“Nossa sociedade é denuncista”

Lidar com a denúncia de parentes próximos é uma das constantes entre os pais que praticam a homeschooling. Aqui, uma família relata o cotidiano de estudos em casa

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Arquivo Pessoal
Pedro Henrique e a mãe: “é muito melhor estudar em casa do que na escola, diz o menino
Pedro Henrique Amaral de Assis tem 11 anos, recém-completados, em 24 de abril último. Há dois anos é aluno da educação domiciliar e cursa, em casa, o equivalente ao sexto ano do ensino médio. “É muito melhor estudar em casa do que na escola. Aprendo muito mais”, garante o menino. Seus pais, Clélia Rosa Amaral de Assis, 51 anos, e Bruno Valério de Assis, 34 anos, concordam com o filho. Para eles, é mais produtivo, educacionalmente para Pedro, passar por essa fase de seu aprendizado perto de quem “o ama verdadeira e incondicionalmente”. “Ele se torna uma criança mais segura, mais plena, consequentemente temos uma família mais desenvolvida”, assegura Clélia.


O caminho para esse casal de Governador Valadares, interior de Minas Gerais, adotar o ensino domiciliar como prática para o aprendizado de seu filho não foi fácil. Só no Conselho Tutelar da cidade, instância criada para a proteção dos menores, eles foram denunciados mais de 15 vezes, de acordo com Bruno. E pior, a maioria das denúncias foi feita por pessoas próximas à família. “Como todas são anônimas, não podemos afirmar quem, de fato, as fez. Mas sentimos que foram vizinhos e até parentes. Vivemos numa sociedade denuncista”, arremata Bruno.

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Sem recuar
O casal diz ter ficado chocado e triste quando tomou conhecimento da primeira denúncia, a qual os obrigou a prestar depoimento no Conselho Tutelar e na Promotoria de Justiça em Valadares. “Ficamos muito entristecidos com a situação, mas em momento algum pensamos em recuar ou desistir de nossa decisão”, complementa Clélia.


A persistência gerou resultados positivos. Hoje, eles podem prosseguir com a educação de Pedro em casa, a despeito da falta de regulação para esse modelo de ensino no país. O promotor de Justiça da cidade deu parecer contrário às denúncias por entender que Clélia e Bruno não estavam cometendo negligência ou abandono de menor. “Conseguimos provar nosso empenho e avanços nos estudos obtidos por Pedro a partir do ensino domiciliar”, pondera Clélia.


Pedro segue uma rotina diária de estudos preestabelecida pelos pais. Acorda, geralmente, às 8h00, e todos os dias da semana tem aulas definidas e tarefas a executar. As quartas-feiras, por exemplo, são dedicadas ao aprendizado da literatura, ciência e matemática. Há uma flexibilidade no local de estudo dele dentro da casa, que prefere sentar-se à mesa da cozinha para estudar. Em seu quarto, contudo, há uma escrivaninha com todo o material didático necessário que, segundo sua mãe, está sempre à vista para facilitar o interesse do menino. Clélia e Bruno, que decidem tudo em conjunto sobre esse assunto, resolveram comprar sempre todo o material equivalente às séries formais, estabelecidas pelo ensino, para fornecer a Pedro. Quando necessário, o garoto frequenta aulas de reforço. Atualmente, tem aulas de matemática, ensinadas pelo método Kumon, inglês e natação.


Sobre o fato de Pedro se isolar ou não em casa, mãe, pai e filho são enfáticos: “Não”. “Pelo contrário, a socialização dele é maior. Fazemos tudo em conjunto. Ele nos acompanha ao supermercado, à farmácia, onde quer que precisemos ir. Isso facilita e até aumenta a interação dele com outras pessoas”, pondera Bruno. Para Clélia, as amizades da escola não caminham necessariamente ao longo da vida. Ela lembra o fato de, no último ano de escola, Pedro só ter sido convidado uma única vez para alguma atividade fora do colégio. Na ocasião, fora chamado para participar de um aniversário de um colega. “Já como família vamos estar juntos o tempo todo.”


Pedro estudava em um colégio particular quando foi retirado para viver o ensino domiciliar. E, de acordo com seus pais, era um aluno com boas notas e sem maiores problemas de relacionamento. A decisão de tirá-lo da escola não foi tomada por uma discordância da metodologia de ensino praticada, relatam os pais. Clélia é, há 33 anos, professora na rede pública de ensino. Bruno, por sua vez, cursa eletromecânica no Senai. Mas foi de cunho ideológico e pessoal do casal, que contou com o apoio do filho, que também foi consultado na decisão. “Tiramos o Estado e, de fato, nos responsabilizamos por sua educação. Nós assumimos essa responsabilidade”, enfatiza Clélia.


Projeções
Em relação ao futuro, os pais não veem nenhum prejuízo para Pedro nem do ponto de vista de suas escolhas profissionais, nem relacionadas à legislação educacional vigente. Eles acreditam que o importante é o conhecimento adquirido pelo garoto. “Quero ser engenheiro ou pediatra”, dispara Pedro, ao falar de profissões que desejaria exercer. Apesar de serem tão distintas entre si, ele não vê conflito para optar por uma delas. “Tenho um primo pediatra e gosto de fazer contas”, reflete. Por enquanto, as duas matérias que mais gosta de estudar são geografia e ciências. “Já fiz um ecossistema em uma garrafa pet. Tinha areia, plantas e formigas. Durante um ano, acompanhei o desenvolvimento desse ecossistema. Foi muito bom”, lembra.


É com orgulho que os pais ouvem a fala do filho. Exemplo inconteste, na visão deles, do acerto na adoção desse modelo para a criança e para eles, como pais. “Não queremos ser foragidos, vivermos escondidos. Estamos vivendo uma opção nossa, de nossa família. Inclusive, nunca esperamos que essa nossa atitude fosse ter tamanha repercussão”, reafirma Clélia.








O perfil do pai educador


Se o Projeto de Lei 3.179/2012 for aprovado, a decisão afetará centenas de famílias quase invisíveis aos olhos da sociedade brasileira que educam seus filhos em casa. Essas famílias são compostas por pessoas dos mais diversos níveis educacionais, sociais e financeiros. Segundo a pesquisa Escola? Não, obrigado: um retrato da homeschooling no Brasil, de André de Holanda, a maioria dos pais dos estudantes domiciliares é casada, tem ensino superior completo, idade média de 38 anos, se declara cristão e estudou em escolas da rede pública.

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