Nova tecnologia para a fala

O Distúrbio Específico de Linguagem, conhecido pela sigla DEL, afeta cinco em cada 100 crianças e pode ser confundido com dislexia, dificuldade de aprendizagem, e até autismo ou síndrome de Down

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© Gustavo Morita
A pesquisadora Débora Befi-Lopes: muitas crianças com o distúrbio são classificadas incorretamente

Em geral, uma criança com Distúrbio Específico de Linguagem (DEL) apresenta, além da dificuldade de se expressar verbalmente, falhas de processamento da informação linguística e pode manifestar dificuldade para aprender a ler, escrever e interpretar textos escritos, entre outros sintomas. Por isso, à primeira vista, o DEL pode ser confundido com outros quadros diferenciados de desenvolvimento e de comportamento (como a síndrome de Down ou o autismo), o que dificulta seu diagnóstico e tratamento. O distúrbio, portanto, além de pouco conhecido, se torna um grande desafio para escolas e professores. Como identificá-lo? Como distingui-lo de outros? Esse é um dos objetos centrais de trabalho do Núcleo de Avaliação da Fala e Linguagem em Crianças com Distúrbios da Comunicação (SLCD) da Universidade de São Paulo (USP), inaugurado em 2012 e atualmente em busca da aquisição de equipamentos para diagnóstico do distúrbio, a maior dificuldade dos pesquisadores bra­sileiros na área.

A fonoaudióloga Débora Maria Befi-Lopes, vice-coordenadora do SLCD, explica as características gerais do fenômeno, ainda não tão conhecido quanto outros distúrbios que se tornaram objeto de atenção de professores e gestores no ambiente escolar: “O DEL é uma patologia independente, exclusivamente linguística. As crianças com DEL são ouvintes, têm a inteligência preservada e não apresentam alterações na interação social”.
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O desafio do diagnóstico

Débora, que é da Faculdade de Medicina da USP e pesquisa há quase 30 anos o distúrbio, explica que uma criança com DEL pode apresentar um comportamento semelhante ao daquelas que possuam outros tipos de problemas envolvendo a fala, mas os motivos são específicos, exclusivamente relacionados ao distúrbio de linguagem. Um exemplo é o caso de crianças com dificuldade de aprendizagem. É comum que os alunos com DEL tenham dificuldade para aprender a ler, escrever e necessitem de apoio. “Mas as crianças com DEL não podem ser consideradas disléxicas, pois suas dificuldades escolares derivam de déficits linguísticos anteriores”, contextualiza.

O DEL também pode ser confundido com outros quadros, como o autismo, nas situações em que a criança apresenta dificuldade de relacionamento. No entanto, enfatiza Débora, quando uma criança com DEL tem dificuldade em se relacionar ou evita situações de comunicação é porque sua dificuldade linguística compromete seu relacionamento social – não o contrário.

“Nos ambientes onde se sente segura, a criança com DEL comunica-se sem qualquer problema”, caracteriza a fonoaudióloga.

Apesar de bastante pesquisadas no Brasil e em vários países, as causas para o surgimento do DEL ainda não foram delineadas de maneira precisa. Esta dificuldade decorre da complexidade do desenvolvimento da fala, o qual envolve uma multiplicidade de fatores – culturais, sociais, biológicos e genéticos –, o que torna complexo o diagnóstico do distúrbio.

Atualmente, o diagnóstico é multidisciplinar e realizado por exclusão. Ou seja, diversos profissionais atuam de maneira articulada, buscando identificar e descartar eventuais fatores que possam ter desencadeado o déficit linguístico persistente, tais como perda auditiva, déficit intelectual, síndromes e lesões neurológicas. Também é preciso descartar as influências da condição social que, conforme mostram diversas pesquisas, têm grande influência em processos cognitivos, como é o caso da linguagem.

“Hoje há estudos que comprovam a grande interferência da condição social nos processos de desenvolvimento cognitivo, como o linguístico, que é nosso foco. Há que se ter muito cuidado para não confundir um atraso de linguagem decorrente de carência social de um DEL”, enfatiza a fonoaudióloga.

Em alguns casos, só é possível estabelecer essa diferenciação após algum tempo de reabilitação, quando se percebe que a criança evoluiu de forma significativa, praticamente alcançando o desenvolvimento normal. “Para um diagnóstico preciso, alguns autores sugerem que a criança tenha passado por processo de reabilitação por pelo menos dois anos sem superação da dificuldade linguística”, explica Débora.

Sem lugar

Se no processo de avaliação da criança todas as deficiências forem excluídas e se for confirmada a existência de uma alteração permanente no desenvolvimento da fala e da linguagem, o passo seguinte é aprofundar o diagnóstico, a fim de identificar quais subsistemas envolvidos no desenvolvimento da fala foram afetados. Isso é necessário, pois, dependendo do grau do distúrbio, mais de um subsistema pode ter sido afetado.

