Nossas respostas caducaram

Pais e educadores não devem travar batalhas com novas gerações

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Membro da Escola Européia de Psicanálise e presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana, o médico psiquiatra Jorge Forbes é um estudioso da globalização e, sobretudo, de seus efeitos sobre as novas gerações. Pós-graduado pela Universidade de Paris e ex-professor da Universidade de São Paulo, escreveu diversos livros – entre eles
Você Quer o que Deseja?

(Best-Seller, 208 págs., R$ 29) e
A Escola de Lacan

(Papirus, 196 págs., R$ 25) — e é colaborador regular da grande imprensa, no Brasil e no exterior. É também conferencista e consultor. Foi pioneiro ao formular a necessidade de renovar a clínica e a psicanálise para atender às mudanças do novo milênio, fato que o levou a pesquisar tendências sociais, políticas e culturais.








Se antes, no mundo industrial, o futuro era pré-determinado pela força dos ideais, e a dificuldade estava em alcançá-los, Forbes acredita que hoje as possibilidades são múltiplas, mas o futuro é incerto e deve ser inventado. Nesta entrevista a
Vanessa Nakasato

, ele fala sobre temas polêmicos: discute o comportamento da sociedade atual, critica as “maravilhosas e ultrapassadas” teorias humanas e traça o perfil do jovem do século XXI.








 









As novas gerações podem viver como as anteriores?









A geração de hoje é uma geração mutante. Ela pega uma nova época, um novo tipo de laço social criado pela globalização. No momento, a questão não é refinarmos nossas velhas respostas como se o fato de nós termos problemas significasse que elas não estejam suficientemente desenvolvidas. Elas estão suficientemente desenvolvidas e caíram de maduro. Caducaram. Os intelectuais e os educadores, de maneira em geral, têm de se dar conta disso. É preciso abandonar as velhas respostas e gerar novas categorias para o homem poder viver na era da globalização.








 









É preciso haver uma ruptura para que isso ocorra?








Essas novas categorias de respostas aos problemas sociais serão geradas em uma parceria entre o que os jovens já estão realizando, e o que nós podemos conceituar a respeito disso. Ou seja: deve-se trabalhar para que não exista uma ruptura entre uma geração e outra, uma luta em que os mais velhos se perguntam “como incluir esses jovens?” e os jovens se perguntam “o que esses velhos ainda estão fazendo aí?”. Sinto-me estarrecido com a nossa tranqüilidade arrogante. Os adultos e pais de hoje não enxergam os jovens da própria casa. Precisamos entender que o mundo mudou, que tudo o que pensávamos, que organizava o mundo, já não existe mais. As pessoas mais velhas acham que é preciso reorganizar. Mas a verdade é que nós não precisamos organizar um
katsu

(batalha).








 









E como o mundo se organiza hoje?









Os jovens possuem uma organização. Enquanto estamos debatendo as categorias iluministas, os diálogos do saber etc., esses jovens descobriram as categorias do monólogo articulado. Eles não necessitam a compreensão da sua ação para poderem compartir. Eles conseguem compartilhar sem ser, necessariamente, por meio do diálogo. Eles podem dialogar, também, mas não só isso.








 









Como fazem isso?









O maior exemplo disso é a música eletrônica, que consegue articular um milhão de pessoas sem a necessidade que se diga por que eles estão fazendo aquilo. Quando eu ouvia Bossa Nova, eu dizia o porquê de estar ouvindo. Podia explicar Chico Buarque, podia explicar Geraldo Vandré, porque tinham ideais, tinham palavras, mensagens explícitas. Com esses jovens, não. Se eu aparecer em um mega-evento, por exemplo, e perguntar para um e para outro, posso ter um milhão de mensagens diferentes. E nem por isso eles não estão juntos. Outra febre são os esportes radicais. Os jovens se entendem e se comunicam muito bem com essa coisa da adrenalina.









