Nossa babel escolar

Em terra de cego pela qual “dialetos” vagueiam, qualquer especialista bem-intencionado pode converter-se em vidente

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A educação escolar atual assenta-se numa tensa zona de fronteira. Isso porque se trata de prática descontínua exercida por profissionais oriundos de diferentes áreas, orientações teóricas etc. O que têm em comum um professor de matemática, outro de história e suas respectivas coordenadoras? Em alguns casos, o apego ético ao ofício; em outros, nada além do contra-cheque.

Se, por um lado, o hibridismo congênito do universo educacional possibilita uma vitalidade ímpar ao convívio profissional, por outro, não é raro que o cotidiano escolar mais se assemelhe a uma babel desgovernada. Ali, muitos “dialetos” vagueiam sem encontrar um ponto de ancoragem. Mais cedo ou mais tarde, sucumbirão ao senso-comum pedagógico, este advindo da infalível “experiência prática” de cada um.

Dessa espécie de “babelização” escolar resulta o risco do democratismo opinativo e do vale-tudo pedagógico. Situação não muito distinta é encontrada entre os teóricos, comentadores e afins. E, novamente, teremos um caleidoscópio de díspares orientações temáticas, teóricas e ideológicas. Isso sem contar a abominável literatura de auto-ajuda pedagógica que recebe adesão descabida dos profissionais.

Mediante tal quadro, vale indagar: em que consiste a autoridade educacional hoje? Qual fonte discursiva poderia ser autorizada como ordenadora, mínima que o fosse, dos fazeres pedagógicos em sua pluralidade? Um sobrevôo pelas entrevistas realizadas pela Educação, a partir de 2004, pode nos dar uma boa idéia desse inflacionamento discursivo do campo pedagógico.

De 19 entrevistados, apenas quatro são mulheres – mostra de uma prevalência masculina num universo empírico majoritariamente feminino. Seis são estrangeiros – mostra, talvez, de uma auto-suficiência tímida dos teóricos nacionais. O item mais curioso é a procedência profissional dos entrevistados. Dos 19, apenas cinco deles poderiam, a rigor, ser chamados de educadores. Os outros pertencem aos ramos da política, economia, administração, psicologia, psicanálise, antropologia, física, até uma vice-presidência de banco.

Os temas compõem impressionante mosaico de demandas educacionais, as quais rapidamente se converterão em produtos ou serviços, ou, ao menos, nas últimas novidades do campo alardeadas nos livros, congressos, consultorias etc. Exemplos? Crescimento pessoal docente, financiamento da educação, igualdade racial, empregabilidade, ensino profissionalizante, métodos de alfabetização, crítica aos PCNs, portadores de necessidades especiais, o interessante universo da geometria.

Apenas um dos entrevistados debruça-se explicitamente sobre a arena das salas de aula e seus protagonistas. Conclusão: em terra de cego, qualquer especialista bem-intencionado pode converter-se em vidente. Basta que tenha uma urgentíssima palavra-de-ordem a tiracolo. Enquanto isso, nas salas de aula brasileiras, restamos nós, nossas velhas dívidas e algum mal-estar.

PS: insurgir-se contra tal estado de coisas é a razão de ser desta coluna.




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP.

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



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