesto Daranas (leia entrevista na página 70).

A Carmela criada por Daranas é ficcional, mas foi inspirada em uma figura verídica, também professora durante algumas décadas em Cuba. De qualquer forma, a habilidosa construção da trama possibilita que o filme venha a ser usado como referência para a reflexão em torno do papel do professor de crianças e adolescentes em situações de risco. Nessas circunstâncias, deve-se atuar exclusivamente dentro da sala de aula, fazendo vista grossa para os problemas que os alunos enfrentam, ou ampliar o campo de ação para se envolver com aspectos que têm a ver com a assistência social?

Interpretada pela atriz cubana Alina Rodríguez (que faleceu no último dia 27 de julho, aos 63 anos), Carmela tem, principalmente, uma relação mais próxima com Chala (Armando Valdés Freire), de 11 anos. Filho de pai desconhecido, ele precisa se virar sozinho porque a mãe, dependente de drogas, não consegue manter a casa, muito menos cuidar do menino. Assim, ele ganha algum dinheiro cuidando de cachorros que participam de rinhas. A assistência social, atenta ao quadro, decide por fim enviá-lo para um reformatório, ou “escola de conduta” (o título original do filme em espanhol é Conducta).

Carmela entra em cena, aproveitando o fato de que um dos responsáveis pelo reformatório foi seu aluno, e consegue fazer com que Chala volte para casa e para a escola regular. Ao assumir o compromisso de “tomar conta” do menino, ela consegue para ele uma segunda chance – preocupada porque, afirma ela, se a sociedade o tratar como um delinquente, ele fatalmente se tornará um. “Todos os anos tenho um Chala na sala”, diz. “A professora dele sou eu desde a quarta série e não me chamo Carmela se não der conta (desse problema). O que Chala não tem, nós daremos.”

Ambos, Carmela e Chala, acabam se empenhando também em ajudar, cada um na medida das suas possibilidades, uma colega de sala, Yeni (Amaly Junco), cujo pai não tem emprego ou domicílio fixo em Havana. Por causa disso, a legislação proíbe que sua filha estude na cidade. Mas o “jeitinho” criado para que o seu caso burle a fiscalização é muito precário e, a certa altura, Yeni se vê obrigada a abandonar a escola. Para complicar o cenário, a própria Carmela tem um neto hospitalizado em estado grave e divide suas atenções entre todas essas crianças, além de enfrentar a oposição da diretora e também de uma colega mais jovem que a substitui temporariamente.

A polarização entre educadores, no filme, é clara e orienta facilmente qualquer debate: de um lado, figuram Carmela, alguns de seus ex-alunos e colegas que reconhecem a importância de assumir uma postura “cuidadora” em relação aos alunos; de outro, profissionais de educação e de assistência social que consideram indevidas as suas intromissões na vida privada de crianças e adolescentes, e seu desrespeito a algumas normas do sistema educacional cubano. Além desse embate, Numa escola de Havana também fornece informações valiosas sobre a sociedade cubana, ao olhar de frente para problemas sociopolíticos que forçosamente reverberam na escola.

Infância e adolescência em risco
Numa escola de Havana filia-se a uma tradição do cinema cujas origens remontam à década de 1950: a preocupação com crianças e adolescentes em situações de risco, como hoje nos referimos a um cenário social e familiar – em geral, de pobreza – que cria vulnerabilidades perigosas e afeta duramente as perspectivas de desenvolvimento individual e comunitário. Confira alguns exemplos:

Os esquecidos (1950)
Clássico do cinema de denúncia social, realizado pelo diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983) no México. A delinquência juvenil é mostrada pela primeira vez no cinema com um tom realista e incômodo nessa crônica sobre um menino que vive um processo de vazio e desespero à medida que se integra a um grupo que circula pelas ruas da Cidade do México.

Os incompreendidos (1959)
Um dos primeiros filmes da nouvelle vague francesa, e longa-metragem de estreia do crítico François Truffaut (1932-1984). Apresenta um personagem livremente inspirado em experiências do próprio Truffaut, o menino Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que reapareceria depois, mais velho, em outros quatro filmes.

Pixote, a lei do mais fraco (1981)
O livro Infância dos mortos, de José Louzeiro, deu origem a um dos filmes brasileiros de maior repercussão no país e no exterior, realizado pelo diretor e roteirista argentino-brasileiro Hector Babenco. Fernando Ramos da Silva (que depois seria morto em circunstâncias jamais esclarecidas) interpreta o papel-título.

