Nova série infantil da TV Brasil traz as águas amazônicas para as telas

Na contramão dos canais abertos, a emissora aposta em faixa para as crianças e produções próprias

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Divulgação
Personagens do Igarapé Mágico são filhotes de espécies amazônicas

Ceci é uma sucuri e, embora digam que sua espécie é perigosa, ela é sensível e chorona. Quinha é uma perereca fofoqueira que trabalha como assistente de Iara. O Jaca Zé é um adolescente engraçado e esquecido que vive sempre com sua amiga Cotinha, uma piranha vegetariana. Bitelo é um pirarucu criança que ainda vai se tornar um dos maiores peixes de água doce do Brasil. E Maná, um peixe-boi amazônico, mudou-se com toda a sua família para o igarapé, onde vivem grandes aventuras.

Os personagens descritos acima fazem parte do Igarapé Mágico, nova série infantil da TV Brasil voltada para crianças em idade pré-escolar. “A TV Brasil queria produzir um programa infantil que fosse referência nacional e a partir disso começamos a pensar em relação ao mercado mundial o que o Brasil tem que outros países não”, relembra Rogério Brandão, diretor de programação da TV Brasil e criador da série em parceria com Bia Rosenberg. Foi então que surgiu a ideia de trazer a temática da água para as telas e apresentar às crianças a região amazônica.

Os criadores contaram com a ajuda de consultores em ciências para elaborar os personagens e enredos, que provocam o interesse das crianças por questões relacionadas à sustentabilidade, como lixo, poluição, importância da água e preservação de espécies em extinção.

“Para fazer um programa como esse, não podemos apenas usar a imaginação, porque queremos contar para as crianças como é a Amazônia”, ressalta Bia Rosenberg, diretora- geral da série e consultora em entretenimento educativo. “Por outro lado, há certa ‘liberdade poética’ no momento da criação. Caso contrário, seria uma série sobre biologia”, acrescenta Rogério Brandão.

É por isso que, além de informações sobre a Amazônia, como o tipo de vegetação, costumes, animais, ciclo da água, linguajar, entre outras, o programa busca trazer um conteúdo que está mais relacionado ao desenvolvimento emocional das crianças e se refere a sentimentos, diversidade e pluralidade, resolução de conflitos por meio do diálogo e amizade.

Nesse sentido, a figura folclórica da Iara, única personagem humana, surge com uma dupla função: ser um elemento mágico e ao mesmo tempo representar o papel de cuidador. “Todos os bonecos animais representam crianças. A Iara é a única figura adulta que tem a função de impor limites, mas também de acariciar e dar apoio”, explica Bia Rosenberg.

Infantis na TV
O Igarapé Mágico é exibido na faixa Hora da Criança, grade que, desde 2010, ocupa, de segunda a sexta-feira, quase seis horas de programação diária da TV Brasil. Na contramão da maioria dos canais abertos, a programação infantil é um dos pilares da emissora. “O zelo pela criança atende aos valores e missões da TV Brasil como um veículo público. Nós estamos formando uma nova audiência que, ao longo de uma década, cresce com a emissora a partir da programação infantil”, aponta Rogério Brandão.

Para o diretor de programação, a Hora da Criança é uma faixa que hoje está praticamente sozinha na TV aberta brasileira, pois as emissoras enxergam a programação infantil como um nicho não comercial. “Os canais abertos abriram mão dessa faixa porque não podem mais usar esse espaço para promover um produto. Hoje esse dinheiro foi pulverizado para dentro da linha de produtos de consumo, como telefones celulares e notebooks. A criança passa a ser vista como um consumidor, e não mais como criança”, opina.

Rogério ressalta que a tendência da TV Brasil é expandir essa faixa em termos de produção. Quando a Hora da Criança foi criada, de um total de seis horas de programação, quatro eram de conteúdo estrangeiro e duas de nacional. “Hoje estamos em uma faixa de quase meio a meio. Na faixa etária de dois a três anos, a maioria absoluta é de conteúdo brasileiro”, afirma.

O diretor destaca a importância de trabalhar com elementos nacionais, pois as crianças têm maior identificação com os personagens, além do tipo de humor que é muito peculiar em cada país, mas não exclui as produções estrangeiras. “Há países onde as TVs públicas são muito fortes e produzem conteúdo infantil de alta qualidade. Nós procuramos lá fora programas que tenham pertinência com os valores que queremos passar, como respeito ao próximo, convivência com a diversidade, resolução de conflitos e relação de amizade.”

Entrevista Bia Rosenberg

Criadora e diretora-geral da série Igarapé Mágico, Bia Rosenberg é consultora em entretenimento educativo para crianças e jovens e especialista na produção de programas de televisão, especialmente os voltados para o público infantil, há mais de três décadas. Coordenou na TV Cultura programas premiados, como Castelo Rá-Tim-Bum e Cocoricó. Na entrevista abaixo, Bia fala sobre sua experiência à frente de programas para crianças.

O que é levado em consideração na hora de produzir um infantil?
Eu sou uma pessoa que acredita que a televisão, se for boa e bem aproveitada, é uma coisa muito legal para a criança. A TV pode ensinar porque apresenta situações e maneiras de viver diferentes. Eu faço programas para crianças porque gosto deles. Acho que eles devem ter um lado lúdico bem desenvolvido, mesmo os que são educativos, como o X Tudo, por exemplo. Tem que ser atrativo e ao mesmo tempo considerar o impacto que vai ter nas pessoas. No Igarapé Mágico, por exemplo, nós temos um trio principal de personagens de diferentes idades porque assim conseguimos atrair diferentes faixas etárias. Nos meus programas as coisas têm uma razão de ser.

O que a senhora acha que explica o sucesso de programas como Castelo Rá-Tim-Bum e Cocoricó até hoje?
São programas que encontram a medida correta entre o divertimento, emoções, medo, suspense e aventura. Esse pensamento a mais é o que distingue esses programas dos outros.

Nesses mais de 30 anos de experiência à frente de programas para crianças, o que mudou?
Eu noto uma grande diferença. As crianças estão ligadas na tecnologia e isso altera bastante. Do ponto de vista da forma, a tecnologia facilitou a criação de cenários animados. Já em relação à linguagem, a grande mudança não é tanto no ritmo, mas nas multiplataformas. As crianças já têm uma expectativa de que, além do programa na televisão, existirá um site, games, aplicativos. Antes a gente fazia televisão e isso ia parar no máximo no cinema ou nos livros. Agora temos que desenhar um conjunto de mídias e meios de linguagem.

As crianças passam bastante tempo em frente à televisão e acabam levando para a escola muito do que assistem. Como os professores podem articular o que os alunos veem na TV com o dia a dia escolar?
A TV é presente na vida das crianças e ignorá-la é a pior coisa que podemos fazer. Eu acharia muito interessante se nas salas de aula as crianças pudessem ver vídeos e analisar um programa, por exemplo. Dar recursos para essas crianças assistirem à televisão com um pouco mais de propriedade sem tirar o prazer delas. Incomodava-me, por exemplo, quando as crianças assistiam a Chiquititas e não se falava sobre a novela na sala de aula, sendo que ela era assunto entre os alunos. O ideal seria um envolvimento da família e da escola. Mas o que acontece é que a família nunca assiste ao que a criança está vendo. Deixar a televisão por si mesma e responsabilizá-la pelo “o que as crianças estão vendo” é uma coisa meio boba.

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