Nova superintendente do Cenpec aposta na potência das novas tecnologias para reduzir desigualdades

Mônica Gardelli Franco, à frente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultura e Ação Comunitária desde meados de agosto, falou com Educação sobre novos desafios da instituição

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Nova superintendente do Cenpec aposta na potência das novas tecnologias para reduzir desigualdades

Foto: Gustavo Morita

Com a missão de liderar um processo de atualização da instituição dentro de um novo contexto social e político, Mônica Gardelli Franco está à frente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultura e Ação Comunitária, o Cenpec, desde meados de agosto último. Ela assumiu a superintendência no lugar de Anna Helena Altenfelder, que foi para a presidência do Conselho de Administração após seis anos no cargo.

Com passagens pelo MEC e pela Fundação Padre Anchieta, entre outros, Mônica é doutora em educação pela PUC-SP com tese sobre a apropriação de tecnologias pela educação. A nova superintendente tem como um de seus desafios promover a reflexão sobre o impacto dos meios digitais na escola e em seu território. E planeja tornar público o Centro de Documentação do Cenpec, que acumula material sobre os 30 anos de atuação da instituição.
Ela diz ser, em princípio, favorável à proposta de contratos de impacto do governo paulista, mas ressalva o fato de que os termos precisam ser mais bem definidos, pois as instituições “não podem assumir a responsabilidade do Estado”.

Em 2017, o Cenpec completa 30 anos. Qual o grande desafio da instituição neste momento?

Quando nasceu, em 1987, o Cenpec veio com a missão da esperança que o país tinha naquele momento, da redemocratização, da Constituinte. O Cenpec nasceu com o compromisso de olhar para o Brasil e pensar que educação seria adequada para a nova configuração daquele país que passava a ter mais participação social. Foi uma das primeiras organizações sociais a se consolidar com a preocupação de pensar a educação, de interferir na esfera legislativa. Durante esses 30 anos, cumpriu esse papel voltado à superação das condições de desigualdade, do respeito ao direito à educação e à aprendizagem. Todas as iniciativas tiveram essa perspectiva de trabalhar para que a educação de qualidade fosse garantida e chegasse a quem tem poucas oportunidades.

E hoje, num contexto bem diferente desse de 30 anos atrás e com toda a experiência acumulada pela entidade, o que muda?

Estamos numa situação de perguntar qual história vamos ter de construir ou reconstruir agora, ver o que se perdeu nesses 30 anos e que surge como desafio, em uma abordagem [de contexto social] mais conservadora, menos progressista e inclusiva, mais fragmentada. O Cenpec tem refletido bastante sobre como garantir seu posicionamento histórico de enfrentar as condições de desigualdade e a garantia dos direitos que sempre defendeu. Precisamos nos fortalecer do ponto de vista da comunicação, pois os recursos que existiam em 1987 são muito diferentes dos de agora, com as redes sociais, o mundo digital e a própria reflexão sobre o que significa esse território digital.

O que isso muda?

Discutimos muito a questão da territorialidade para definição dos altos índices de vulnerabilidade, mas agora há outro patamar que pode definir o que é o território. O mundo digital estabelece conexões com outros territórios que podem interferir naquele local. Há grande preocupação de trazer a reflexão sobre o mundo digital não só do ponto de vista do uso desses recursos, mas também do que ele significa para a garantia de direitos e a superação das desigualdades. Também continuamos com algumas iniciativas na área de juventude, com expectativa de que haja mais conexão com a educação formal. Levar ao ensino médio, por exemplo, experiências que tivemos de trabalhos com os jovens para trazer sentidos para eles. Estamos nos preparando para colaborar com os estados, principalmente na reflexão sobre o que significa um trabalho com juventude, aproveitando os cerca de 20 anos de trabalhos do Cenpec.

E além desses temas?