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída (1981)
Grande escândalo internacional na primeira metade da década de 1980, este drama alemão reconstitui o circuito do consumo de drogas pesadas entre jovens na Berlim dos anos 1970, com base nos depoimentos de uma personagem verídica (interpretada por Natja Brunckhorst) à justiça.

Vidas sem rumo & O selvagem da motocicleta (1983)
O diretor Francis Ford Coppola (O poderoso chefão, Apocalypse now) realizou na mesma temporada dois filmes baseados em livros da escritora Susan E. Hinton, que se tornaram best-sellers entre o público jovem nos EUA e em diversos outros países. O mais ambicioso é o segundo filme, sobre um jovem envolvido em lutas de gangues e que vive à sombra do irmão mais velho.

Conta comigo (1986)
Baseado em romance do americano Stephen King, mais conhecido por seus livros de terror e sobrenatural. Aqui, ele conta uma aventura vivida por quatro adolescentes de 12 anos no interior do estado do Oregon (EUA), no final da década de 1950, e que envolve o desaparecimento de um outro menino da cidade.

Os desafios educacionais de Cuba
Entrevista com Ernesto Daranas
Terceiro longa-metragem de ficção dirigido pelo cubano Ernesto Daranas, Numa escola de Havana foi indicado por Cuba para disputar uma vaga na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro – feito que o diretor já havia conseguido com seu filme anterior, Los dioses rotos (2008). Nesta entrevista a Educação, ele afirma que também em Cuba “os rendimentos e o reconhecimento social” dos professores não estão à altura de sua “preparação, entrega e esforço”.

O sistema de ensino público cubano foi por muito tempo visto no Brasil como um exemplo de qualidade, apesar dos recursos limitados. Qual a sua avaliação do cenário atual? Quais os principais problemas a enfrentar?
A educação em Cuba continua a ser gratuita em todos os níveis. Mas, de maneira inevitável, a crise econômica, que já dura mais de um quarto de século, deteriorou todos os estratos da sociedade cubana. O sistema de ensino não escapa disso. Não se pode realmente resolver os problemas do nosso sistema educacional sem resolver antes os problemas sociais, econômicos e políticos acumulados nesse período.

No Brasil, parte da sociedade entende que a profissão de professor não é bem remunerada e que os docentes, expostos a jornadas de trabalho desgastantes, não são valorizados. Com isso, a procura pela profissão tem diminuído nas últimas décadas. Qual a situação em Cuba? Muitos jovens ainda veem interesse em dar aulas para crianças e jovens?
Em Cuba, existem diversas escolas de pedagogia que devem garantir a substituição dos profissionais mais antigos. Mas é uma profissão em que os rendimentos e o reconhecimento social não estão à altura da preparação, da entrega e do esforço que implica ser professor. Esse é um grave problema da educação em muitos países do mundo e explica, em parte, o interesse decrescente de jovens pelo magistério.

Como o seu filme foi recebido pelos professores cubanos? Houve sessões especialmente realizadas para eles? E debates?
O Ministério da Educação de Cuba se apropriou do filme e foram realizados encontros, oficinas e debates na maioria das escolas do país. Neste momento, estão sendo adotadas medidas que pretendem recuperar o nível de nossas escolas e o filme teve influência nesse movimento.

Quais foram as suas maiores dificuldades nas filmagens com as crianças e na sala de aula?
Houve muitos desafios, mas o maior de todos foi permitir que aquelas crianças fossem elas mesmas. E foi isso o que ocorreu nas cenas de sala de aula. Para eles, (a atriz) Alina Rodríguez era realmente Carmela e aquela era a sua turma da escola. A partir disso, tudo fluiu de maneira natural.

O cineasta francês François Truffaut (diretor de Os incompreendidos) dizia que a experiência de trabalhar com crianças é muito mais gratificante do que trabalhar com atores adultos, porque as crianças são mais espontâneas e trazem uma grande energia para o filme. Qual a sua avaliação? Como foi a sua experiência?
O trabalho com o ator é sempre complexo e desaprender é parte essencial de um processo do qual deve nascer um novo personagem. As crianças não precisam passar por isso. A energia de que fala Truffaut vem justamente do fato de que estão aprendendo, vivendo e jogando. É muito gratificante fazer parte desse jogo.

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