 










Como os jovens chegaram aí?









Todas as atividades têm a ver com limitações e com as capacidades do corpo que os jovens desenvolvem para superá-las. Ou desenvolvem, ou morrem. Então, eles têm de desenvolvê-las. Na sociedade anterior, havia limites em virtude de ideais ou de incompetência. Em relação aos ideais, dizia-se: você pode ir até aqui e a sua liberdade termina aonde começa a liberdade do outro. Havia também os limites da técnica: você tem um limite porque você não consegue fazer isso. Hoje, não se tem nem uma coisa nem outra. Você não tem uma moral limitadora e tem mais possibilidades técnicas do que capacidade de usá-las.








 









O que o senhor diria para esses jovens?









Falaria que eles estão em um novo mundo, que este novo mundo é de parcerias e não de consagração. Eles precisarão ter uma liberdade movida pela opção deles, e não por qualquer princípio de identificação maior que vá premiá-los por isso ou por aquilo. E acrescentaria que isso não significa um “liberou geral”, nem mesmo que ele terá uma vida mais fácil que a dos pais dele, porque não será assim.








 









E como será?









Será uma vida mais interessante, porém mais responsável. Os pais deles podiam justificar que faziam tal coisa movidos por certa determinação de um padrão “x”. Eu estou com você por causa dos nossos filhos ou porque prometi à Igreja que ficaria contigo pelo resto dos meus dias. Ninguém mais pode dizer que está com alguém por uma instância terceira. Portanto, todo mundo estará com alguém porque quer estar com alguém, e será responsável sempre pela sua opção. Os jovens de hoje não têm desculpa. É uma vida sem desculpas. É uma vida de conseqüências.








 









Não existe o medo da conseqüência ou da responsabilidade?









O medo é uma instância paranóica. Eu “ter medo de” significa dar consistência ao outro. As pessoas têm medo para gerar, paradoxalmente, uma garantia sobre elas mesmas. Um problema importantíssimo para as pessoas é a questão da identidade, quem sou eu. E “quem sou eu” quer dizer para onde eu vou, porque a pessoa se define pelo caminho. Ninguém se define estaticamente, a não ser o morto.








 









Como ajudá-los a entender e a viver bem com isso?









Não enchendo a paciência deles com as nossas maravilhosas teorias que já estão ultrapassadas. Não dizendo também “puxa, você é jovem, você é legal”, porque essa atitude é paternalista.








 









Os pais estão mais próximos dos filhos?









Existe um silêncio necessário entre as gerações. Sempre existirá. Há anos, a psicanálise adotava a política de que os pais conversassem tudo com seus filhos e tivessem um diálogo transparente. Isso não é realidade, hoje. Não porque não seja bom o diálogo da transparência, mas porque não existe nenhuma transparência total. Pressupor que o pai explique para o filho toda a sua razão de educação pressupõe, também, que o pai saiba qual é essa razão. E o pai não sabe. Nenhum pai ou nenhuma mãe consegue saber, justificar o motivo dessa ou daquela escolha na relação educacional dos seus filhos.









 










E os pais têm consciência disso?









Até têm, mas não admitem sua ignorância. Eles têm medo de mostrar aos filhos que nem sempre acertam nas decisões tomadas. Que muitas vezes os proíbem de fazer mil coisas e não conseguem dar uma explicação plausível para isso. E, no fim das contas, o medo de ouvir dos filhos “eu não gosto de você”. Os pais não suportam “eu não gosto de você”. Por isso, dizem que têm sempre uma razão para tudo. E isso gera um limitador para esses filhos, que vivem tentando arrebentar com a razão dos pais.








 









E arrebentam?









