No tempo do “estudo integrado”

Ginásios vocacionais e colégios experimentais trabalhavam com conceitos semelhantes aos de trans e interdisciplinaridade

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Esméria Rovai, organizadora de livro sobre os ginásios vocacionais: interdisciplinaridade nos anos 60

A experiência dos antigos ginásios vocacionais, que existiram no Estado de São Paulo entre os anos de 1962 e 1969, terminando com o acirramento da ditadura militar, foi a responsável pelo melhor trabalho de interdisciplinaridade já realizado no Brasil. É o que defende a professora Esméria Rovai, doutora em psicologia da educação e autora de Ensino vocacional, uma pedagogia atual (Cortez). A experiência dos ginásios vocacionais no período acabou se restringindo a seis escolas no Estado de São Paulo – uma na capital e outras nas cidades de Batatais, Americana, Rio Claro, Barretos e São Caetano do Sul. Por serem ginásios em período integral, com atividades variadas no período da tarde, eram acusados de muito custosos por gestores da época. Sobretudo depois do Ato Institucional número 5, quando o incentivo à formação de alunos intelectualmente autônomos passou a constituir grande incômodo.

Naqueles tempos, como lembra Esméria, o termo utilizado era "estudo integrado", mas as práticas levadas a cabo pela pedagoga Maria Nilde Mascellani, que liderou o projeto, já trabalhavam várias disciplinas de forma conjunta, com métodos que hoje seriam considerados transdisciplinares. "O aluno começava por um estudo da comunidade, que abrangia diversas disciplinas, porque se chegava a elas por meio de uma problemática, ou seja, o estudo da comunidade", lembra.

Ex-aluna do Ginásio Vocacional do Brooklin, em São Paulo (SP), e hoje diretora-proprietária do Colégio Paulicéia, Carmen Lydia da Silva Trunci de Marco levou algumas experiências do Vocacional para a escola que comanda. "O estudo do meio, por exemplo, foi uma proposta do Vocacional", lembra.  Mas o trabalho é muito diferente do que acontecia nos antigos ginásios em razão da infra-estrutura e também em função das exigências da educação nos dias de hoje.  "A gente tinha uma casa montada dentro da escola para estudar economia doméstica, tinha uma lanchonete para entender o comércio, tinha horta. Eu tinha talão de cheques para pagar minhas compras na lanchonete, mas não utilizei gramática", conta. "Era um trabalho muito rico, mas difícil de implantar hoje em dia. Como é que eu vou explicar para os pais que não vamos utilizar livros didáticos?", pergunta.

Para Carmem, a educação hoje está muito voltada ao vestibular e às avaliações. "O foco do ensino vocacional era formar pessoas que tivessem liderança, agentes capazes de realizar transformações sociais. A ditadura acabou com isso", completa.

Esméria Rovai avalia que hoje não existe uma noção básica entre os educadores sobre o que é uma metodologia interdisciplinar, não há orientação clara sobre isso. "Na prática, cada escola faz de um jeito", diz. Certa vez,  uma aluna veio lhe contar que foram fazer um estudo do meio. Então Esméria perguntou qual o motivo de terem ido visitar Itu. A resposta foi que os professores haviam sugerido várias opções e os alunos sugeriram a cidade.  "No Vocacional, o aluno não escolhia onde queria fazer estudo do meio, o estudo do meio surgia em função da necessidade de estudar um problema. Se o problema era como se dá o desenvolvimento regional da região Centro-Oeste, então a gente tinha de fazer estudo do meio numa cidade dessa região. O estudo do meio se realiza no local que oferece mais possibilidade para o aluno estabelecer relações e fazer algo mais completo, colher dados, verificá-los e analisá-los. Só tem sentido a partir do momento em que você já está estudando algum assunto. Se não for isso, vira um piquenique, uma excursão", ressalta.

Nos ginásios vocacionais, relembra Esméria, ao fazer um projeto na área de artes industriais, o aluno entrava em contato com a matemática, com a produção industrial, com noções de ciências, de história. Dessa maneira, todas as disciplinas se integravam no estudo de um problema, a partir do qual o aluno estabelecia relações.

"Na interdisciplinaridade, não necessariamente todas as disciplinas precisam ser integradas. É possível fazer um estudo com duas ou três delas", explica Esméria. Na concepção pedagógica do Vocacional, o objetivo não era o estudo da disciplina, mas do problema para o qual a matéria trazia uma contribuição para a sua compreensão. Para a pesquisadora, nenhuma experiência de interdisciplinaridade que ela conheça suplantou a dos ginásios da década de 60.


Os experimentais


Concebida na mesma década, a experiência do EEPG Experimental da Lapa Dr. Edmundo de Carvalho também é fonte de inspiração para muitos educadores. Cristina Salvador, que hoje se dedica à formação docente e aos estudos de inter e transdisciplinaridade na Universidade São Judas Tadeu,  foi professora e posteriormente coordenadora do Experimental da Lapa.
"Quando fui refletir sobre as questões da interdisciplinaridade, a minha dissertação foi todinha baseada na vivência construída naquela época. Vi que tínhamos uma proposta interdisciplinar sem saber que éramos interdisciplinares", conta.
Naquela época, os termos utilizados para designar esse tipo de prática eram "proposta" e "inserção no contexto".

Cristina lembra que os professores trabalhavam sempre de forma coletiva. "Partíamos das disciplinas que ministrávamos, mas, na ação, na construção prática, o que fazíamos já era interdisciplinaridade. Decidíamos tudo no coletivo, tínhamos um trabalho que envolvia a horizontalidade, porque se reuniam as disciplinas para discutir os conteúdos que estavam sendo estudados. E também atuávamos na verticalidade das séries, sabíamos o que cada série estava estudando. Eu sabia como cada colega ia dar continuidade ou me anteceder em um trabalho. Pensávamos na integralidade do curso", explica.


Na letra da lei

"A interdisciplinaridade tem uma função instrumental." É o que diz o documento que explica as bases legais dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), editado no ano 2000 pelo Ministério da Educação para dar seguimento e tornar concretos os princípios educacionais definidos pela Lei de Diretrizes e Bases promulgada em 1996 (LDB 9394/96).
 
Segundo a orientação do MEC, o ensino médio deve ser estruturado em três grandes vertentes: linguagens e códigos; ciências da natureza e matemática; ciências humanas – todos os três campos acompanhados de suas respectivas tecnologias.

O documento explica que a adoção da interdisciplinaridade não tem como meta acabar com a divisão por matérias, mas sim "utilizar os conhecimentos de várias disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um determinado fenômeno sob diferentes pontos de vista". Isso a partir "de uma abordagem relacional, em que se propõe que, por meio da prática escolar, sejam estabelecidas interconexões e passagens entre os conhecimentos através de relações de complementaridade, convergência ou divergência". 

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