Alfabetização e letramento são temas a que nos dedicamos bastante e vamos nos dedicar mais após a divulgação do último resultado da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), que mostra que 1 milhão de crianças não foram alfabetizadas. Mas essas crianças estavam no 30 ano em 2014, 2015, quando os dados foram coletados. Ou estão patinando ou foram à frente com essa deficiência. E, com a ANA, foram anunciadas ações para acabar com o problema do ciclo de alfabetização. Mas o que vai ser feito com aqueles que já passaram desse ciclo e não foram alfabetizados? Temos iniciativas já consolidadas nesse sentido, por demanda de secretarias, de aceleração da aprendizagem ou correção de fluxo. Temos um trabalho para atender essas crianças, com metodologia que responde ao fato de elas terem idades diferentes mas um problema comum. Há uma proposta para 2018, para a Prefeitura de São Paulo, nas áreas de matemática e de apropriação da leitura e da escrita, de alfabetização, visando crianças que estão no 40, 50 ano e no fundamental 2 e apresentam essa defasagem. Vamos fazer um mapeamento, uma avaliação das condições de alfabetização, letramento e apropriação da matemática desses jovens com dificuldades, para entender onde está o nó, qual nível alcançaram e o que falta alcançar. Já temos várias estratégias desenvolvidas para isso. E sempre pensando na formação de professores, para que eles se apropriem dessa metodologia.

O fundamental 2 não é muito negligenciado no Brasil?

Ele puxa para baixo o que se conquistou no Fund 1 e não cumpre as expectativas de preparação para o ensino médio. É uma faixa etária difícil, com muitas mudanças, como de uma linguagem mais infantil para outra, do jovem, do adulto. Há dificuldade de tratamento nas produções didáticas para essa faixa, em relação à abordagem. Também tem pouco investimento do ponto de vista de estudos psicológicos sobre essa fase. A licenciatura, que deveria subsidiar a formação desses professores especialistas em relação à aprendizagem, avaliação, diálogo, deixa a desejar. E passa a haver uma rotatividade enorme de professores, prejudicando o vínculo destes com os alunos, num momento em que meninos e meninas estão construindo sua identidade. É quando começa a haver mais problemas com indisciplina. Há propostas para que se tenha um acompanhamento mais próximo desse estudante, ou uma ordenação do trabalho pedagógico que permita olhar mais para os sujeitos. Ou professores diretores de turma, responsáveis por uma sala, acompanhando o estudante em todas as disciplinas, e que poderiam ter diálogo com os pais. Mas há poucas iniciativas nesse sentido. As escolas que têm mais sucesso são aquelas que conseguem olhar para esse aluno de forma integral, envolvendo todos os professores.

Em sua trajetória, os estudos sobre tecnologia têm papel importante. O que o Cenpec planeja de novo nessa área?

O Cenpec tem muitas ações com suporte de tecnologias, soluções usadas para incentivo e comunicação dos projetos. Como temos a missão e o compromisso com a sociedade civil não só de produzir conhecimento e refletir sobre isso, mas de impactar a política pública, estamos estruturando ações de formação de professores que usem as tecnologias, como metodologia de ensino a distância, ou autoinstrucionais. Espero que já em 2018 possamos ter mais ações nesse sentido. Já temos algumas iniciativas, mas queremos estruturar isso melhor, inclusive em parceria com universidades. Cursos de extensão ou especialização. Outra frente é nossa área de comunicação, que é uma espécie de catalisador, pois sabemos tudo que está acontecendo em relação a políticas educacionais. Temos um boletim interno para a equipe e queremos transformá-lo num canal de informação para o público em geral, torná-lo um espaço de referência. Temos um centro de documentação dos 30 anos do Cenpec, com tudo catalogado e indexado, mas comunicamos pouco externamente. A partir de 2018, queremos tornar público esse centro. Sempre recebemos secretários de Educação e pesquisadores, queremos criar um canal digital de acesso aos produtos dessas visitas. Vamos entrar mais fortemente nessa área das redes sociais, de forma mais organizada, com foco no nosso público-alvo.

E no campo da pesquisa, quais serão os principais focos do Cenpec?