Há jovens que chegam a tal ponto de fazer uma imensa besteira para ver se o diabo do pai diz “eu não entendo”. Vem o filho e rouba uma coisa no supermercado. Daí vem o pai e justifica, dizendo que o filho estava se sentindo muito reprimido. No dia seguinte, ele bate o carro. O pai diz “Ô filho, tá certo, você estava cansado, tinha estudado muito”. No terceiro dia, ele mata uma pessoa. E eu não estou falando de coisas no ar, estou falando de experiências de vida, que acontecem realmente. Eu vejo acontecer.








 









Na escola também funciona assim?









Eu acho que os professores ficam enchendo a paciência dos alunos, querendo entender. “Vamos entender gente!” Essa afirmação quer dizer, na verdade, “não me entendam mal”. Vamos entender, pitombas. É “não me queiram mal”. Pais e professores têm de saber que filhos e alunos passarão por momentos em que vão os querer mal. Não há como fugir disso, é impossível. No primeiro momento vai ser a mentira, vai ser querer mal, vai ser sacanagem, vai ser o boicote, em algum lugar vai estar. Os pais e os professores vão ter de administrar isso.








 









Mas os pais e os professores sempre insistem em dizer que para tudo têm motivo e resposta, principalmente na educação.









A famosa transmissão da castração de que Sigmund Freud falava não é a boa educação, você ter de se sentir castrado por saber que não pode comer doce às duas ou três horas da tarde. Isso é uma ordem de qualquer moral. Castração é entender que sua mãe e seu pai não têm respostas. O que quer dizer que você não terá nem para você e nem para os seus filhos. É essa a transmissão, saber que essa é a herança mais importante, e a pior, sem dúvida.








 









Não entender tal herança pode causar maiores prejuízos?









Não existe nenhum problema que a falta de solução não resolva. Eu quero frisar isso, porque senão vamos criar uma sociedade em que para tudo tem remédio. O grande risco desta geração é que os jovens vão ser cifrados. Estaremos em uma sociedade contábil, em que tudo pode ser transformado em cifras. Para tudo tem remédio. Tudo vira índice. A menina vai escolher um namorado num coquetel de Viagra com Xenical e com Prozac. Ou seja: magro, potente e de bom-humor. E nós já estamos caminhando para isso.









 










Mas não fica muito confuso?









Não. Quanto ao estudo, os jovens não precisam ficar apavorados por começar a faculdade de história, ir para a medicina e finalmente ser massagista. Esses jovens vivem num mundo mix, eles são semióticos. Eles não estão unilateralizados, eles são multidimensionais. Na política, estamos vivendo o final de uma época. Tudo vai ter de ser repensado: a forma de governo, de participação política, de partidos. Em relação à escolha profissional, os jovens terão de fazer parcerias, como já disse anteriormente, e construir seu próprio caminho.








 









Eles terão paciência para tantas mudanças?









A tendência mundial é que os meninos da globalização, de 25 anos para baixo, sejam muito mais tolerantes que nós, mais velhos. Por quê? Por uma razão simples. O mundo industrial é um mundo vertical. É uma competição em relação à proximidade do ideal. Então, se eu faço “A” e você faz “B”, e se o que você fizer for válido, o meu não será. E como a minha perspectiva é que o meu “A” esteja mais perto do ideal que o seu, eu vou ser intolerante contigo. O mundo da globalização é o mundo da singularidade. É o do “para quê posso exercer minha singularidade?”. Necessariamente eu preciso permitir que você exerça a sua. Necessito da sua liberdade para poder exercer a minha. Se no mundo anterior a minha liberdade terminava quando começava a do outro, no mundo atual a minha liberdade começa quando começa a liberdade do outro.








 









Há uma inversão de 360 graus.









Sim, isso já está acontecendo. Mas qualquer coisa para acontecer precisa se transformar em reconhecimento. É como a arte. Van Goghjá pintou um girassol, mas não foi exposto na galeria. Nós temos que pôr. E a minha perspectiva é que nós precisamos colocar na nossa galeria os Van Goghque já estão aí. Eles já estão aí, são os jovens. Nós é que não estamos sabendo expor.








 



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