Nos bastidores do poder

Sob a Névoa da Guerra expõe alguns dos complexos mecanismos de decisão do governo americano

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Sérgio Rizzo



A intensa cobertura da recente eleição presidencial americana pela imprensa mundial consolidou a idéia de que o nome do ocupante da Casa Branca e suas deliberações são tema de interesse não só dos EUA, mas de todos os países que, direta ou indiretamente, mantêm relações (ou, por motivos políticos, deixam de mantê-las) com o que alguns analistas internacionais chamam, talvez com algum exagero, de o “novo império”. Ou seja: todo o planeta.




No Brasil, os meios de comunicação trataram a disputa entre o presidente republicano George W. Bush e o senador democrata John Kerry como se integrasse o calendário eleitoral nacional. Hoje, é provável que a biografia de ambos seja mais conhecida do que a de muitos políticos brasileiros ocupando cargos de expressão. A essa difusão de informações nem sempre corresponde, no entanto, verdadeira compreensão sobre o papel exercido pelos EUA no campo da geopolítica e sobre os mecanismos particulares de funcionamento da sociedade (e da democracia representativa) americana.



Os bastidores do poder constituem, em especial, terreno ainda nebuloso. Quais os critérios de ação da Casa Branca? Quais as forças internas que se enfrentam quando o governo examina a hipótese de intervir militarmente em outro país, o que se tornou freqüente nas últimas décadas? Como são encaradas as perdas humanas?
Sob a Névoa da Guerra

lança algumas luzes sobre o que se diz e faz, nesses momentos tensos e delicados, nos gabinetes da Presidência e do Pentágono, sede da Secretaria de Defesa dos EUA.



O documentário de Errol Morris, premiado neste ano com o Oscar de melhor longa-metragem na categoria, nasceu de uma série de entrevistas concedidas por Robert S. McNamara, secretário de Defesa dos EUA de 1961 a 1968, para o programa
First Person

, da rede pública de TV PBS.

Ao avaliar o material, Morris julgou que renderia um estudo mais aprofundado. Optou então por usar o depoimento de McNamara como estrutura para uma espécie de seminário, com 11 “lições” apresentadas, em tom direto e professoral, pelo ex-presidente da Ford (o primeiro a exercer o cargo que não pertencia à família do fundador Henry Ford) convocado pelo presidente John Kenneedy para comandar a Secretaria de Defesa.



Com a morte de Kennedy, o presidente Lyndon Johnson o manteve no cargo. No governo, McNamara foi agente e testemunha de dois episódios-chave na história recente dos EUA, a tentativa de invasão de Cuba e a guerra do Vietnã. Seu depoimento inclui também a experiência na Segunda Guerra, na equipe do general Curtis LeMay, que comandou o bombardeio a alvos civis em 67 cidades japonesas, com saldo de um milhão de mortes.

Aos 85 anos, ele não se diz arrependido de nada, mas algumas de suas frases, expressões e raciocínios dissecam o funcionamento das entranhas do poder no país que assumiu o papel de polícia do mundo.




*Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo

.

contato:

srizzojr@uol.com.br





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