Nos Primórdios da palmatória

Igreja Católica não é responsável pela invenção do castigo físico,
mas legitimou a punição corporal com sua prática e reflexão

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No sentido metafórico, a expressão dar a mão à palmatória indica o reconhecimento de que, em se tratando de educação, não existem respostas fáceis, simples e, muito menos, prontas que orientem pais e professores. No sentido literal, refere-se a oferecer a mão aos golpes de um instrumento familiar à educação brasileira do século XVI.

Palmatória férula é uma expressão que quer dizer varinha de palmeira e a qual se atribui a origem da denominação da palmatória, também chamada de férula, em certos contextos. Ferula é uma palavra latina que se refere à planta de haste comprida, tendo sido, também, sinônimo de vara (para castigar crianças e escravos) e de chibata.

A palmatória, santa-luzia ou pavana é um objeto que pode apresentar-se em diferentes materiais e formatos, mas sempre com a mesma finalidade, castigar aqueles que negligenciam seus deveres ou desrespeitam as regras estabelecidas em instituições e práticas diversas. Porém, em todas com uma função ordenadora, como na escola, na família e no trabalho, especialmente o escravo.

No Brasil, a palmatória tinha o formato de uma haste finalizada por uma peça circular de madeira, com furos em disposição de cruz, conforme é possível verificar no Museu da Tecnologia da Educação, no Rio de Janeiro.

Existem muitas controvérsias em relação à origem da utilização da palmatória.

Afirmam, alguns estudiosos, que sua origem é muito remota, desde os tempos da Antiga Roma.

Muitos atribuem, erroneamente, a origem de sua utilização à Igreja Católica, pela associação com o flagelo do corpo assim como outros suplícios praticados por religiosos e educação católica no passado. O uso da dor física, como castigo e expiação, é anterior ao advento da Igreja Católica. Trata-se de prática bastante familiar à tradição judaico-cristã, como forma de educar, meio de redimir e prova de fé. Fosse o açoite, o autoflagelo ou mesmo os sacrifícios rituais, o tema parece ser o mesmo: o perigo representado pela voz do corpo.

Antes de Cristo – Fundamentos dessa concepção também estavam presentes entre os gregos, conforme verificamos, tanto nas tragédias como, por exemplo, Édipo Rei, quanto no pensamento platônico, especialmente no conhecido Mito da Caverna, no qual claramente se coloca o mundo sensível, físico portanto, como fonte de erro e engano. Nesse pensamento, o mundo físico é obstáculo ao verdadeiro conhecimento da essência humana, assim como a essência de todos os seres, uma realidade metafísica, do mundo das idéias. É preciso cegar os olhos do corpo, calar a inconstância do corpo, para alcançar o bem, o belo e o justo.

Se por um lado não podemos responsabilizar a Igreja Católica pela invenção do castigo físico, não podemos deixar de reconhecer o quanto ela legitimou o seu uso com sua prática e reflexão, mesmo quando esta discute as contradições existentes, no texto bíblico e na doutrina.

Podemos tomar como exemplo a carta apostólica Salvifice Doloris (A dor que salva), emitida por João Paulo II, em 11 de fevereiro de 1984, endereçada aos bispos, sacerdotes, fiéis da Igreja Católica e às famílias religiosas, sobre o sentido cristão do sofrimento humano. Nesse contexto, o sacrifício de Cristo é utilizado como paradigma do sentido do sofrimento.

Se por um lado o sacrifício é identificado com o mal, pois implica dor e sofrimento, por outro, significa o enfrentamento do mal. Cristo fez do sofrimento a base de um bem definitivo. Calar o corpo engrandece a alma. Cristo morre para ressuscitar.

A ambigüidade contida no sacrifício de Cristo – é um bem e um mal ao mesmo tempo – e em todos os sacrifícios rituais, mimeticamente reproduzidos nos castigos físicos, e sua permanência na história revelam que estamos diante de uma lógica cultural subjacente às instituições, uma lógica violenta e excludente. A multiplicidade e complexidade de questões envolvidas na prática do castigo físico indicam que é necessário muito cuidado e atenção na busca de caminhos de superação.

Devemos buscá-los assim como a água, que encontra caminhos mesmo nos terrenos mais difíceis.

Maria Luiza Guedes é professora do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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