Quando a pesquisa não é feita sob encomenda, procuramos sempre olhar o quanto as políticas públicas ou ações propostas podem promover a desigualdade e não superá-la. Fizemos isso com o ensino médio, temos outra pesquisa, que acabou de ser concluída, sobre as crenças docentes. Está sendo desenhada uma pesquisa com o Instituto Ethos que diz respeito aos jovens aprendizes, para ver qual a formação oferecida pelas instituições que os acolhem. Deve acontecer no início do ano que vem. E há outra sobre os jovens que participaram das ocupações, para entender seus anseios. Sempre pensando em que contribuição isso pode dar ao desenvolvimento de políticas públicas para atender a essas populações.

O Estado de São Paulo lançou edital para concorrência de contrato de impacto social, visando contratar instituições privadas e do 30 setor para combater evasão e melhorar desempenho dos alunos. Como o Cenpec vê a proposta?

Se o Cenpec não fosse favorável a um trabalho com estados e municípios em políticas públicas, não existiria, pois é o que tem feito nesses 30 anos: buscado cooperar com o poder público para superar as suas dificuldades. Às vezes, temos uma condição mais favorável do que o poder público para nos debruçar sobre o problema, pesquisando a fundo, comparando, trazendo referências de outros lugares, juntando expertises de diversas naturezas para a construção de uma política. Por princípio, somos favoráveis a essa aproximação. Mas é lógico que é preciso olhar com bastante cautela qual será o papel dessa instituição, pois ela não poderá nunca assumir uma responsabilidade que é do Estado, instituída por lei. Estamos estudando o edital para ver em que medida podemos ou não ser colaboradores do Estado. As instituições escolhidas têm de ter seu papel muito bem definido, pois há uma responsabilidade que não é transferível para uma organização social. Elas podem atuar, em determinados momentos e condições, de maneira muito objetiva para tentar reduzir um problema, mas não podem assumir a responsabilidade do Estado, que é garantir o direito de aprendizagem de jovens e crianças. Há muita polêmica em relação a esse tema, que talvez não esteja tão esclarecido, pois sugere uma terceirização. Ou, pelo temor de que, se for uma instituição privada, tenha interesse de interferir no currículo ou na definição de prioridades para cumprir metas. É um terreno que precisa ser muito bem delimitado para garantir que não haja desvirtuamento do que é a função do Estado e dessa organização da sociedade civil. E isso ainda não está claro.

Temos a perspectiva de um grande déficit de professores em poucos anos, e poucos ingressantes na carreira. Como resolver esse problema?

Se esse problema não for visto de forma orgânica, não conseguiremos enfrentá-lo, o que ocasionaria um prejuí­zo muito grande na formação das próximas gerações. É uma profissão pouco atrativa do ponto de vista financeiro. Chegam a falar que, se nada der certo, a pessoa pode ir dar aula. Isso tem a ver com a atratividade. Não temos uma política de reconhecimento e valorização desse profissional, em todos os níveis. É difícil haver plano de carreira para professor, e o teto é baixo em comparação com outras profissões que exigem a mesma formação. Os países que reverteram essa situação olharam fortemente para a formação, a valorização e o reconhecimento dos professores, inclusive do ponto de vista financeiro. É o caso da Coreia do Sul, da Finlândia. Em algumas áreas do conhecimento, já estamos tendo esse apagão. Alguns estados optam por pegar aquele professor que tem a formação um pouco mais próxima. Enquanto não formamos mais professores, a tendência será o apoio de tecnologias para alcançar lugares em que não há docentes. O Amazonas fez uma experiência, eles têm dificuldades também de acesso, com grandes distâncias. Montaram infraestrutura tecnológica com satélite, central de aulas na capital, lugares de recepção em várias regiões, para que o aluno pudesse ter aula de geografia com um professor de geografia. Creio que enquanto a política não melhorar, o que não deve ocorrer no curto prazo, a tendência deve ser ter o especialista numa localidade em que possa atender a todos. É um dos grandes desafios, que foi pouco considerado em termos de política pública, pois esse déficit está anunciado faz mais de 10 anos. Houve expansão das universidades, mas as vagas estão ociosas.

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