De acordo com Débora, a precisão de diagnóstico é importante principalmente nos casos mais leves de DEL. Como o distúrbio é definido especificamente como uma patologia linguística é importante saber, com clareza, se as manifestações linguísticas de uma criança derivam de fatores ambientais ou biológicos. Por isso, um diagnóstico preciso é importante para aprimorar o desenvolvimento de técnicas de reabilitação.

Devido à dificuldade de diagnóstico, essas crianças estão “meio sem lugar”, caracteriza Débora, e, por isso, muitas vezes, deixam de receber uma assistência adequada – apesar de o DEL estar presente nas catalogações nacionais e internacionais de doenças.

Assim, muitas crianças com o distúrbio são classificadas incorretamente, sendo confundidas com casos de dislexia, autismo, entre outros. A categorização incorreta acarreta consequências tanto no campo da assistência (elas deixam de receber um tratamento adequado), quanto em outros aspectos da vida – dificuldades na escola, problemas emocionais e de socialização.

A tecnologia como aliada

Nesse contexto, a tecnologia surge como um fator importante para identificar com mais precisão de que maneira ocorre o processamento da informação das crianças com DEL. Ela também pode ajudar a identificar as diferenças que existem entre estas crianças e aquelas que apresentam um padrão de desenvolvimento da fala classificado como normal ou outros tipos de distúrbio.

“Nossos estudos agora pretendem avançar para áreas que a tecnologia hoje nos permite. Há atualmente equipamentos que permitem verificar tempo de processamento da informação, discriminação de sons, entre outras possibilidades. O desenvolvimento desses estudos vai nos permitir melhorar a qualidade dos processos de reabilitação”, adianta a pesquisadora.

Existem equipamentos de eyetracking, que rastreiam o movimento dos olhos e indicam o tempo que a pessoa leva para ouvir um estímulo verbal, compreender o comando e executar a tarefa, ao se identificar uma dificuldade específica de processamento. Este é um equipamento cuja aquisição o Núcleo de Avaliação da Fala e Linguagem da USP aguarda. Outro equipamento, que também deverá ser adquirido pelo Núcleo, mede o processamento da informação nervosa por meio de eletrodo.

“Em países como Estados Unidos e na Europa, a questão do diagnóstico de DEL é absolutamente resolvida. Já nos países chamados emergentes ou pobres, é mais difícil, pois o sistema de saúde não apresenta condições de realizar todas as avaliações necessárias, principalmente em larga escala. As famílias que conseguem inserção em centros universitários têm melhor garantia de realização de todas as avaliações para realizar o diagnóstico correto”, afirma a pesquisadora.

Parceria com o professor

Considerando a complexidade do diagnóstico do DEL e seus impactos na vida das crianças afetadas, o professor pode ser um parceiro tanto para ajudar na identificação das crianças com o distúrbio, quanto na sua reabilitação, afirma Débora. Em geral, o diagnóstico é feito na educação infantil. “São crianças que não falam na idade esperada ou se comunicam de uma maneira diferente dos pares da mesma idade. Alguns são ininteligíveis”, caracteriza a fonoaudióloga.

“O melhor parâmetro são as outras crianças, ou seja, a criança que linguisticamente se mostra diferente de seus pares deve ser avaliada, pois o diagnóstico precoce garante a intervenção precoce e melhor possibilidade de recuperação”, afirma. Iniciar a reabilitação o quanto antes é importante, pois, pelo menos por enquanto, não existe remédio para tratar o distúrbio. O DEL é tratado apenas com reabilitação.

Feita a avaliação, é possível estabelecer ações e atividades a serem realizadas na sala de aula. Daí a importância da parceria, de o professor atuar conjuntamente com o fonoaudiólogo que atende a criança, trabalhando suas dificuldades.

Embora cada caso seja único, Débora sinaliza para uma prática que pode favorecer o desenvolvimento das crianças com DEL. “Não há uma regra geral para todos, mas um aspecto é sempre fundamental: inserir essa criança no grupo, facilitando sua participação nas atividades coletivas.”

 Conheça o SLCD
> O Núcleo de Avaliação da Fala e Linguagem em Crianças com Distúrbios da Comunicação (SLCD) é um dos Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAPs) da Universidade de São Paulo. Esses centros reúnem especialistas de diversas unidades e órgãos em torno de programas de pesquisa com caráter interdisciplinar.

O SLCD reúne profissionais de diversas áreas da saúde, como médicos, psicólogos e fonoaudiólogos, todos envolvidos no diagnóstico e nos programas de reabilitação voltados a crianças que apresentam distúrbios de comunicação.

Entre os objetivos do SLCD está desvendar os mecanismos do DEL e de outras desordens, uma complementando o conhecimento que se tem da outra.

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